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Todos a bordo

Todos a bordo

Passageiros fijianos e indo-fijianos partilham um autocarro citadino da capital Suva.

Viti Levu, Fiji

Uma Partilha Improvável

Em pleno Pacífico Sul, uma comunidade numerosa de descendentes de indianos recrutados pelos ex-colonos britânicos e a população indígena melanésia repartem há muito a ilha chefe de Fiji.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


À chegada a Viti Levu, encontramos o aeroporto de Nadi sobrecarregado, repleto de famílias da Oceânia ávidas por aterrarem nas espreguiçadeiras dos resorts ao largo, mas também de mochileiros descontraídos e sem grandes pressas.

Nadi destoa do imaginário que a maior parte dos visitantes ocidentais trazem nas mentes. O cimento e o asfalto predominam, quebrados apenas por pequenas clareiras de vegetação tropical disputadas por bandos de corvídeos dos trópicos.

Recém-chegados a este ambiente urbano, espantamo-nos ao observar como prospera a comunidade indo-fijiana modernizada de Fiji. Inúmeros rent-a-car, hotéis e pousadas, lojas e restaurantes estão nas mãos de famílias com parentes esquecidos no subcontinente. Têm nomes que não deixam dúvidas: Singh Motel, Narwhal Tours ou Shandilya Flowers.

“Compreendemos que para vocês seja fascinante nós termos vindo parar aqui tão longe mas foram coisas do destino...” afiança-nos Sharmila, enquanto passa o espanador pelo tabliê do veículo pouco preparado para as estradas lamacentas do interior, que nos estava prestes a entregar. “Há muito que temos uma nova realidade. E, de cada vez que as coisas por cá ficam mais instáveis, as nossas mentes viram-se para a Austrália ou a Nova Zelândia, não é propriamente para a Índia. Temos familiares tanto aussies como kiwis. Eu, pessoalmente, não me importava nada de me mudar.”

Hoje, a coexistência dos indo-fijianos com os comercialmente mais discretos melanésios é frequentemente desafiada pelos interesses políticos e económicos dos líderes do país. 

Os indo-fijianos, mais hábeis na arte do lobby, ganham eleições atrás de eleições, por vezes coligados com representantes fijianos. Mas, com demasiada frequência, os militares predominantemente fijianos, rejeitam a submissão aos “invasores” e levam a cabo golpes de estado correctores. 

Desde 1987 até à data, foram três. O primeiro causou a expulsão – temporária mas longa - de Fiji da Commonwealth. Os seguintes, quase deram origem a guerras civis e a novas expulsões da comunidade anglófona.

E, no entanto, a coexistência política de ambas as etnias constitui um testemunho tão vivo como mutável do passado colonial de Fiji.

A meio do século XIX, os colonos ingleses infiltravam-se já em secções importantes das ilhas principais do arquipélago. Aos poucos, cobriram-nas com plantações de cana-de-açúcar, algodão e tabaco em que escravizavam indígenas raptados nas actuais Ilhas Salomão e Vanuatu.

A cana-de-açúcar, em particular, expandiu-se desmesuradamente e exigiu mais e mais cortadores que os colonos deixaram de poder obter nas ilhas em redor uma vez que o trabalho escravo fora, entretanto, proibido na Grã-Bretanha.

Como alternativa, os ingleses recorreram à mão-de-obra inesgotável da Jóia da Coroa. Entre 1879 e 1916, mais de 60.000 indianos foram legalmente trazidos para Fiji. Os contratos de cinco anos celebrados eram inicialmente vistos pelos signatários como bênçãos divinas mas essa percepção mudava num ápice perante a crueldade do trabalho e as condições de vida miseráveis em geral, agravadas por longas faltas de pagamentos e por alojamentos sobrelotados, partilhados por membros de diferentes castas e religiões.

Findos os prazos, a maior parte dos girmityas (girmit significa acordo) decidiram ou viram-se obrigados a permanecer em Fiji. Muitas  famílias vieram da Índia para se lhes juntarem. A sequência desta imigração forçada alterou, para sempre, o panorama étnico do país. Hoje, de quase um milhão de habitantes, Fiji conta com mais de 40% de indo-fijianos. 

À medida que conduzimos em redor de Viti Levu, constatamos como, por contraponto social aos habitantes indo-fijianos citadinos de Nadi e Lautoka, pequenos núcleos permanecem no interior rural. Lavram as terras de que ainda subsistem, fiéis à sua existência original e à cultura da pátria-mãe, que dista em redor de 11.000 km. 

Como acontece em certas zonas da Índia, por forma a divulgar a sua fé e evitar confusões, também em Viti Levu as famílias hindus marcam as suas casas com pequenas bandeiras vermelhas, enquanto as muçulmanas as pintam preferencialmente com o verde e branco do Islão. 

Nos mercados, mulheres enroladas em saris garridos, vendem frutas e vegetais enquanto os homens muçulmanos continuam a usar os seus vestidos salwaar-kameez.

A gastronomia pouco mudou, sustentada por uma incontornável paixão por rotis servidos directamente dos fornos caseiros, por caris picantes acompanhados de arroz e seguidos pelos doces tradicionais mithai. Também os tempos de lazer continuam a obedecer às modas de Mumbay e Nova Deli que as novas tecnologias agora permitem acompanhar com relativa facilidade. Quase sem excepção, os cinemas hindus das principais povoações passam regularmente os clássicos e os novos sucessos de Bollywood e, nas casas dos seus fãs, os DVD’s repetem-nos vezes sem conta bem como às estridentes bandas sonoras.

Estes e outros hábitos da comunidade indo-fijiana conviveram ao longo do tempo com o modo de vida original da ilha. Mas nem todos reconhecem ou aprovam a partilha da nação.

Um jovem casal visivelmente melanésio convida-nos para sua casa humilde, a norte de Suva. Ali, conversa puxa conversa, perguntamos-lhe se não vivem indo-fijianos na aldeia. Ao que nos respondem de sorriso nos lábios mas com determinação: “Em Suva, Nadi e Lautoka, isso até acontece mas, nas povoações, é raro. Por norma, nós vivemos entre fijianos, eles vivem entre indo-fijianos. Até mesmo entre eles iria haver problemas caso se misturassem de forma pouco pensada. Eles podem ser indo-fijianos hindus ou muçulmanos. Depois são calcuttas (do norte da Índia) ou madrassis (do sul da Índia). E, como se não bastasse, os hindus ainda pertencem a castas diferentes. A verdade é que é um milagre não haver mais confusão entre eles e entre eles e nós.”

Além de assistirem juntos a alguns desportos, eventos culturais e outras ocasiões especiais, durante largo tempo, os dois grupos pouco interagiram. As suas prioridades educacionais, sociais e económicas sempre foram diferentes. Em virtude disso, uma boa parte dos fijianos continua a considerar os indo-fijianos vulagi, que é como quem diz, meros intrusos. Uma vez por outra, os ânimos aquecem mas os conflitos mais habituais são os político-militares.

É claro que, à medida que a modernidade toma conta do país, a integração vai-se reforçando e, mesmo ainda apenas sob a forma de excepções, baralha todas as regras.

Mulheres fijianas começaram a usar jóias e tecidos com padrões de sari. Algumas das suas famílias deixam-se igualmente contagiar pela febre de Bollywood ao ponto de certos êxitos “indianos” recentes terem sido gravados por artistas indígenas. Estes, por sua vez, podem-nos ouvir em bares em que, empregados fijianos servem bebidas em taças de caril, tal como a comunidade indo-fijiana faz em suas casas.

E, como acompanhámos, entretanto da beira da Kings Road, numa tarde chuvosa, jovens indo-fijianos também já aderem ao rugby, até há pouco uma herança colonial exclusiva dos indígenas.

 

 

 

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