Esconder Legenda
Mostrar Legenda
À pendura

À pendura

Passageiros sobem uma colina de São Francisco pendurados num cable car.

São Francisco, E.U.A.

Uma Vida aos Altos e Baixos

Um acidente macabro com uma carroça inspirou a saga dos cable cars de São Francisco. Hoje, estas relíquias funcionam como uma operação de charme da cidade do nevoeiro mas também têm os seus riscos.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quem opta por subir a pé, depressa percebe como podem ser  desmotivadoras e desgastantes as colinas de Frisco. Para variar, a tarde está solarenga e, na Powell-Hyde Street, uma horda multinacional de visitantes entretém-se a perseguir os cable cars que vão aparecendo. Tal como nós, de máquinas fotográficas em riste, aguardam-nos nas várias dobras que a estrada impôs ao relevo, as mesmas lombas que Clint Eastwood e o detective Dirty Harry Callahan que representava galgavam contra o sistema e em contramão, ao volante de um emblemático blue Sedan, durante intermináveis perseguições policiais. À medida que se aproximam, os turistas invadem o asfalto e desafiam-nos numa postura incauta que leva os guarda-freios ao desespero.

A prisão de Alcatraz surge ao fundo e abaixo, a meio da baía de São Francisco. Um manto de nevoeiro arroxeado desliza por detrás da ilha que a acolheu e dá um toque final de beleza mística ao cenário. São três símbolos da cidade numa só imagem e fotógrafos de vários tipos - dos pré-amadores aos hiper-profissionais – correm as rampas acima e abaixo e atravessam a via íngreme vezes sem conta num desassossego que parece atrair mais e mais participantes.

No interior de cada funicular o ambiente está também longe de ser pacífico. Os passageiros são igualmente, em grande maioria, forasteiros. Mesmo que haja lugares, alguns dos mais jovens fazem questão de seguir pendurados no exterior e encaram a viagem como uma nova experiência radical, inclinando-se em excesso para fora, em nome da fotografia ou tão só da aventura, ignorando os alertas repetidos dos pacientes guarda-freios e dos seguranças que seguem na traseira das cabines. “Os jovens aí fora importam-se de não surfarem tanto, por favor? Há vários obstáculos pelo caminho e se alguma coisa acontece, estamos todos em apuros...”

Nunca Andrew Hallidie imaginou que, 138 anos depois, a sua criação ainda fizesse tanto furor. E, se actualmente a maior parte dos admiradores e passageiros saem incólumes deste frenesim, foi um acidente terrível numa das colinas da cidade que  convenceu este inglês a desenvolver o primeiro funicular de São Francisco.

Em 1869, 17 anos depois de chegar da Grã-Bretanha, Hallidie descia uma rua íngreme e molhada pela chuva. Sem aviso, uma carruagem que vencia a inclinação a custo, perdeu a tracção devido a um óbvio excesso de peso e começou a descair. Ganhou tal velocidade que, ao despenhar-se, matou os cinco cavalos que a puxavam uma tragédia que o impressionou tal como a inúmeros outros transeuntes e às autoridades.

Na terra da oportunidade, Hallidie não perdeu tempo. O seu pai registara, além-mar, a primeira patente para o fabrico de cabo de aço e Hallidie tinha-o já empregue em pontes e sistemas de içamento de minas em várias partes do Gold Country californiano. O passo seguinte foi mudar a produção para São Francisco e construir um sistema de transporte digno das suas colinas.  

A obra foi aperfeiçoada ao longo do fim do século XIX mas, em 1892, uma rede de eléctricos operava já noutras zonas da cidade com custos de construção e de manutenção bastante inferiores aos dos cable cars o que os colocou sob a pressão da companhia que geria os eléctricos, a San Francisco & San Mateo Electric Railway. A partir de então, à imagem dos itinerários que percorrem, o seu passado teve inúmeros altos e baixos.

A discussão agravou-se, polarizada entre o aspecto financeiro e a inestética dos postes e cabos necessários aos eléctricos. Até que o grande tremor de terra de 1906 destruiu várias cabines e restantes infraestruturas dos cable cars e obrigou a United Railroads a ceder à electricidade.

Em 1912, sobravam só 8 e apenas porque serviam colinas que os eléctricos não conseguiam vencer. Em 1944, a decadência tinha-se acentuado e já só restavam os 2 da famosa Powell Street. No fim da década de 70, além de diminuído, o sistema revelava-se demasiado desgastado e perigoso e foi desactivado. Mas, depois de cada baixo há um alto e, em breve, a história viria a inverter-se.

O turismo tornava-se cada vez mais importante para a cidade e os sucessivos mayors viram finalmente nos cable cars ícones de São Francisco que se deviam valorizar. Uma convenção do Partido Democrata a realizar-se em Frisco, contribuiu para justificar o enorme esforço financeiro e, em Junho de 1984, o sistema foi reactivado a tempo de beneficiar da publicidade que traria o evento político.

Desde então, a sua recuperação intensificou-se, como o interesse dos visitantes e o orgulho dos governantes e habitantes da cidade ainda mais porque o novo sistema de três linhas é o último no mundo permanentemente operado de forma manual.

Como pudemos compreender em várias viagens, não é qualquer um que chega a guarda-freio (gripman) dos cable cars. Só cerca de 30% passam no curso de treino e, até hoje, apenas uma mulher – com o nome bem sulista de Fannie May Barnes - foi contratada, em 1998.

Trata-se de um trabalho que requer um tronco forte mas, ao mesmo tempo, é relativamente qualificado já que a operação de travagem e libertação exige bom senso, sensibilidade e coordenação para que os veículos se imobilizem nos lugares indicados e se antecipem possíveis colisões e tragédias, algo que nem sempre é possível.

O historial de segurança das relíquias está longe de ser famoso. Uma investigação apoiada por números do US Department of Transportation apurou que quase todas as semanas os cable cars chocam contra outros veículos ou embatem em pedestres, ou que travam com demasiada brusquidão e magoam passageiros ou a tripulação. De tempos a tempos, verificam-se acidentes graves e até mortes. Como resume Miguel Duarte, um guarda-freios hispânico: “... muitas pessoas pensam que estão na Disneylândia, que isto é uma espécie de montanha-russa.” “Nós fazemos com que pareça fácil mas acreditem que não é.”

O mesmo se pode dizer da missão dos revisores que há muito sentem dificuldades para vencer os oportunistas e quase-anarquistas da classe média-baixa da cidade, conhecida por acolher um grande número de bilionários mas também pelo desemprego elevado e por uma sub-população de sem-abrigos. Em Abril de 2007, um outro estudo realizado comprovou que, até então, cerca de 40% dos passageiros viajava sem pagar bilhete. À estatística não serão inócuos os preços implacáveis praticados pela Muni (San Francisco Municipal Railway) que vão dos 5 dólares para uma simples viagem de ida aos 60 dólares dos passes mensais.

Subimos a California Street, ao fim de outro dia húmido. O sol põe-se por detrás da névoa, sobre o horizonte ocidental da metrópole e cria uma cortina amarelada de que vão irrompendo os veículos num dos cimos da colina. As silhuetas atraem-nos. Decidimos esperar pela chegada dos cable cars da carreira 61, que têm as formas que realmente queremos. Mas, mais uma vez, a operação é delicada e arriscada. A linha passa no meio da estrada que é também espaço dos carros e autocarros. Temos, assim, que actuar nos tempos ínfimos em que os cable cars da surgem na posição cimeira exacta e os outros veículos nos dão tréguas, um exercício que foi gerando as imagens pretendidas mas também alguma adrenalina.

Quando terminamos, percebemos que, nem ali, nem àquela hora tardia, somos os únicos a acossar os funiculares. Um casamento decorria num hotel luxuoso da avenida. E, para fechar as recordações, noivos e fotógrafo de serviço tiram algumas fotos com família e amigos mesmo no meio da emblemática California Street. A sorte sorri-lhes e passam dois cable cars num período mais tranquilo do trânsito. Nós aproveitamos também e registamos mais um momento insólito sobre os carris históricos de São Francisco.