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Portal para uma ilha sagrada

Portal para uma ilha sagrada

Iluminação faz reflectir e destacar o torii (pórtico xintoísta) do santuário de Itsukushima da quase noite nipónica.

Miyajima, Japão

Xintoísmo e Budismo ao Sabor das Marés

Quem visita a ilha de Itsukushima admira um dos três cenários mais reverenciados do Japão. Ali, a religiosidade nipónica confunde-se com a Natureza e renova-se com o fluir do Mar interior de Seto.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Nem todos os comboios japoneses são supersónicos e a viagem suburbana que nos trazia de Kure, através de Hiroxima até à doca de Miyajimaguchi demorava o seu tempo. Mesmo tendo acordado às 8h30, já só apanhámos o ferry do meio-dia, com pouco tempo para procurar o recinto religioso em que se realizaria o ritual Hiwatarishiki, levado a cabo por uma seita budista de nome Shingon. Apressados, contornamos as várias esquinas  do templo Itsukushima e apontamos para uma das ladeiras que nos conduziriam encosta acima. Pouco depois, tão ofegantes como curiosos com o que nos esperava, demos entrada no templo Daishoin, já repleto de monges, fiéis e visitantes de Miyajima, estes últimos, dispostos em redor do pátio em que se moviam os atarefados cenobitas.

Em trajes amarelos e brancos, de cabeças rapadas enfeitadas por fitas de tecido, estes começam por dar uma volta a fazer soar grandes búzios, acompanhados de pratos. Segue-se a purificação do altar e do público, momento em que somos temperados com sal. Logo após, os monges correm agarrados a uma grande corda, em redor de uma fogueira que queima ramos verdes de cedros em que deitam pequenas ripas de madeira com orações. A fogueira não tarda a consumir-se e deixa um legado de brasas incandescentes que é igualmente purificado com sal, sempre sob o som grave dos búzios. O único dos sacerdotes com vestes púrpuras, lidera uma espécie de pacificação divina das brasas que realiza na direcção de todos os pontos cardeais. Por fim, os outros monges envolvem-nas das tais folhas verdes e deixam apenas um trilho central aberto. Passam uma espécie de estandarte ao seu líder que, com um grito estóico, inaugura a fase sacrificial da cerimónia e atravessa as brasas com passadas profundas.

Seguem-no vários outros monges já ao ritmo de tambores, instrumentos de sopro e outros que animam mantras entoados de forma cada vez mais hipnótica. Não tardam a juntar-se ao cortejo fiéis de todas as idades que vencem a dor perdidos na névoa branca produzida pelo lento consumo da vegetação morta. Passam mães com crianças ao colo, idosas a que os religiosos dão as mãos para evitar que caiam e crentes de tal maneira arrebatadas pela experiência que, à saída da passadeira incandescente, mais parecem terem pressentido o Nirvana.

Por fim, a longa fila de seguidores esgota-se. Então, os monges extinguem as brasas, põem fim ao evento e recolhem aos seus aposentos, em redor do pátio. Ficamos ali por perto a examinar de que artefactos se tinha composto o ritual. Sem que o esperássemos, ainda espreitamos a sua lavagem minuciosa de pés, com recurso a baldes com água ensaboada e a toalhas brancas.

Abandonamos o templo Daishoin encosta abaixo em direcção ao litoral de Miyajima quando um casal que falava um inglês o mais básico possível nos convida para uma cerimónia de chá. Aceitamos e seguimos juntos para uma das esplanadas elegantes instaladas a meio da vertente. Os anfitriões esforçam-se por nos relembrar a importância do ritual do chá para a cultura nipónica e tentamos apreciá-lo e segui-lo a preceito. De qualquer maneira, as largas horas sem comer e a caminhada intensa desde que o ferry havia atracado em Miyajima há muito nos estavam a fazer penar. Foi, assim, como uma bênção grená de feijão e trigo mourisco que vimos aterrar à nossa frente dois pastéis manjus, ainda para mais dos nossos favoritos que durante os vários dias de exploração do Japão já os tínhamos experimentado de todas as formas e feitios.

Doumo Arigatou gozaimasu, thank you, thank you”. Agradecemos a experiência e o repasto de uma forma bilingue e o mais educada possível com sucessivas quase-vénias. Cumprida a atenção, descemos a escadaria e diversos trilhos na direcção do litoral. Voltamos a contornar o templo de Itsukushima que constatamos ter sido abandonado ao lodo marinho e aos limos pelo baixar da maré. Aproveitamos a duração cíclica do fenómeno para investigarmos o templo e a ilha a partir do leito do mar interior de Seto.

Para lá chegar, passamos pelas suas ruelas comerciais ladeadas de pequenos restaurantes especializados em ostras e outros mariscos abundantes em redor. Também em pastelarias e confeitarias de petiscos vendidos a preços híper-inflacionados.

Esbarramos com uma sessão casamenteira de dois noivos que ali se fazem fotografar em trajes tradicionais a bordo de um velho riquexó puxado por força humana. Pelo caminho, a fome volta a assolar-nos. Compramos biscoitos. Enquanto percorremos a marginal que conduz à frente de Itsukushima, quatro ou cinco dos veados que vagueiam por Miyajima cheiram o pitéu e perseguem-nos de forma tão tresloucada que nos obrigam a correr à sua frente, apesar de termos mochilas pesadas às costas.

Descemos umas escadarias para o areal e ficamos, por fim, a salvo. Mais uma centena de metros a pé e vemo-nos diante do grande torii “flutuante” do templo, uma das principais imagens de marca do Japão.

Este pórtico cor-de-laranja excêntrico foi dedicado às três filhas do deus xintoísta dos mares e das tempestades, irmão da deusa do Sol.

Desde há muito que Miyajima foi considerada sagrada. Por esse motivo, a populaça simplesmente não podia lá assentar pé. Para que os peregrinos pudessem aproximar-se e atracar no seu santuário – algo que deveriam, fazer através do torii – Itsukushima foi erguido como um pontão sobre a água, como se flutuasse e estivesse separado do resto da ilha.

A preservação da pureza espiritual de Miyajima foi levada a tais extremos que, desde 1878, foram evitados, por todos os meios, nascimentos ou mortes nas suas imediações. Até hoje, é suposto as mulheres grávidas se retirarem para o continente quando o dia do parto se aproxima. Passa-se o mesmo com as pessoas com doenças terminais ou idosos que estão visivelmente no término das suas vidas. Os funerais são proibidos na ilha. Entretanto, o acesso da população a alguns recursos da ilha foi aliviado.

Damos a volta ao torii e chegamos ao limiar arenoso que dá para um lodaçal coberto de limos verdes. Ali, uma brigada de anciãos cada qual com o seu chapéu escava com afinco em busca de ostras. Pouco depois, encontramo-los de baldes cheios a caminho dos restaurantes da povoação que se habituaram a fornecer.

A maré não tarda a encher. Devolve o estatuto de “flutuante” ao pórtico e o trabalho vespertino aos barqueiros com chapéus cónicos que assim pode, contar com centenas de passageiros ansiosos por contornarem e fotografarem o monumento e o santuário a bordo de um dos seus barcos gondolados.

A noite cai. Ficamos a admirar como a iluminação destaca o torii contra a silhueta da montanha oposta e o céu em lusco-fusco acima. Escurece de vez e o pórtico ganha um reflexo marinho fidedigno. Metemo-nos no ferry de volta ao continente com o plano de regressar a Miyajima na manhã seguinte para dar sequência à sua exploração.

Às dez da manhã, estamos a desembarcar uma vez mais. Sem qualquer desvio, apontamos para o Monte Misen, o ponto mais elevado da ilha, com 500 metros de altitude. Ladeira após ladeira, degrau após degrau, conquistamos o seu cume rapado e pejado de grandes rochedos de granito. De início, quebra-lhe a aspereza cromática apenas uma amendoeira bem florida. Mas, logo, junta-se-nos uma excursão escolar e o cimo enche-se de jovens nipónicos coloridos e faladores.

Subimos a um dos rochedos e contemplamos as encostas, o canal e os ilhéus do Mar de Seto subsumidas na névoa.

No regresso ao litoral-base, voltamos a passar pelo reduto do templo Daisho-in e descemos a sua escadaria mais encantadora, ladeada e abençoada por quinhentas estátuas rakan discípulas de Buda.

À chegada ao santuário de Itsukushima, a maré está mais cheia que nunca e parece fazer navegar o edifício com mais de quinhentos anos.

Numa das suas alas, um protagonista escondido atrás de máscara antiga de madeira de cipreste e num shozoku – robe largueirão de seda – leva a cabo um acto de uma actuação de noh, uma forma de drama musical clássico nipónico que perdura, no Japão, desde o século XIV.

A ascensão e descida ao Monte Misen tinham-nos deixado derreados. Foi, assim, num estranho misto de fascínio e sedação que nos deixámos ficar durante mais de uma hora a acompanhar as flautas e percussões exóticas e as vozes cavernosas e que as acompanhavam. Em breve, a peça terminaria. A maré voltou a descer mais ou menos em simultâneo com o cair da noite. Miyajima permaneceu fiel à sua rígida espiritualidade.

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