As quedas d’água chamam-se Lisbon.
Admiramo-las quando cai uma bátega que dissimula o caudal que lá se despenha.
Precipitamo-nos para o carro. Continuamos o percurso para sul da famosa Panorama Route, por entre pinhais e eucaliptais imensos que corrompem a paisagem.
Chegamos a Graskop, a grande povoação da região. Cruzamo-la entre vivendas gradeadas e ruas percorridas por moradores agitados que se esforçam para nos atrair para pousadas e negócios da sua conveniência.
A tarde vai para o fim. Há um outro lugar que mantemos prioritário. Desviamos para uma estrada secundária.
Desce de Graskop para oeste, aos esses, por uma encosta de um tal de Eastern Escarpment, província de Mpumalanga, em que a floresta se adensa.
A frente de nuvens carregadas que tínhamos vencido no trajecto impõe-se, à distância. Damos os primeiros passos exploratórios em Pilgrim’s Rest, quando a extensão do mesmo temporal nos volta a encharcar.
Obriga-nos a correr para debaixo de arcadas.

Edifícios do Royal Hotel, o mais conceituado do povoado
Segundo, entretanto, apuramos, pertencem ao restaurante do Royal Hotel.
Têm, na iminência, o Church Bar, estabelecimento que há muito atrai bebedores e pecadores forasteiros.
À entrada, um anúncio da cerveja Castle Lager convoca-os com um proselitismo fiado:
“É tradição que cada visitante que passe por Pilgrim’s Rest beba uma imperial no famoso Church Bar”.

Dito que favorece o famoso Church Bar de Pilgrim’s Rest
Cedemos ao apelo. Entramos. Saudamos o empregado de serviço.
Admiramos a parafernália de imagens, recortes com ditos cómicos e outros.
De jornais de outrora, que decoram a parede oposta à relíquia de balcão, uma plataforma feita de tábuas longas que, à imagem dos bancos altos e gastos, servem a história e a tradição.

Decoração histórica do Church Bar
Godfred serve-nos uma Castle Lager, a mesma promovida na camisola verde e amarela, multimodalidades (cricket, futebol e râguebi), da selecção sul-africana com que atende os clientes.
Godfred fala-nos do grupo de franceses recém-chegado e dos seus amados Kaiser Chiefs.
Damos uma derradeira olhada.
Com a cerveja, a chuva e a trovoada nas últimas, saímos à descoberta do lugarejo.

Godred, ao balcão do Church Bar de Pilgrim’s Rest
Caminhamos para cima e para baixo da via principal e inclinada, que agrupa o casario.
A cada passagem pelas imediações do Royal Hotel, vendedoras de cajus e frutos secos afins impingem os seus saquinhos de duzentas gramas e muitos menos rands.
Compramos dois a Ana e Beatrice, vendedoras concorrentes, mas compinchas.
Agradecido, o duo convence-nos a adquirirmos outros dois. Prendam-nos com uma canção religiosa que se habituaram a cantar na Zionist Church local, acompanhada de uma espécie de coreografia.

Vendedora de frutos secos, junto ao Royal Hotel.
Atingimos o cimo da rua.
Macacos saltam de galho em galho.

Memorial aos homens de Pilgrim’s Rest Perecidos na 2ª Guerra Mundial
Acima do memorial que louva os sete moradores da zona caídos durante a 2ª Guerra Mundial.
E disparados para cima do telhado da antiga casa da moeda.

Letreiro da velha Casa da Moeda, justificada pela abundância de ouro
Sucedem-se os negócios.
Surgem instalados em edifícios de madeira, ferro corrugado e chapa dura, erguidos nos primórdios de Pilgrim’s Rest.
Uma cabine telefónica e um marco do correio, ambos vermelhos, indiciam a génese colonial britânica, com inquestionável co-autoria bóer daqueles confins sul-africanos.
Adicionam cor a uma Central Garage automóvel em forma de A, paredes meias com uma tão ou mais providencial casa de chá.

A Garage de Pilgrim’s Rest, entre uma caixa de correio e uma cabine telefónica britânica
Por aí, detectamos uma cumulus nimbus imponente rosada pelo ocaso ocidental. Pilgrim’s Rest repousa numa bonança subtropical e crepuscular que nos deslumbra sem apelo.
Em vez de, como antes pensado, seguirmos até Mbombela (hoje, Nelspruit), decidimo-nos por pernoitar.

Edifícios do Royal Hotel, o mais conceituado do povoado
Passamos pelo Royal Hotel.
Dizem-nos que os quartos no núcleo principal estão ocupados pelo grupo francês.
Têm disponíveis algumas das casas complementares.

Um dos edifícios coloniais da cidade, o velho Banco
Levam-nos umas dezenas de metros mais abaixo na rua.
Enquanto nos instalamos, explicam-nos que vamos ficar no antigo banco da povoação, reconvertido num chalé do século XIX, decorado com papel de parede igual aos cortinados.
A mobília e os utensílios da casa de banho e cozinha desse mesmo tempo.

Uma das salas do antigo banco de Pilgrim’s Rest, hoje alojamento extensão do Royal Hotel.
Despertamos sobre as 8h30. Logo ali, do outro lado da rua, damos com os correios antigos reconvertidos em loja de recordações, mas ainda funcionais.
Entre vários outros edifícios, contam-se ainda museus que nos ajudam a compreender a génese secular da pequena vila.
Pilgrim’s Rest surgiu como resultado do influxo de mineiros, diz-se que gerado, em 1873, após dois prospectores – Alex Patterson e William Trafford – terem encontrado ouro no riacho Pilgrim duma tal de fazenda Ponieskrantz e imediações.
O intento de manterem o achado secreto falhou, quando Trafford decidiu registar o seu lote particular com um comissário designado para o ouro de Mac-Mac, explorado a meros 5km de Pilgrim’s Rest.
Centenas de outros prospectores e mineiros de partes distintas da África do Sul e do Mundo depressa se juntaram ao duo. Em Setembro de 1873, o governo proclamou a zona um campo aurífero. Gerou um segundo pólo da febre do ouro do Transvaal, quase 20 anos anterior ao da Grande Febre do Ouro do Klondike, ao longo do rio Yukon.
Em pouco tempo, o ouro encontrado permitiu a passagem das tendas provisórias a edifícios erguidos para durarem.
Em menos de um ano, à parte de muitos lares, existiam já vinte e uma lojas, dezoito cantinas, três padarias, igrejas, um jornal, uma tipografia, o Hotel Royal e outros.

Morador de entrada num edifício secular da povoação
Isto, apesar de quase todo o ouro encontrado na zona ser aluvial, e sob a forma de pó, menos valioso. Só muito raramente foram achadas pepitas, diz-se que, a maior, com 7,5 gramas.
O ouro em pó nunca chegou para satisfazer a quantidade de mineiros deslocados.
Sem surpresa, por volta de 1880, boa parte tinha-se mudado para novos depósitos recém-descobertos em Barberton, outra região da província de Mpumalanga.
Nesse hiato, muitos sonhos saíram gorados.
Ainda assim, as condições que a povoação oferecia a quem ela se entregava, levaram os mineiros a baptizá-la de Pilgrim’s Rest.

Alameda inclinada acima da encosta em que se estende Pilgrim’s Rest
No final do século XIX, com o terreno livre, empresas com recurso a equipamento capaz de escavar mais depressa e mais fundo entraram em cena. Em 1895, várias delas uniram-se.
Formaram a Transvaal Gold Mining Estates (TGME), a primeira empresa mineradora sul-africana listada na bolsa. A TGME conseguiu extrair quantidades de ouro que, não tarda, justificaram o emprego de electricidade e, de acordo, a construção de duas estações hidroeléctricas no rio Pilgrim.
Como resultado, em 1913/14, as minas de Pilgrim’s Rest originaram o valor recordista de mais de três mil quilos anuais.
Geraram riqueza até 1971. Nesse ano, Pilgrim’s Rest foi vendida ao governo sul-africano como monumento nacional. Uma empresa australiana, a Theta Gold Mines, reiniciou a mineração em 1998.

Outra perspectiva da Central Garage de Pilgrim’s Rest
Mantem-na activa. A vila, essa, subsiste na forma da relíquia histórica que continuamos a apreciar.
Abaixo dos velhos correios, há um mercado também feito de chapa e ferro corrugado.
Abriga dezenas de vendedores de artesanato e recordações que rogam pela atenção de quem por ali se apresenta.

Vendedor num mercado de artesanias de Pilgrim’s Rest
O mercado dista meros passos da destilaria de tecto íngreme e desdobrado convertida no aconchegante Scott’s Cafe, assim baptizado em honra daquela que é considerada a personagem histórica mais lamentável de Pilgrim’s Rest.
Walter Scott era apenas outro de muitos caçadores de fortuna que tentaram a sua sorte na povoação. Até que, numa noite ébria de festa, abateu Roy Spencer, seu amigo, filho de um banqueiro inglês, por ter fortes suspeitas de que este lhe teria roubado uma bolsa cheia de ouro.
Na manhã seguinte, Scott encontrou a bolsa, intocada, na tenda em que dormia. Quando ganhou consciência do que tinha feito, suicidou-se. Foi sepultado numa campa anónima, junto ao infeliz e condenado Roy Spencer.
A pouca distância do Scott’s Cafe, à sombra de uma árvore enorme, perdura uma loja fundada pouco depois do boom industrial da mineração.
A Clewer Store entrou em operação em 1920, enquanto “general dealer” de produtos e talho. Hoje, funciona num modo triplo de restaurante, bar e loja de recordações.

Uma loja de tudo um pouco, de Pilgrim’s Rest
Mantem uma pequena charrete sob as suas arcadas, à imagem de vários outros estabelecimentos que se valorizam em termos históricos, ao exibirem relíquias dos tempos áureos de Pilgrim’s Rest.
Dos tempos mais áureos, para sermos precisos.
Mesmo se inexploradas, as colinas em volta escondem quantidades substanciais de ouro. Tanto assim é, que todos os meses de Setembro, acolhem uns já famosos campeonatos de mineração.
Na sequência da caminhada, damos com o posto de abastecimento funcional da vila.

A Garagem e posto de serviço, ambos operacionais
Garante a derradeira hipótese de, como em breve fizemos, os forasteiros meterem combustível antes de cruzarem a ponte Joubert (1896).
De retornarem à estrada serpenteante que os leva para fora do vale profundo, de volta a Graskop e a terras mais elevadas da Panorama Route.

Quase noite acima do Royal Hotel e restaurante
COMO IR
Reserve o seu programa de viagem da Panorama Route e outros lugares na África do Sul com o operador QUADRANTE VIAGENS: quadranteviagens.pt Tel. 256 33 11 10
e-mail: [email protected]