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Gentlemen Club & Steakhouse

Gentlemen Club & Steakhouse

Anúncio móvel na caixa de uma camioneta promove um clube masculino e casa de bifes de Las Vegas.

Las Vegas, E.U.A.

Onde o Pecado tem Sempre Perdão

Projectada do Deserto Mojave como uma miragem de néon, a capital norte-americana do jogo e do espectáculo é vivida como uma aposta no escuro. Exuberante e viciante, Vegas nem aprende nem se arrepende.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Estão instalados o lusco-fusco e as cores garridas da Strip quando os repuxos do Bellagio se voltam a elevar. Como a quadrilha de Danny Ocean em “Ocean’sEleven”, uma multidão expectante deixa-se deslumbrar pelos movimentos graciosos da água. A banda sonora, “Time to Say Goodbye” (“Con te partirò”) de Andréa Bocelli e Sara Brightman, confere ao espectáculo um retoque extra de solenidade e dramatiza um momento de requinte e esplendor que, apesar de repetido até à exaustão, é sempre concorrido. A iluminação e os flashes, disparados vezes sem conta, geram um clarão interactivo que envolve o hotel e, por alguns minutos, relega para segundo plano a restante cidade. Terminado o show, a assistência desfaz-se aos poucos e é devolvida à realidade imprevisível de Vegas.

Do lado oposto da avenida, um exército de mexicanos dispostos ao longo do passeio desafia o glamour envolvente com roupas andrajosas e olhares de miséria sem solução: “ ... girls, girls, girls... “ sugerem indiscriminadamente aos transeuntes enquanto distribuem pequenos flyers de mulheres de sonho, nuas, que a promoção oferece a partir de 50 dólares. Os flyers rejeitados acumulam-se no chão e formam um tapete de lascívia que os locais já se habituaram a pisar. Não é motivo para grandes escândalos, afinal “What Happens in Vegas, Stays in Vegas”.

A fama libertina de Las Vegas vem de longe, da sua fundação em 1905, quando a concentração de casas de entretenimento adulto lhe granjeou o título de cidade do pecado e atraiu gente de todos os cantos do país e do estrangeiro. O dinheiro, tantas vezes sujo mas fácil, e o espírito de aventura que lhe era inerente fizeram deste oásis perdido na vastidão árida do Deserto do Mojave – a que os primeiros exploradores espanhóis chamaram Vegas (prados) - a maior urbe norte-americana fundada no século XX. Hoje, apesar de ser apenas a 28º em termos de população (cerca de 560.000 habitantes), Las Vegas continua a ocupar um lugar à parte no imaginário da nação e do mundo.

Tudo começou com um dos sonhos tresloucados de Ben “Bugsy” Siegel, que ali arriscou a sua reputação e muito dinheiro ao abrir um casino esplendoroso de inspiração tropical a que chamou Flamingo. Pouco tempo depois, o lugar foi introduzido a uma modernidade anunciada pela passagem do caminho de ferro que ligava Los Angeles a Salt Lake City.

Desenvolveu-se desenfreadamente graças a projectos de construção apoiados pelo governo federal e à legalização do jogo que permitiu ao estado do Nevada e a Las Vegas cruzar a Grande Depressão sem sobressaltos, acolher uma base da Força Aérea e uma das grandes auto-estradas oriundas do sul da Califórnia. Com o advento da Guerra Fria, o Nevada recebeu ainda um dos mais activos test sites nucleares dos Estados Unidos. A determinada altura, as explosões estilhaçavam janelas dos casinos da Downtown todos os meses. A animação depressa foi incorporada no espírito “the show must go on” e várias Miss Mushroom Cloud oficiais promoveram as facetas atómicas do estado em campanhas turísticas radioactivas.

Todas as sextas, ou ainda antes, se algum feriado o conceder, as longas estradas de acesso à capital do jogo enchem-se de carros apressados por condutores ansiosos. São muitos milhões os viciados em apostas dos Estados Unidos. Assim que as vidas o permitem, uma parte considerável conflui para as suas roletas, slot-machines e mesas de cartas favoritas onde, possuídos pela ganância e aprisionados nas salas cavernosas e fumarentas dos casinos perdem a noção do tempo e do razoável.

Dos mais insignificantes aos sumptuosos - como o Wynn, o Bellagio, o Caesar Palace e o MGM -, os casinos decoram as suas paredes com imagens sugestivas dos ganhadores e os jornais divulgam-nos, com pompa, dia após dia. Os falidos, esses, surgem apenas nas listas de devedores dos bancos e das empresas de crédito, de procurados pela polícia e, em casos extremos de desespero, das morgues.

Há ainda aqueles que jogam “dólar a dólar” para preencher um vazio existencial e os que podem perder por pura diversão por, de tão ricos, serem praticamente imunes aos estragos.  

Hollywood, Beverly Hills e a Mulholand Drive escondem-se logo ali ao lado, por detrás das encostas litorais da vizinha Califórnia. A viagem de jacto privado de LAX é tão curta que não chega para saborear uma garrafa de champanhe. As estrelas aproveitam a proximidade e desembarcam para ocupar lugares reservados ad eternum nas UltraLounges VIP dos casinos. Algumas – actores/comediantes/cantores - alargam a sua órbita de fama à cidade. Assim que pisam os palcos mais prestigiantes de Vegas ou lá filmam, passam a dela fazer parte como aconteceu com Elvis, Frank Sinatra, Cher, Bette Middler, Celine Dion, Seinfeld ou o britânico Elton John, todos eles protagonistas de espectáculos concorrentes sempre esgotados.

Até o célebre vizinho canadiano Cirque du Soleil, de início familiar e alternativo, moveu mundos e fundos para responder ao recrutamento de várias corporações presentes em Vegas. As suas produções locais - Mystere, O, Zumanity, Ka, The Beatles- Love, Believe e Viva Elvis - são, hoje, exibidas em seis dos hotéis mais importantes da cidade e tornaram-se, elas mesmas, de certa forma, corporativas.

Para compensar a falta de referências internacionais do Nevada, Las Vegas e, principalmente a Strip, foram geradas com base em clonagens e franchises culturais internos e externos. O próprio nome Strip foi tomado de empréstimo da Sunset Strip de Los Angeles e, com o passar do tempo, substituiu o original Arrowhead Highway.

Ao invés de aborrecerem, estes plágios arquitectónicos e conceptuais suscitaram enorme interesse num público em que predominavam os pouco viajados estadounidenses e continuaram a ser produzidos, sempre em função da capacidade de entretenimento e facturação deste american playground

A Strip tem actualmente 6.1 km preenchidos na quase totalidade por edifícios e complexos de visuais dramáticos como o Mandalay Bay, que assinala a sua extremidade norte e o futurista Stratosphere que delimita a sul. Entre ambos, impõem-se vários dos maiores casinos e resorts do planeta e 19 dos 25 maiores hotéis do mundo, por número de quartos. Nos melhores anos, passam pela cidade quase 40 milhões de pessoas. Para as impressionar, a iluminação dos edifícios e das ruas, em geral, é de tal forma potente que, vista do Espaço, a área metropolitana de Las Vegas revela-se a mais brilhante à face da Terra.  

A Strip acolhe também as duas maiores empresas de jogo do Mundo: a Harrah’s Entertainment e a MGM Mirage. Como tributo à imagem da marca, esta última dá-se ao luxo de exibir ao público leões, tigres brancos e outros felinos, nas suas instalações megalómanas.

Estamos a quase 14.000 quilómetros de França, ainda mais de Itália e do Egipto mas surgem por aqui uma reconstituição de Paris que contempla os indispensáveis Arco do Triunfo, Campos Elísios e Torre Eiffel; uma pirâmide de Luxor protegida por uma esfinge e a mini-Veneza do Venetian em que circulam gôndolas subtilmente movidas a motor, para compensar, conduzidas por gondoleiros trajados a rigor, alguns cantores de ópera.

Cruzando a avenida, a fantasia continua, desta vez, entre os piratas e corsários do Treasure Island e prolonga-se pelo imaginário greco-romano do imperial Caesar. Seja qual for o espaço, as instalações revelam-se invariavelmente requintadas e acolhedoras, refrescadas ou aquecidas por sistemas de ar condicionado poderosos que protegem os visitantes das temperaturas sufocantes do Verão, - quando as máximas chegam facilmente aos quarenta graus - e das gélidas do Inverno, que roçam os zero. 

Para espanto geral, nos últimos anos, a concorrência desenfreada e o estado decadente da economia dos E.U.A. (que derreteu o poder de compra dos norte-americanos) gerou diárias de hotéis e preços, de uma forma genérica, bastante acessíveis. Principalmente de Domingo a Quinta, verdadeiras instituições como o Bellagio e o Stratosphere oferecem quartos e refeições divinais por valores em que custa a acreditar. São os japoneses, sempre abastados, e os europeus - que gastam no agora poderoso Euro - quem mais beneficiam e se surpreendem.

Os passeios da Strip não fogem à esfera do espectáculo barato. Servem de sala a um sem número de imitadores, promotores e artistas tantas vezes empresários de si mesmos. Elvis Presley está vivo em Las Vegas e, além de presente em determinadas capelas da Downtown, aparece multiplicado ao longo da Strip. É raro o visitante que deixa a cidade sem uma foto sua abraçado a um King trajado a rigor. Os sósias quase nunca cobram directamente mas apressam-se a sugerir: “A contribution would be just fine ... one of ten or even ... twenty if you don’t mind ...”  

Por cachets substancialmente mais altos, de 1969 a 1976, Elvis Presley actuou em Las Vegas cumprindo uma média de dois concertos por dia, (um durante a tarde e outro à meia-noite). Dependendo da sua disposição, certos espectáculos foram mais curtos ou mais longos, mais ou menos vivos e contagiantes mas, entre tanta actuação, contaram-se obviamente alguns dos seus momentos inesquecíveis. Vegas está eternamente agradecida.

Duas décadas antes, durante a febre de construção iniciada pelo Flamingo, foram outros os entertainers, só ligeiramente menos famosos. Enquanto os magnatas apoiados pela máfia elevavam o  esplendor da cidade ao nível dos últimos andares dos seus  hotéis-casinos, chegavam novos grupos de dançarinas topless, de França, inclusive. Para credibilizar os palcos demasiado despidos foram então contratados nomes já famosos do showbizz norte-americano. Frank Sinatra, Liberace e Sammy Davis Jr, estiveram entre os pioneiros.

Nos dias que correm, os espectáculos diversificaram-se. Uns resumem-se a experiências de Stand Up Comedy de sucesso, transpostas de outras partes do país, como o exótico Carrot Top, Terry Fator, David Spade ou o ocasional Seinfeld. Outros revelam-se mega-produções multi-disciplinares e tecnológicas. E se o Cirque du Soleil vinha a monopolizar este tipo de shows, a recente inauguração do elegantíssimo hotel-casino Wynn, implicou a entrada em cena de um concorrente digno de registo, o Le Revê.

O próprio acesso à sala, feito através dos corredores e átrios avermelhados, aveludados e brilhantes do Wynn deixa perceber algo especial. Lá dentro, revela-se o único aqua-theater de Las Vegas e, assim que a acção tem início mergulha, nada, dança, salta e representa um elenco de 85 artistas ágeis capazes de combinar força, sensualidade e drama num mundo anfíbio e aéreo de fantasia que encanta o mais céptico dos espectadores.

De volta à Las Vegas real, nem tudo se mostra tão elegante. À saída do Wynn, um semáforo no vermelho detém um pequeno grupo de pedestres e um camião adaptado para fazer de outdoor móvel. A tela exibe um anúncio sedutor. Uma loura irresistível surge deitada sobre um sofá, de cabeça reclinada e olhos fechados numa postura de pura provocação e volúpia. O texto, em dourado, remete para a origem supostamente sofisticada de tal preciosidade. E é directo: ”Treasures. Gentlemen’s Club & SteakHouse”. Estamos em Las Vegas e na cidade do pecado tudo tem perdão.