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Recanto histórico

Recanto histórico

Pormenor de um café de Queenstown, uma velha povoação mineira da costa oeste da Tasmania.

Tasmânia, Austrália

À Descoberta de Tassie

Há muito a vítima predilecta das anedotas australianas, a Tasmânia nunca perdeu o orgulho no jeito mais rude que aussie de ser e mantém-se envolta em mistério no seu recanto meridional dos antípodas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Dominadas pelos tons de verde e amarelo das plantações de cereais e das sebes que as delimitam, as Midlands estendem-se para norte de Hobart. São uma zona relativamente plana, com um potencial agrícola que é explorado desde os primeiros anos da colonização, algo que tem reflexo no número de vilas rurais de pedra, antigas povoações guarnição e correio ali presentes. Em Oatlands, por exemplo, encontra-se a maior colecção de arquitectura georgiana, com 87 edifícios históricos contabilizados só na rua principal. Já Ross, foi construída, em 1812, para proteger os colonos que percorriam na principal estrada norte-sul, dos ataques dos aborígenes. A sua famosa ponte foi construída por Daniel Herbert, um mação condenado a quem foi concedido o perdão como recompensa pelo trabalho exaustivo nos 186 painéis que decoram os arcos. O monumento tornou-se na grande atracção mas toda a vila se revela pitoresca, animada por pequenas lojas de artesanato e casas de chá aconchegantes. Outra das suas curiosidades é um cruzamento que pode conduzir a quatro direcções: a Tentação, representada pelo hotel-pub Man O’Ross, a Salvação, oferecida pela igreja católica, a Recreação, proporcionada pelo edifício cultural da câmara local e, por fim, a Condenação (a velha cadeia).

Um desvio para leste conduz à costa oriental da Tasmânia, conhecida como Sun Coast graças ao seu clima suave. A estrada, estreita e sinuosa, sobe e desce inúmeras pequenas colinas mas, mais que o traçado de montanha russa, é a sucessão de cadáveres de animais que impressiona.

A proliferação de animais com hábitos nocturnos – com predomínio para os marsupiais - e a falta de protecções que evitem as suas incursões sobre o alcatrão, fez da ilha uma verdadeira World Roadkill Capital, o título atribuído pelos anglófonos. As vítimas dividem-se entre várias espécies e sub-espécies: reconhecem-se cangurus, wallabies (pequenos cangurus) e pademelons (cangurus ainda mais pequenos) equidnas, raposas, diabos da Tasmânia e opossums (gambás) , estes últimos dos mais temidos pelos condutores, por o seu físico robusto provocar enormes danos nos motores e carroçarias.

A Tasmânia preserva vastas áreas de montanha e florestas densas, redutos naturais em que a civilização ainda está por penetrar. A fauna local beneficia desses ecossistemas e do facto de serem apenas 500.000 os humanos e reproduz-se a alto ritmo. Mas nem todos os animais têm a mesma sorte. O Tigre da Tasmânia (thylacine) caçava o gado dos colonos. Extinguiu-se, em 1936, vítima das sucessivas vinganças. Como é normal nestes casos, subsistem defensores de que alguns espécimes furtivos se escondem na Tasmânia profunda.

Num daqueles desenhos animados apresentados pelo saudoso Vasco Granja, Bugs Bunny é acossado pelo Diabo da Tasmânia e recorre a um dicionário para perceber melhor que estranha espécie o ameaça: “ ... aqui está, Diabo da Tasmânia: besta forte, assassina, dotado de maxilares poderosos como uma armadilha de aço – é insaciável – alimenta-se de tigres, leões, elefantes, búfalos, burros, girafas, polvos, rinocerontes, alces, patos ... ao que o predador acrescenta: “E coelhos”.  “Coelhos? Não diz nada aqui.”, responde Bugs Bunny, esgotando a paciência do Taz que, para impor a sua vontade, completa o dicionário com um lápis.

Apesar da reputação diabólica, o grande símbolo da ilha pode estar condenado ao mesmo destino do thylacine. Em certas regiões, a sua população diminuiu cerca de 80%. Além dos atropelamentos, que acontecem quando se alimenta de cadáveres de outros animais sobre o asfalto, este marsupial carnívoro foi assolado por um tumor facial que os cientistas não conseguiram até agora controlar. Após intenso lobby, o governo da Tasmânia obteve autorização da Warner Bros para vender cinco mil peluches do Taz e usar o lucro no combate à doença. A oferta foi pobre tendo em conta que a imagem do animal rende, todos os anos, vários milhões de dólares à companhia.

A estrada prossegue para norte ao longo do litoral ventoso do leste. Quando chega ao meio da ilha, corta para uma península descaída no mapa e entra no Parque Nacional Frecynet, um território protegido em que abundam tanto as praias selvagens de areia branca e mar revolto como enseadas tranquilas de águas azuladas que dão para penhascos imponentes e encostas florestadas. Duas destas enseadas que quase se tocam na Wineglass Bay transformaram-se na paisagem de eleição da Tasmânia. Para a admirar, os visitantes percorrem os mais de 600 degraus que levam ao seu miradouro mas só os mais jovens ou em boa forma se aventuram pelo longo (3 horas, ida e volta) trilho íngreme que desce para as praias. Para aqueles que o fazem num dia de Verão, os mergulhos nas águas revigorantes do Mar da Tasmânia, chegam como a recompensa perfeita.

Duzentos e dez quilómetros para norte da capital Hobart, Launceston é a segunda maior urbe da ilha. Ainda a anos luz da capital Hobart no que diz respeito ao desenvolvimento e ritmo de vida, a cidade só há pouco acordou com o ruído turístico que se fazia sentir na Tasmânia. Como resultado, as suas atracções resumem-se a alguns restaurantes regionais e ao chamariz injustificado da Cataract Gorge que nem visitada de teleférico impressiona. Vinte minutos de carro depois, surge a costa setentrional, a mais desenvolvida da ilha e, como Launceston, pouco atractiva razão porque, em sua vez, os principais guias aconselham a Tasmanian Wilderness World Heritage Area, o interior selvagem que se estende para sudeste.

Uma via sinuosa de terra batida subsumida na vegetação e atravessada por cangurus de todos os tamanhos ascende das planícies rurais do coração da ilha para as alturas. Quando a estrada termina insinuam-se uma passadeira de madeira e sinais que alertam para um elevado risco de queda. Trezentos metros depois, a passadeira abre para um dos cenários realmente inóspitos e grandiosos da Tasmânia. Entre a visão e a vertigem, impõem-se para diante os enormes penhascos e os vales glaciares amplos do Devils Gullet, com vértice profundo no leito do Fisher’s River. Os Roaring Forties – ventos gélidos que circundam a Terra a esta latitude – sopram com uma força avassaladora. Dão toda a razão de ser aos avisos de perigo e exigem mãos firmes na  plataforma de observação.

Para ocidente deste território extremo surge o Parque Nacional Cradle Mountain-Lake St.Clair, o mais reputado da ilha, Património da Humanidade e palco do concorrido Overland Track. Ao longo de oitenta quilómetros e durante cinco ou seis dias, este percurso que liga o Cradle Valley a Cynthia Bay delicia os caminhantes à medida que serpenteia entre as montanhas e lagos da região. Do lado de lá do estreito de Bass, o simples som dos seus nomes chega a provocar arrepios. «Cradle Mountain? Overland Track? They’re awesome, mate!» comentam, sem reticências, Ian e Kate, dois irmãos australianos de Melbourne.

Deixados para trás os parques nacionais, a meio da última descida tortuosa da Lyell Highway, desvenda-se um panorama semilunar feito de montanhas e vales despidos e gastos. A inclinação termina em Queenstown, uma povoação de aparência e atmosfera western que trocou a mineração erosiva pelo turismo. Com respectivamente 3400 e seiscentos habitantes, Queenstown e Strahan – a sua vizinha do litoral – servem de porta de entrada para o grande Sudoeste, a última fronteira tazzie, onde as estradas não chegam e a natureza prospera com esplendor indisputado.

Strahan surge timidamente sob a protecção do pequeno porto de Macquarie. Está cercada por uma imensidão de mato e pântanos que, como as focas e os leões-marinhos, invadem as praias inóspitas da costa ocidental, permanentemente batidas pelas águas traiçoeiras do Antárctico. Para o interior, o Franklin e o Gordon destacam-se entre vários rios furtivos. Ambos se escondem em florestas tropicais quase impenetráveis e passam por gargantas profundas que vão acelerando os seus caudais revoltos.

Se existisse um top para os povos intrépidos, os ozzies surgiriam sempre no primeiro lugar. Apesar da rudeza da região, depressa a adoptaram como uma espécie de parque de diversões em que brincam ao trekking e ao rafting ultra-radicais durante dias a fio. Dependentes da adrenalina e apaixonados pelo dramatismo dos cenários, continuam a voltar vezes sem conta a estes confins insulares da Austrália.