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Um outro templo

Um outro templo

Templo do Vento acima de uma enseada que se crê ter sido usada para o desembarque de canoas carregadas de bens para transacções comerciais na cidade.

Tulum, México

A Mais Caribenha das Ruínas Maias

Erguida à beira-mar como entreposto excepcional decisivo para a prosperidade da nação Maia, Tulum foi uma das suas últimas cidades a sucumbir à ocupação hispânica. No final do século XVI, os seus habitantes abandonaram-na ao tempo e a um litoral irrepreensível da península do Iucatão.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por mais que nos esforcemos, falhamos em ajustar o panorama balnear por diante à era Maia. Um mar de turquesa desenrola-se, ao sabor da brisa, sobre o areal coralífero. Não chega a tocar os rochedos calcários cinzentos que delimitam a costa. Coqueiros e palmeiras vigorosas despontam da areia e do cimo da falésia já de si coberta de vegetação tropical. E dezenas de banhistas deleitam-se naquele afago excêntrico de água e sal, entretidos com flutuações e conversas de trazer por praia. Acima, sobranceiro, o templo Maia do Deus do Vento parecia louvar a pintura que reverenciávamos e o bem-estar estival que dela irradiava.

Meio milénio passara desde que o templo e a cidade para o interior tinham cessado as suas funções mas grande parte dos veraneantes eram, uns mais outros menos, maias. A sua estatura baixa, os cabelos lisos e longos das mulheres, os olhos amendoados e os narizes aduncos de bico de pássaro deixavam pouca margem para dúvida.

O lugar que frequentavam chama-se, ainda hoje, Tulum, termo maia iucateca mais tarde adoptado por inspiração dos muros de que os seus antepassados dotaram a povoação, a precaver as ameaças vindas do grande desconhecido azul. Crê-se que, na origem, os maias a terão baptizado de Zama, a Cidade da Aurora, numa homenagem ao brilho esotérico que mergulhava todos os dias no oceano e que dele, noite após noite, se reerguia.

Os conquistadores ibéricos também apareceram daqueles lados. A partir de 1502, os maias assistiram, incrédulos, a como grandes torres flutuantes surgiam acima do horizonte e se agigantavam na sua direcção: Cristovão Colombo e os seus marinheiros, que terão ancorado a sul nas actuais Honduras. Logo, em 1517, Francisco Hernández de Córdoba e a sua frota. Apenas um ano depois, a de Juan de Grijalva. Este conquistador desembarcou na ilha de Cozumel e navegou para sul. Nessa ocasião, os espanhóis terão pela primeira vez avistado Tulum. Os recifes ao largo tornaram complicada a aproximação. De qualquer maneira, o contacto imediato revelava-se incauto devido ao risco que representava para os europeus apresentarem-se a cidades indígenas tão poderosas, sem terem ideia de que tipo de acolhimento os esperava. Juan Diaz, um dos membros da expedição de Juan de Grijalva mencionou-a nos escritos que mantinha. O seu testemunho contribuiu para a invasão inaugurada por Francisco de Montejo que requereu ao rei de Espanha o direito de conquistar o Iucatão, em 1521, o mesmo ano em que, apoiado por guerreiros Tlaxcalan, Hernán Cortéz capturou o imperador azteca Cuauhtemoc e Tenochtitlan, a capital monumental do império Azteca.

Em 1526, Carlos V concedeu, por fim, a Montejo, o título de Capitão General do Iucatão. Volvidos dois anos, Montejo regressou à região. Tentou tomá-la a partir da zona de Tulum e Chetumal. A resistência que encontrou foi, todavia, feroz. Obrigou-o, em vez, a tentar por Oeste, pela província actual de Tabasco. Viria a ser o filho de Montejo, Francisco de Montejo “El Mozo” a conseguir a conquista da península, materializada com a fundação de Campeche e de Mérida, ainda hoje duas das suas mais impressionantes cidades coloniais.

De acordo com os registos históricos, a área de Tulum era povoada desde o século VI d.C. Prosperou sob a esfera de influência maia a partir de 1200 d.C., enquanto entreposto comercial complementar de Cobá, na confluência de diversos sacbeobs, caminhos reais pavimentados provindos do Centro do México e de outras partes da América Central. Em Tulum, os maias habituaram-se a trocar entre si alimentos, algodão, instrumentos decorativos, de trabalho e até de guerra, de prata e de ouro, sal, têxteis e penas. A cidade atingiu o seu auge entre os séculos XIV e XVI com forte impulso do comércio de uma outra matéria-prima mineral, a obsidiana, a pedra salgada dos maias. A obsidiana tinha e tem um lugar especial na sua cultura e presença em inúmeras esculturas e expressões também religiosas. Os maias associavam-na a divindade. Consideravam que era criada no submundo infernal de Xibalba, um lugar em que reinavam os deuses da morte.

Por estes e por outros motivos, Tulum prosperou. Passou ao largo da ocupação e destruição disseminada pelos conquistadores. A selva densa da região mexicana actual de Quintana Roo isolava-a de outras zonas de que os espanhóis se apoderaram. Apesar de o tema suscitar acesa discussão, tem predominado a ideia de que, quando os espanhóis chegaram, uma boa parte das maiores cidades maias tinham já sido abandonadas há alguns séculos e transformavam-se em ruínas engolidas pela selva. A causas mais aceites para esta debandada foram a sobrepopulação de cerca de 15 milhões de súbditos em todo o mundo maia. Também a seca, a deflorestação e o extermínio de animais de grandes portes que serviam de alimento.

Os habitantes tinham-se dispersado por povoações de menores dimensões o que causara a súbita ruptura da estrutura social e religiosa na base do clímax civilizacional da nação.

Cerca de 70 anos após os espanhóis terem começado a liquidar o império maia obcecados pela demanda do ouro, Tulum resistia. Até que a varíola e outras doenças trazidas do Velho Mundo pelos marinheiros, guerreiros e missionários lá chegaram, fragmentaram a sociedade local e causaram mortes atrás de mortes.

No virar do século XVI para o XVII, foi a vez de Tulum sofrer uma debandada geral. Quando as suas gentes partiram, a estrutura urbana e a arquitectura da cidade foram legadas ao tempo. Quem, como nós, tem o privilégio de as explorar, depressa percebe que não se tratava de um lugar qualquer. Os seus habitantes, entre 1000 e 1600, ocupavam uma vasta área mais distante do oceano, externa ao complexo religioso que continua protegido por uma muralha de três a cinco metros de altura, oito de espessura, cerca de 400 metros de comprimento no lado paralelo à costa e em redor de 170 nos dois lados oblíquos ao mar. As vertentes noroeste e sudoeste das muralhas foram dotadas de torres de vigia. Próximo da face norte, um cenote (lagoa de um complexo e vasto sistema aquífero subterrâneo erodido na rocha calcária) fornecia água fresca à cidade. Outros do mesmo sistema reforçavam o fornecimento em redor: Naharon, Tortuga, Vacaha, Abejas, Nohoch Kin. Vários deles servem, hoje, de atractivos balneares alternativos à beira-mar do Mar das Caraíbas. Descobriu-se recentemente que alguns continham ossadas humanas preservadas com entre 9.000 a 13.000 anos. Sabe-se também que os cenotes foram mais tarde usados pelos maias para oferendas sacrificiais.

No fulcro da área muralhada de Tulum ficava o Castelo, um templo piramidal com 7.5 metros e uma imponência que o destaca dos restantes edifícios, incluindo o Templo dos Frescos e o Templo do Sol, os dois outros mais proeminentes. Um pequeno santuário do Castelo parece ter sido erguido mais tarde em jeito de farol com a função de indicar uma entrada natural no recife de coral por que as canoas em aproximação podiam ingressar. Coincidência ou não, a praia no prolongamento dessa passagem assume a forma de uma enseada, rara tanto acima como abaixo na costa. Esta pequena baía foi dotada do Templo dos Ventos, crê-se que com o propósito de abençoar a navegação numa área da América Central que, como então, continua a ser grassada por ciclones.

De Tulum, os bens trazidos por mar, podiam ser ainda transportados rios Motágua e Usumacincta/Pasión acima. Estas artérias fluviais davam acesso adicional às terras baixas e altas do Iucatão e da Guatemala.

A configuração favorável do litoral pode ter constituído a razão de ser de Tulum, logo adornada pela parafernália religiosa, cerimonial mas também empírica e científica de que os maias revestiram a sua civilização. O Templo dos Frescos terá sido usado como observatório dos movimentos do sol, motivo porque figuras do deus do Sol (Kinich Anau) surgem em diversos nichos da sua fachada. Revestimentos de estuque pintado sugerem que o templo foi, no entanto, dedicado ao deus Itzamnaaj, criador da escrita, patrão das artes e das ciências. Porções dos séculos XI e XII, algumas, posteriores, exibem figuras a levar a cabo tarefas mundanas como uma mulher a moer milho numa pedra. Em contraponto, uma do deus tolteca e azteca da criação Tezcatlipoca sugere um contacto permanente de Tulum com cidades do centro do México.

Dia após dia, o complexo mantém os forasteiros mais interessados em história entretidos com as explicações e suposições da criação e existência de Tulum. Os seus visitantes aumentam de ano para ano.

A visão do Templo dos Ventos com a orla do Mar das Caraíbas azul-turquesa à direita é a principal imagem de marca de Tulum, como tal um dos pontos de observação que encontramos mais atulhados de gente. Muito graças a esta perspectiva, Tulum tornou-se a terceira atracção histórica mais popular do México atrás apenas de Chichen Itza (outra antiga cidade Maia) e de Tenochtitlan (antiga capital Azteca). Mas, em dias de céu limpo e calor como aquele que nos calhara, as ruínas têm um rival à altura na praia no seu sopé.

O sol já subira ao zénite e descia para o ocaso. Tinha descaído tão pouco no firmamento que o azul do mar se mantinha irresistível e o número de banhistas na areia não cessava de aumentar. À entrada do complexo, alguns descendentes dos maias de outros tempos, aproveitavam este influxo e o fascínio pela cultura dos ancestrais para ganharem a vida. “Señores, los invitamos para sus fotos con los mayas. Vengan, vengan.” apelavam em trajes e cocares de plumas, com joias e pinturas resplandecentes. Encarnavam, assim, jaguares, aves de rapina e outras figuras tornadas divinais do rico panteão maia. Apesar dos valores exorbitantes, vários transeuntes faziam-se clientes orgulhosos e registavam a sua passagem. Afinal, não era todos os dias que descobriam um lugar ao mesmo tempo tão histórico e belo como aquele. Tanto os Maias de outros tempos, como os que tentam eternizar o seu legado, mereciam o lucro e a recordação. 

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