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Um meandro demoníaco

Um meandro demoníaco

A Hell's Bend do Fish River Canyon vista do Main View Point.

Fish River Canyon, Namíbia

As Entranhas Namibianas de África

Quando nada o faz prever, uma vasta ravina fluvial esventra o extremo meridional da Namíbia. Com 160km de comprimento, 27km de largura e, a espaços, 550 metros de profundidade, o Fish River Canyon é o grande canyon de África. E um dos maiores desfiladeiros à face da Terra.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Depois de milhares de quilómetros percorridos em Damaraland e pela orla interior do longo PN Namib-Naukluft, o trecho pela estrada B4 com partida em Lüderitz revela-se uma trégua na areia escorregadia e poeira avassaladora da Namíbia. Sobre um asfalto imaculado, chegamos em três tempos a Aus. Passamos Kuibis e Goageb. Segue-se Seeheim. Keetmanshoop e a B1 que nos permitiria continuar para norte ficam à mão de semear. Nunca as chegamos a avistar. Em Seeheim, o destino que perseguíamos força-nos a cortar para sul. Deixamos o asfalto. Só o voltamos a pisar, dois dias depois, no regresso ao mesmo entroncamento.

Progredimos pela imensidão rugosa do Nama-Karoo Desert, um retalho de a entre o deserto costeiro do Namibe que deu nome à nação e o interior do Kalahari. Avançamos com mesetas, umas mais preservadas que outras, à vista. Não tarda, ao longo de excertos que a época seca poupara ao rio Fish, o mais longo da Namíbia, com 650 km contados desde as montanhas Naukluft a norte do país até se entregar ao Orange, na fronteira com a África do Sul.

Arbustos resilientes impõem-se à paisagem árida. Aqui e ali, aloés-aljava salpicam e enriquecem o ecossistema e o cenário, com a beleza dos seus troncos hirtos e dourados, dos ramos esbranquiçados que se bifurcam e voltam a bifurcar, para cima, para os lados, e assim formam gloriosas copas candeeiro verde-amarelas. São as também chamadas quiver trees, as árvores nacionais da Namíbia que os nativos San (bosquímanos) do actual território namibiano e sul-africano usavam para fabricar coldres fundos para as suas flechas. Nesse mesmo cenário mágico, bandos de avestruzes, manadas de zebras e de olongos deambulam em busca dos pastos e outros alimentos que os sustentam.

Cruzamos uma passagem de nível herdada do tempo em que a abundância de diamantes do Namibe e arredores justificou a construção de um caminho de ferro que os colonos estenderam à remota Holoog.

Em Holoog entramos na área protegida do Parque Natural Gondwana. Um domínio de conservação da natureza privado, detido e gerido pelo grupo de lodges Gondwana que, por ali, nos iria acolher. Cortamos para sudoeste e avançamos até Hobas. A meio caminho, detemo-nos na Canyon Roadhouse, uma estação de serviço e pousada artilhada de calhambeques e velharias de vários tipos, com visuais de relíquias extravagantes do deserto incluindo um aloé-aljava projectado de dentro da dianteira oca de uma carrinha enferrujada, na direcção do céu azulão. Lá temos que procurar pelo encarregado pela pitoresca bomba de serviço. E que esperar que retorne ao seu posto para voltarmos a atestar o carro de aluguer moderno e sensaborão em que nos fazíamos transportar.

Não tardamos a dar com o Gondwana Canyon Lodge. Instalamo-nos num chalé de pedra elevado sobre um dos amontoados de rochas ocres e envolto de outros desses outeiros mais, tão característicos de boa parte da Namíbia. Nesse preciso momento, o sol precipitava-se sobre o horizonte. Nós e uma colónia de híraxes dispersos pelos abundantes calhaus admiramos o seu curto retiro com a admiração e respeito que sempre nos merecerá. Já jantados, contemplamos a abóboda celeste a transbordar de astros, brilhante a condizer a partir do terraço do lodge, onde nos havíamos instalado para usufruirmos do inesperado e surpreendente WiFi.

Dormimos o suficiente para recarregar as energias despendidas com as sucessivas viagens acaloradas. Despertamos pelas sete. Uma hora depois, estamos a caminho da orla mais próxima do Fish River Canyon e do seu concorrido miradouro.

A luz matinal mantem-se tão suave quanto possível. Só não nos espantamos mais porque, com família a viver na Costa Oeste dos E.U.A., nos havíamos habituado a contemplar o abismo ainda mais amplo do Grand Canyon. Fosse como fosse, os meandros intrincados talhados pelo rio Fish provam-se grandiosos a condizer. Mantêm-nos em suspenso por um bom tempo, focados nos contornos da ravina descomunal.

Quando, por fim, nos recompomos, inauguramos uma caminhada pelo cimo da orla que nos leva a pontos de observação complementares: um deles sobre os rápidos do rio, um tal de Tamarisk Bush. Mais para sul, um adicional sobre a Wild Fig Bend. L

á em baixo, o Fish fluí com o vigor reduzido típico da época seca, ainda distante da chuva parcimoniosa do Inverno namibiano de Junho a Agosto, quando torrentes repentinas inundam o seu caudal profundo e podem surpreender os caminhantes nas margens. Em pleno Maio, parte do rio é feito de lagoas separadas mas máximas ainda acima dos 40º colocavam os trekkers em risco. Ainda assim, desde o início do mês que as autoridades do parque concediam permissões de caminhada aos candidatos determinados a completar os itinerários de quatro e cinco dias entre o Main ViewPoint e os pontos quilométricos (50km ou mais) das Three Sisters, das Barble Pools, de Vasbyt Nek ou da German Soldier Grave. Por aqueles dias, a fornaça mantinha-se bem acesa. Só detectámos uns poucos aventureiros dispostos a descer. O mesmo que fazem, ano após ano, os atletas ultra-preparados e tresloucados que competem na Ultra Maratona de 100km do Fish River completada em 2018 pelo vencedor sul-africano AJ Calitz em apenas 08h:28m:45s, e em 2012 (quando contava com menos 10km), pelo seu compatriota Ryan Sandes, em 6h57m.

A formação do Fish River Canyon demorou infinitamente mais. Estima-se que teve lugar há cerca de 500 milhões de anos. Foi causada sobretudo por movimentos tectónicos da crosta terrestre que causaram o abaulamento do vale e pelo deslizamento de velhos glaciares, hoje impensáveis. Então, o  Fish corria em redor de 300 metros acima do que corre hoje. Com a deriva do supercontinente Gondwana e a separação da região no que viriam a ser a América do Sul e África, os movimentos tectónicos fizeram o rio afundar. Passou a erodir a base do desfiladeiro até ao extremo de 549 metros hoje medido.

Já na nossa era, a tribo itinerante e animista Nama dominou o deserto Nama-Karoo e a área profunda do Fish River Canyon. Tornou-se tradição entre os seus membros, colocar pedras sobre as Haitsi Aibeb, pilhas de outras por eles aumentadas em anteriores passagens, como sepulturas de Haiseb, uma divindade que acreditavam ter vivido em tempos primitivos em que os animais reinavam e os mortos podiam ser ressuscitados.

Os Nama acreditavam que Haiseb, ela própria, tinha morrido e ressuscitado várias vezes e, no processo, salvado o mundo de um monstro maléfico. De acordo com a tradição oral, este demónio sentava-se junto do seu esconderijo e atirava pedras a quem se atrevesse a caminhar nas imediações. Ávidos por garantir caminhadas seguras e boas caçadas, os Nama deixavam à deusa bens apaziguadores: mel diluído, água e até carne de antílope. Dizem os descendentes que, aquando das oferendas, proferiam no seu dialecto nama (ou Khoekhoe) repleto de cliques “Haiseb, khö tsi da” algo que se poderia traduzir como “Haiseb, sepultamos-te”.

O sossego mitológico dos Nama durou o que durou. Na viragem para o século XX, os germânicos ocuparam a que se viria a tornar a sua vasta Deutsch-Südwestafrica. No auge, a colónia tinha uma população de cerca de 2.600 alemães. Estes, expandiram as suas fazendas à custa da expulsão e do massacre dos nativos. Perpetuaram essa expansão com as sucessivas vinganças dos raides que os nativos levavam a cabo sobre as suas propriedades, mas não só.

Durante aquelas que ficaram conhecidas como Guerras Herero (nome de outra etnia local), os nativos mataram em volta de 150 colonos alemães. Como resposta, as autoridades germânicas formaram uma tropa de choque que começou por contar com apenas 766 elementos. Cientes da vulnerabilidade dos invasores, os Herero e os Nama passaram à ofensiva. De início, causaram várias baixas e danos substanciais nas propriedades dos europeus. Até que foram colocadas ao dispor de um tal de Tenente-General Thilo Lothar von Trotha 14.000 tropas adicionais e este controlou a rebelião na Batalha de Waterberg. Algum tempo antes, Trotha tinha lançado um ultimato aos Herero e aos Nama. Barrou-lhes a cidadania alemã e ameaçou que os mataria caso não deixassem o território. Mas, em 1905, foi morto durante um confronto entre as suas forças e os Nama em pleno Fish River Canyon.

Os alemães perderam a Deutsh-Südwestafrica no decurso da 1ª Guerra Mundial, quando, a mando dos Britânicos, tropas sul-africanas tomaram-na. Pouco depois do triunfo definitivo dos aliados no conflito, a recém-criada Liga das Nações ditou que a colónia ficaria sob administração da anglófona África do Sul.

A sepultura de von Trotha subsiste na margem direita do rio, no extremo sul do Kooigoedhoogte Pass. É um dos pontos incontornáveis das caminhadas e da história do canyon. Mesmo volvido um século sobre a sua rendição e debandada, muitas famílias de colonos pioneiros beneficiaram da anuência dos sul-africanos e ficaram. No Fish River Canyon, como um pouco por toda a Namíbia, são abundantes os nomes e termos germânicos. Também os cavalos usados e mais tarde abandonados pelas forças expedicionárias alemãs subsistiram. Na actualidade, os caminhantes mais afortunados cruzam-se com manadas destes equídeos selvagens até mesmo no fundo do canyon, onde o Fish corre e lhes fornece a água de que necessitam. Um dos meandros mais curvos porque flui o rio tem o nome de Horseshoe Bend. Não pela passagem das manadas, devido à sua forma quase exacta de ferradura.

Regressamos ao fim do dia para contemplar a luz a evadir-se da ravina. Como nós, uma séquito de entusiastas pela Natureza e pelos grandiosos cenários africanos colocam-se a postos nos lugares privilegiados da orla. Aos poucos, o ocaso instala-se. Contra o céu escurecido, molda as silhuetas de grandes aloés-aljava, de euphorbias e de arbustos tamariscos concorrentes.

Um dos muitos camiões overland a passarem pelos lugares imperdíveis da África do Sul e da Namíbia, aproxima-se bem acima da velocidade permitida no parque e despeja um grupo multinacional de passageiros mesmo a tempo de apreciarem a magnificência da paisagem sob o lusco-fusco. A paz vigente é quebrada pelo fascínio que não conseguem conter. Até que o breu se instala e deixa o serpenteante Fish entregue ao seu pré-histórico canyon.