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MAL(E)divas

MAL(E)divas

Casario colorido de Malé, a ocupar os quase 6km quadrados da ilha homónima.

Malé

As Maldivas a Sério

Contemplada do ar, a capital das Maldivas pouco mais parece que uma amostra de ilha atafulhada. Quem a visita, não encontra coqueiros deitados, praias de sonho, SPAs ou piscinas infinitas. Deslumbra-se com o dia-a-dia maldivano genuíno que nenhuma brochura turística poderia revelar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


De tão raros que são, os três dias de descanso mimado e quase absoluto em resorts das ilhas de Huvahandhoo e Rangalifinolhu souberam-nos a coisa estranha. E a pouco, temos que confessar. Por volta das onze, o mar em redor da segunda já exibia os seus tons surreais de azul-turquesa e verde-esmeralda, dos mais intensos que alguma vez vimo no oceano Índico. É nesse gradiente aquático apelativo que o hidroavião amara. Dez minutos depois, já connosco a bordo, regressa aos céus. À medida que sobe, perfura grandes nuvens brancas e, logo nos devolve a vista límpida dos sucessivos atóis coralíferos. Vários deles estão ocupados por resorts. Alguns, acolhem pequenas povoações das Maldivas profundas. Ainda estamos a minutos do destino final quando vislumbramos a capital. Aproximamo-nos. O seu casario com 6 km2, até então difuso, revela-se paralelepipédico, salpicado de prédios garridos. Polui a paisagem uma sequência de gruas e as estruturas embrionárias da ponte que ligará Malé à ilha vizinha de Hulhule, como seria de esperar, erguida pela China. Amaramos ao largo dessa mesma ilha. Volvidos cinco minutos, entregam-nos a bagagem no lounge do resort. Atravessamos do aeroporto para a pequena doca ao lado e enfiamo-nos num ferry de fundo arredondado. O barco zarpa repleto de trabalhadores do aeroporto que, chegada a hora de almoço, vão até à cidade. Outros passageiros são maldivanos acabados de chegar do estrangeiro ou de partes distintas das Maldivas. Os homens com mais idade e tradicionalistas cobrem o cimo das cabeças com distintas taqiyahs. As mulheres, usam hijabs caídos sobre as costas e o tronco. Muitas, tomam conta dos seus rebentos pouco ou nada reguilas.

A embarcação aproxima-se do domínio urbano que havíamos avistado dos céus. Entra num molhe que o protege dos maus mares e atraca diante da linha avançada de prédios. Não tardamos a subir para a a Boduthakurufaanu Magu, a rua marginal envolvente da ilha. No cimo do molhe, apercebemo-nos da proximidade da Praça da República precedida pelo embarcadouro presidencial Izzudheen Faalan, com a sua arquitectura clonada da Ópera de Sydney. Confirma a praça a bandeira esvoaçante da nação, com o seu crescente islâmico centrado num rectângulo verde contido por um segundo, vermelho. É aqui que se concentram as frequentes manifestações anti-governamentais, algumas delas mais extremadas, como as de 2003, 2004 e 2005 que descambaram em revoltas brutalmente controladas. Desde as eleições e a transição pacífica para o multipartidarismo de 2005, que a situação se tem, todavia, mantido tranquila.

A essa hora, no extremo oposto desta área que os nativos tratam de Jumhooree Maidhaan, a Musical Fountain está seca e silenciosa.

Aos poucos, mais e mais homens se aglomeram na praça. Chegam das embarcações ao largo e sobre incontáveis motoretas que estacionaram nas imediações.

Curiosos com o que estaria a gerar tal migração, metemo-nos por uma ruela arborizada perpendicular ao mar. Não tardamos a dar com o Centro Islâmico da cidade e com a sua Grand Friday Mosque, a maior mesquita da nação, coroada por cúpulas douradas que, vistas do mar, se projectam acima das copas verdejantes do arvoredo.

O muezzin entoa o seu adhan, o chamamento magnético de fé. Os devotos aglomeram-se dentro e em redor do templo sobrelotado. Quando damos por nós, somos intrusos da oração. De início atrapalhados, depressa percebemos que ninguém contesta a presença infiel e mal trajada dos forasteiros.

Encostamo-nos a um muro. Acompanhamos e fotografamos o decorrer da cerimónia. Só um ou outro crente se preocupam em verificar o que fazemos e nos espreita após a sua mais pronunciada prostração sujud.

Terminada a oração, enrolam os pequenos tapetes da reza, recupera os seus chinelos e desmobiliza. Durante um bom tempo, homens e só homens descem a escadaria de mármore da mesquita. Alguns ficam a conviver antes de voltarem aos afazeres. Nenhum nos aborda. Além de uma ténue intriga pela nossa inesperada presença, ninguém se mostra sequer incomodado.

Pelo menos para connosco, o âmago maldivano que receávamos hermético e rígido, revela-se paciente e tolerante. Aproveitamos o surpreendente à vontade e desvendamo-lo o mais que podemos, até a exaustão.

Regressamos à avenida marginal. Contornamos o mercado ainda a meio gás devido à pausa para a oração e chegamos à doca piscatória. Ali, uma frota folclórica de barcos com conveses rasos, serve de base para incontáveis caixas e contentores plásticos, como para a vida de quase tantos pescadores. Predominam os bangladeshianos, a força de trabalho preferida dos maldivanos com posses e negócios que lhes delegam, a baixo custo, os afazeres mais ingratos. Alguns pescadores, tinham acabado de chegar do mar. Entregavam-se a duches remediados irrigados a balde. Já prontos para o descanso, outros, saltitavam de barco em barco, ansiosos por sentir a firmeza da terra a liberdade e o merecido ócio.

Entretanto, a azáfama habitual regressa ao mercado. Banca atrás de banca, repetem-se os empregados também do Bangladesh e as frutas tropicais de lá provenientes, vegetais, especiarias, entre uma panóplia de víveres que alimentam a capital.

Desviamos uma vez mais para o interior, por ruelas pavimentadas com bloquinhos de cimento, estreitadas por filas intermináveis de scooters parqueadas e disputadas, metro a metro, por muitas em movimento.

Nas lojas mais próximas da Praça da República, abundam o artesanato e as recordações. Angariadores profissionais tudo fazem para atrair os turistas aos seus covis do lucro. Mal dali nos afastamos, os negócios maldivanos contam só com os seus compatriotas. As Maldivas pouco ou nada produzem. Proliferam, assim, estranhos distribuidores de tudo um pouco, de bombas e motores para embarcações a amaciadores e detergentes, todos eles com montras carentes de bons vitrinistas.

Avançamos para leste pela rua Medhuziyaarai Magu, via que provem do Islamic Center e da sua Grand Friday Mosque. Não será coincidência esta mesquita nos conduza à que a antecedeu no tempo, a Old Friday Mosque. Se a primeira se tornou a recordista maldivana em dimensão, esta última é a mais antiga da nação. Foi erguida em 1656, em pedra coral e madeira que artesãos prodigiosos esculpiram para assim a dotarem de uma decoração intrincada repleta de motivos e escritos corânicos. Um longo painel trabalhado no século XIII e mais importante que os demais, celebra a introdução do Islão nas Maldivas.

Espreitamos a Old Friday Mosque e o velho cemitério contíguo mesmo antes de sermos avisados que só o podíamos fazer com um guia e, alegadamente, após autorização do Ministério dos Assuntos Islâmicos. Sem surpresa, quem nos informa dessa exigência é um guia.

Um edifício azul e branco insinuante, antecedido por portões ainda mais coloridos impõe-se diante da velha mesquita. Na origem, este que é o palácio Muleaage & Medhu Ziyaarath foi erguido no início do século XX para acolher o derradeiro sultão reinante das Maldivas, deposto mesmo antes de se mudar. Durante 40 anos, os departamentos governamentais ocuparam os edifícios. Em 1953, após a implantação da Primeira República, tornou-se residência presidencial. Até 1994, quando um tal de Presidente Gayoom decidiu mudar-se para uma nova residência oficial. Dentro do complexo, está ainda o túmulo de Abu Al Barakaath, o homem que, em 1153, levou o Islão até Malé e fez das Maldivas um arquipélago de Alá, tradicionalista, mas não tanto como isso.

De regresso às ruas, cruzamo-nos com mulheres, familiares ou amigas, cada qual com o hijab da cor mais adequada à sua condição ou à preferência do dia. Sejam quais forem as razões - mas demasiadas vezes por pressão religiosa - é frequente as mulheres muçulmanas terem receio de ser fotografadas.

Em Malé, como nos acontecera já na pequena cidade de Maamigili do South Ari atol, a maior parte das senhoras que abordamos reage com reticência, ao que se seguem quase sempre posturas de dignidade, autoconfiança e de ainda mais paciência e benevolência. Decidimos esticar a corda.

Passa por nós uma mãe vestida com um longo niqab negro, acompanhada por quatro crianças. Em jeito de brincadeira inocente e por relação ao imaginário da personagem esquiva e sombria dos livros do patinhas que o rato Mickey combatia, habituámo-nos a chamar Manchas Negras às senhoras metidas nestes trajes. Piada puxa piada, mesmo conscientes que pertenciam a famílias seguidoras do islamismo salafista ou wahabita mais ortodox, não nos intimidamos e metemos conversa. Aproveitamos a embalagem e pedimos para lhe tirar uma foto. Tal como esperávamos, a senhora responde que só às crianças. Puxamos pela ficção. Dizemos-lhe que precisamos de imagens de maldivanos em distintas vestes. Também a lembramos que só lhe conseguimos ver os olhos e que não temos como a identificar. “Pronto, vá lá, vamos a isso.” cede para nosso alívio. “Primeiro, todos juntos. Aproveitem e tirem-me só a mim. Mas, por favor, despachem-se!”

Seguimos as instruções à risca,com excepção para o tempo que fazemos arrastar. A senhora dá o caso por perdido. Assume o atraso e retoma a conversa. “Mas, afinal, vocês são de onde? De Portugal? Ai que o meu filho é louco pelo Cristiano Ronaldo! Agora peço-vos eu para tirarem umas com ele!”

Aos poucos, tínhamos chegado às imediações do limite leste da ilha. Em vez de ruelas, percorríamos agora ruas mais desafogadas onde a vida nos parecia orgânica e familiar como nunca. Entramos num pequeno jardim-parque. Alguns pais conversam e repousam sentados em bancos de rede, contra um mural que ilustra a insularidade da nação enquanto os seus miúdos correm e gritam para cá e para lá.

No estádio Rasmee Dhandu Stadium próximo – provavelmente o único da ilha - acompanhamos os últimos minutos de uma tal de President Cup. Assistem ao encontro por umas centenas de espectadores, todos homens, todos sentados numa bancada que, em vez dos tradicionais banquinhos em L, é composta de cadeiras plásticas altas. A partida termina 2-1.  Com o soar do apito final, a pequena multidão debanda. Logo após, a luz solar segue-lhe o exemplo. Tínhamos um avião para apanhar daí a umas horas pelo que, aos poucos, regressamos à Praça da República e ao ferry para o aeroporto. Pelo caminho, uma chuvada torrencial obriga-nos a tomar refúgio num restaurante. Lá devoramos nans e lassis. Nunca nos ocorrera que a vida da desdenhada Malé, tivesse, afinal, tanto sabor.