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Mini-snorkeling

Mini-snorkeling

Rapazinho asiático diverte-se equipado com equipamento de snorkeling nas águas pouco profundas ao largo de Phi-Phi Leh.

Ilhas Phi Phi, Tailândia

De regresso a "A Praia"

Passaram 15 anos desde a estreia do clássico mochileiro baseado no romance de Alex Garland. O filme popularizou os lugares em que foi rodado. Pouco depois, alguns desapareceram temporária mas literalmente do mapa mas, hoje, a sua fama controversa permanece intacta.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Os nossos nomes são Marco e Sara. Que mais precisam de saber? Coisas sobre a nossa família ou de onde somos? Nada disso interessa. Não após cruzarmos o oceano e nos termos libertado, à procura de algo mais belo, algo mais excitante e sim, admitimos, eventualmente mais perigoso.

A adaptação da apresentação irreverente do americano Richard (Leonardo di Caprio) assentava-nos na perfeição enquanto, tal como ele, percorríamos a rua mochileira mais famosa de Banguecoque – a Khao San -  meio à deriva e acossados por agentes dos mais diversos negócios, à procura de sítio para nos alojarmos. Esfomeados e de rastos após a longa viagem do extremo ocidental da Europa para o sudeste asiático, faltava-nos a paciência para o doloroso processo de escolher quarto. Ficámos no primeiro que espreitámos, numa guest-house com poucas ou nenhuma diferença face àquela em que Richard se instalou, onde logo conheceu o lunático e malfadado Daffy (Robert Carlisle) que lhe entregou o objecto fulcral do enredo, o mapa da ilha secreta.

Deixámos as mochilas e mais alguma tralha. Descemos a escadaria da pensão oriental para almoçar já muito fora de horas. Com a tarde a terminar, regressamos à azáfama da Khao San Road, em que centenas de jovens viajantes regressavam de tours de dia, acabavam de chegar de partes distintas da Tailândia ou países vizinhos, bebiam as últimas cervejas Chang e Singh ou faziam as derradeiras compras de produtos contrafeitos antes de voltarem a casa.

Umas horas depois, a atmosfera tornar-se-ia bem mais intensa. Os bares aumentaram o volume da música, o consumo do álcool intensificou-se e os farangs (assim chamam os tailandeses aos estrangeiros) de alma perdida cediam aos seus instintos mais básicos incluindo ao incontornável desejo que os fazia sondar o sexo oposto ocidental e tailandês mais apetecível e acessível. Nós, dormimos mais com o jet lag que um com o outro enquanto dezenas de jovens prostitutas e ladyboys proactivos assumiam a sua posição de ataque na rua e atmosfera do lugar se continuou a degradar.

Como para os restantes viajantes, a Khao San foi, para nós, um mero ponto de partida. Não era a primeira vez que de lá saíamos em direcção ao sul tailandês. Em ambas, gastámos menos que os 4.000 baths (menos de 100€) que Richard e o casal francês despenderam a chegar ao litoral de Ko Phangan, de onde os três nadaram o derradeiro quilómetro e pouco até à ilha que o mapa partilhado pelo americano os convencera a descobrir, isto porque nenhum barqueiro os queria levar a uma ilha parte do Parque Nacional Koh Phi Phi.

Da primeira vez, sem o seu mapa ou outra forma de nos metermos em sarilhos, continuámos para o litoral privilegiado de Krabi, onde nos rendemos à beleza indolente da praia de Ray Lay, apenas acessível de barco devido aos penhascos verticais de calcário que a envolvem.

De Krabi, mudámo-nos para as ilhas Phi Phi, na altura, as mais ansiadas paragens tailandesas. À chegada, uma enorme frota de long-tail boats coloridos ocupava quase toda o areal de Phi Phi Don, a ilha-mãe do arquipélago. Para diante do cais da aldeia muçulmana de Ban Ton Sai, uma floresta densa de coqueiros preenchia as suas terras planas e chegava a invadir as encostas dos extremos mais elevados de Don. Esta floresta abrigava e dava sombra a um sem número de guest-houses, bares, restaurantes, casas de massagem e centros de mergulho entre outros incontáveis negócios. Juntámo-nos a veraneantes de todas as partes e abrigámo-nos num albergue local abafado e humilde.

Estávamos em 2000. Nesse mesmo ano, estreou por quase todo o planeta “A Praia”, um filme realizado por Danny Boyle a partir do romance com o mesmo nome de Alex Garland, escritor, viajante compulsivo, introspectivo e sempre inconformado com o que viajar representava e devia representar, com o que estava bem e mal na maneira de viajar dos ocidentais. “Os turistas iam de férias enquanto os viajantes faziam outra coisa. Viajavam.” era uma das suas perspectivas preferidas sobre o tema. Não tardámos a constatar que as Phi Phi permaneciam ocupadas por um misto de ambos mas que, passadas décadas desde que os ocidentais pioneiros as visitaram, os primeiros predominavam.

Admirador de Garland, Boyle aproveitou o sucesso de “Trainspotting” (“Sem Limites”) e de “A Life Less Ordinary” (“Vidas Diferentes”). Mudou-se para a Tailândia no início de 1999 após recrutar um Leonardo di Caprio adolescente e em plena ascensão consumado o protagonismo mais que melodramático,  meloso, de “Titanic”. Boyle filmou o enredo pouco alterado do livro nalguns dos cenários tailandeses de sonho. Um deles ficava a menos de dois quilómetros da guest house em que nos alojámos. Em 2000, era só uma das incontáveis praias escondidas pelos ainda mais abundantes cachos de rochedos verdejantes projectados do fundo do Mar de Andamão.

“A Praia” correu mundo. Pode ter dividido os cinéfilos mas deixou um trilho cultural indelével para os novos mochileiros do milénio. No ano seguinte, como era de esperar, a ilha-filha de Phi Phi Leh e, em particular, a Maya Bay em que têm lugar as cenas mais invejáveis e abomináveis do filme começou a conquistar popularidade com ajuda do oportunismo das pequenas agências de Krabi e das ilhas Phi Phi e dos proprietários de embarcações que a começaram a destacar nos seus cartazes e folhetos de tours.

Em “A Praia” a Maya Bay foi o cenário da carnificina provocada pelo tubarão que vitimou os irmãos suecos encarregues da pesca. Mas, os forasteiros que continuavam a afluir a Phi Phi Don, esses, não esqueciam sobretudo o convívio quase imaculado da comunidade no seu éden oculto, outros, a cena erótica nocturna entre Richard e Françoise nas águas a que a agitação do plâncton dera um misterioso brilho azul.

Sem surpresa, o paraíso começou a receber hordas diárias de visitantes. As filmagens já tinham deixado alterações na paisagem que irritaram parte da população nativa e os ambientalistas. Apesar da polémica, as invasões quotidianas prosseguiram por três anos, período em que fizeram lucrar os donos dos pitorescos mas ensurdecedores long-tail boats. Até que, na manhã de 24 de Dezembro de 2004, um simples capricho geológico provou que os paraísos, tal como nos habituámos a apreciar, ficam onde a Terra quiser.

Um sismo com magnitude superior a 9.0 agitou o fundo do oceano Indico durante mais de oito minutos. Gerou um tsunami que causou destruição disseminada em distintas regiões da Ásia e, em particular, arrasou o istmo de Phi Phi Don, uns meros metros acima do nível do mar e onde tinham acabado de despertar a maioria dos turistas, viajantes, trabalhadores e moradores. As ondas e o fluxo marinho massivo que se seguiu provocaram milhares de vítimas. Devastaram quase por completo a floresta densa de coqueiros e grande parte dos edifícios. Destruíram ainda a frota de long-tailboats que, além de ser imagem de marca da ilha, há muito transportava os farangs mais poupados nas suas pequenas excursões de snorkeling e outros passeios. 

Cercada por penhascos excepto numa pequena entrada, a Maya Bay pouco ou nada sofreu. O guia Lonely Planet informou que as ondas mais fortes que entraram a limparam apenas da vegetação não nativa acrescentada em 1999 pela equipa de filmagem. Ao invés, a Maya Bay beneficiou durante algum tempo da indisponibilidade turística daquelas paragens da Tailândia. Viu-se, de novo, quase secreta.

Na longa-metragem, a comunidade de “A Praia” termina quando outros mochileiros a quem Richard havia dado uma cópia do mapa chegam à ilha e despertam a ira do dono tailandês da plantação local de marijuana. Este já avisara o grupo original que só os admitiria a eles e convence a carismática líder Sal (Tilda Swinton) a abater o culpado. Confrontada com a falta de escrúpulos de Sal e com a probabilidade de o mesmo lhes poder acontecer, a comunidade abandona a ilha secreta do ecrã.

Por volta de 2006, já se passava o inverso com a ilha real. Malgrado os muitos anos volvidos, quando regressámos às ilhas Phi Phi, a desolação provocada pelo tsunami ainda era bem visível. Algum entulho e um ou outro estaleiro evidenciavam a reconstrução. A floresta de coqueiros e a frota de long-tail boats já não existiam. No caso das embarcações, tinham sido substituídas por dezenas de lanchas modernas muito menos ruidosas mas sem o encanto tradicional das antecessoras. Foi a bordo de uma delas que voltámos à Maya Bay. Encontrámo-la repleta destas lanchas, a transbordar de visitantes dos quatro cantos do mundo e de sinais que indicavam as rotas de evacuação em caso de tsunami.

Em “A Praia” já de volta a Banguecoque, Richard assume “E eu? Ainda acredito no paraíso. Mas agora, pelo menos, sei que não é um lugar que se possa procurar porque não é onde se vá. É como nos sentimos num determinado momento da nossa vida quando fazemos parte de alguma coisa. E quando encontramos esse momento... dura para sempre.” Também nós regressámos à capital tailandesa e à Khao San e nos vimos entre aqueles que Alex Garland e o alter-ego Richard definiam como “os cancros, os parasitas que comiam o mundo todo” os viajantes sem interesse pelas outras gentes e lugares do planeta que apenas desejavam reproduzir os mesmos comportamentos redutores e decadentes que tinham à porta de casa.