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Champagne Beach

Champagne Beach

A enseada idílica de Champagne Beach, há muito desejada por investidores neozelandeses, australianos e outros.

Espiritu Santo, Vanuatu

Divina Melanésia

Pedro Fernandes de Queirós pensava ter descoberto o grande continente do sul. A colónia que propôs nunca se chegou a concretizar. Hoje, Espiritu Santo, a maior ilha de Vanuatu, é uma espécie de Éden.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Nunca chegámos a perceber bem se por milagre ou mera misericórdia com os forasteiros mas o que é certo é que, apesar do overbooking madrugador que se tinha formado, nos meteram no avião lotado com os passageiros nativos e seus caixotes, galinhas e sabe-se lá que mais. A hospedeira ainda desbobinava as instruções de segurança no divertido dialecto bislama e já subíamos para os céus do Pacífico do Sul. Um manto de nuvens escuras e profundas obstruiu-nos a visão sobre Efate e o arquipélago circundante, devolvida, a espaços, por intervalos solarengos. Lá em baixo, desvendam-se recifes bem desenhados e um mar de verde que cobria as montanhas e os litorais mesmo até aos areais ora brancos ora negros.

Sobrevoamos Nguna, Emae e Epi. Com Paama para trás, avistamos Ambrym e o cenário luxuriante cede à desolação de lava gerada por dois vulcões activos, o Benbow e o Marum. Então, o avião muda de rumo e desce para Luganville, a segunda e última povoação de Vanuatu a que alguém se atreveria a chamar cidade.

Pedro Fernandes de Queirós, o navegador de Évora que descobriu aquelas paragens para o Ocidente, teve bastante mais trabalho a viajar para o mesmo destino. Desembarcou ali com ambições de o desenvolver em nome de Deus e para usufruto do terceiro rei Filipino (segundo Filipe de Portugal).

Pensou tratar-se do grande continente esquivo do sul e chamou ao arquipélago Austrialis del Espiritu Santo. Inspirado por um forte fervor religioso propôs ainda a fundação de uma colónia naquela terra que estava certo “ser mais deliciosa, saudável e fértil que qualquer outra que fosse encontrada”. Decidiu baptizá-la de Nova Jerusalém.

Mas os indígenas reprovavam as suas intenções e atacavam os colonos com frequência. Também parte da tripulação discordava do seu julgamento romântico. Num momento mais frágil da saúde do capitão, os opositores forçaram  um regresso ao México.

Queirós viajou das Américas de volta a Espanha onde viveu por algum tempo na pobreza. Durante 7 anos, enviou memoriais a fio ao rei (crê-se que, pelo menos, 65) a implorar que lhe autorizasse uma terceira expedição. Mas, para seu desgosto, o Concelho real respondia que as empreitadas no Pacífico enfraqueciam a Pátria-Mãe e que não as podiam pagar. Além disso, proibiu a publicação das descobertas do navegador para que nenhuma outra nação delas beneficiasse. Queirós morreu, frustrado ao largo do que é hoje o Panamá, a caminho do reino da Nova Espanha.

A ilha que descobriu e em que estávamos prestes a aterrar adoptou o nome de Espíritu Santo. Não demorámos a constatar nela alguns dos atributos que encantaram o navegador bem como outras relações duvidosas com os seus projectos coloniais.

O aeroporto Pekoa é diminuto mas um atraso do pessoal encarregue de descarregar a bagagem obriga-nos a uma espera na sala de desembarque. Aproveitamos para examinar algumas imagens nos portáteis e, quando damos por ela, temos um grupo de curiosos nas costas. Um deles é negro (melanésio) mas surpreendentemente alourado. Despoleta em nós uma certa admiração e uma conversa animada acerca da origem africana ou Lapita do povo ni-vanuatu e sobre a razão de tantos ni-vanuatus terem cabelos dourados. Um dos nativos, bem falante de inglês, deixa-nos atónitos com a sua explicação: “Bom, vocês conhecem a história das tribos perdidas de Israel, não conhecem? Por cá, muita gente acredita que os ni-vanuatu são descendentes de uma delas. “ 

A teoria não parece responder ao enigma capilar nem foi sustentada por evidências históricas ou científicas mas esteve muito na moda durante o século XIX e dá pano para mangas. Só a chegada das quase já esquecidas malas interrompe o debate.

Instalamo-nos em Luganville, a capital despretensiosa da ilha e, como o dia ainda vai no início, saímos para explorar as suas poucas ruas. Uma parte significativa dos edifícios térreos da Boulevard Higginson (a avenida principal) foi ocupada por emigrantes chineses donos e senhores de lojas que vendem de tudo um pouco a preços inflacionados pela insularidade e pela sino-genética do trabalho e do lucro. Os estabelecimentos são escuros, atafulhados e até poeirentos. Empregam dois ou três auxiliares nativos que ajudam os proprietários a resolver problemas inesperados e a safar-se tanto com os dialectos tribais como com a língua nacional, um crioulo cerrado que mistura termos franceses e melanésios com um inglês básico. 

O mercado local revela-se bem mais arejado. Abriga dezenas de mulheres com vestidos largos e coloridos que vendem os bens – vegetais, frutas e produtos animais - que as terras tribais produzem e, em que os chineses, não fazem concorrência. Algumas deixam as suas bancas limítrofes e juntam-se a uma multidão espontânea de espectadores que assiste a um filme na TV de uma casa abarracada de aluguer de DVDs.

Logo ao lado, no Unity Park, a Unity Association of Santo, promove uma venda de rua que reverte para o núcleo religioso homónimo. Outras mulheres de vestidos, aventais e toucas, vendem fatias de bolo, tortas, pastéis, taro cozido e peixe frito à sombra de árvores seculares com longos troncos multi-ramificados.

Taste my pie, madam and sir”, oferece-nos uma com extrema delicadeza e dá o mote que as outras esperavam para impingir as suas especialidades. Acabamos a provar de tudo um pouco e deixamos alguns vatus em troca que as satisfazem em pleno.

A pouca distância, três ou quatro miúdos tentam a sua sorte num negócio distinto, protegidos do calor sob um chapéu-de-sol vermelho.

Top Up Here” e “Top Up With Me”, as mensagens do seu mini-stand e nas t-shirts deixam poucas dúvidas: são representantes da recém-chegada Digicel e recarregam o crédito dos poucos telemóveis já operacionais da ilha. De tempos a tempos, também vendem um ou outro telefone mas num território que vive feliz numa pura auto-suficiência kastom (tradicional), só os mais abastados cedem ao capricho.

Basta uma longa caminhada para lá dos montes Tabwemsana ou Kotamtam – os mais elevados da ilha - e podemos deparar-nos com tribos que não vêm à civilização e podem nunca ter visto um branco, o caso de alguns Lysepsep mais fugidios que, favorecidos pela sua estatura pigmeia (os adultos medem apenas 1 metro) se limitam a observar os forasteiros de esconderijos seguros.

Mas não é preciso ir tão longe para admirarmos outras facetas insólitas de Santo.

Harry, um condutor da vizinha ilha de Pentecostes que contratamos pede-nos desculpa pelo estado da estrada de terra vermelha que avança pela costa leste da ilha, entre grandes coqueirais, hortas frondosas e selva cerrada. Não há nada a desculpar. Três horas de solavancos depois com paragens para banhos em vários lagoas salobras paradisíacas, o caminho embrenha-se por estranhas florestas de glória-da-manhã e desce para um mar azul-celeste.  Mesmo antes de o atingirmos somos barrados por uma cancela controlada por um ancião. Harry pede-nos a portagem: “Muito bem amigos. Chegámos à famosa Champagne Beach. Este é proprietário. Temos que lhe pagar 1000 vatus”. A praia está deserta e, duvidamos que o dono disso tenha noção mas é uma das mais belas que até então tínhamos visto.

Em Espiritu Santo, como em Vanuatu em geral (o nome da nação significa A Nossa Terra) o que mais conta é o que se deixa para os descendentes da tribo e estas reúnem-se amiúde para vetarem negócios imobiliários que certos investidores estrangeiros tentam fazer com o governo.

Harry conta-nos que empresas de cruzeiros australianas e neozelandesas oferecem com frequência milhares de dólares para conseguirem a praia, lá construírem infraestruturas e desembarcarem turistas. Até hoje, sempre em vão.

A Champagne beach e o apego dos nativos pelo solo em que nasceram são apenas exemplos de todas as razões porque damos por nós a venerar Espíritu Santo e a louvar a paixão do seu descobridor Pedro Fernandes de Queirós pela sua ilha. 

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