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Colegas a Tempo Inteiro

Colegas a Tempo Inteiro

Funcionárias de uma loja durante a sua pausa para almoço.

Taiwan

Formosa mas Não Segura

Os navegadores portugueses não podiam imaginar o imbróglio reservado à ilha que os encantou. Passados quase 500 anos, Taiwan prospera, algures entre a independência e a integração na grande China.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O pôr-do-sol tinge o céu sobre o mausoléu de Chiang Kai-shek. E como acontece, dia após dia, uma pequena formação de soldados elegantes, de botas negras e uniforme branco, avança através da praça majestosa, contorna o edifício também ele branco e, em absoluta sincronia, acerca-se de um poste centrado que ostenta uma bandeira vermelha, azul e branca. Cumpridos mais alguns passos da coreografia, o enorme pano é dobrado sob o olhar curioso de uma meia dúzia de transeuntes.

Este cenário imponente fica em Taipé, a capital taiwanesa e, apesar da solenidade, em nenhum outro território terá uma cerimónia de recolher ou içar da bandeira um significado tão dúbio como aqui.

Em redor, a riqueza e a sofisticação são indisfarçáveis e transformaram esta ilha montanhosa e sobrelotada (22.5 milhões de habitantes em 35,980 km2 ) num dos quatro Tigres Asiáticos, junto com a Coreia do Sul, Singapura e Hong-Kong, com um PIB per capita, em 2010, superior ao do Japão e da França.

“Wait, wait, I come back” assegura o motorista que nos conduz por quinze dias. E vai até uma casota coroada por caracteres chineses de néon vermelho onde é atendido por uma jovem de mini-mini saia e top descaído. Foi esta apenas a primeira de muitas ocasiões em que interrompeu a condução para comprar a noz de bétele que mascaria durante toda a viagem.

Taiwan tem destas coisas. São resquícios curiosos de um passado tradicionalista em que, abençoada pelo ambiente democrático, a religião continua a ter o seu papel. E a modernização da capital e restantes grandes cidades não anularam a existência quase rural do interior montanhoso. 

À moda do extremo-oriente, Taipé revela-se simultaneamente caótica e organizada, cinzenta mas sedutora. Inspirou-se nas soluções dos vizinhos japoneses até que se emancipou, iluminada pelos seus próprios outdoors futuristas, pelas montras das multinacionais glamorosas e pelas criações geniais dos engenheiros e programadores que forma. Mesmo assim, nem todos os nativos estão para aturar para sempre os caprichos da metrópole frenética.

Centenas de quilómetros depois de a deixarmos, paramos numa margem do lago Sun Moon e, malgrado o nevoeiro, damos com três nadadores equipados a rigor que pedimos para fotografar. Solta a conversa, adiam as próximas braçadas para nos explicarem o porquê da sua actividade madrugadora: “Somos amigos, todos ex-professores ...”, esclarece, em inglês, Julia Wang, a mais extrovertida do trio. “Trabalhámos em Taipé os anos necessários para a reforma e, depois, refugiámo-nos aqui no Sun Moon. Como vêem, atravessamo-lo quase todos os dias para nos mantermos em forma... “ “Quando éramos mais jovens gostávamos da vida de Taipé mas, com a idade, começámos a achar que este era o melhor lugar para a pátria retribuir os nossos serviços...”  

A palavra é usada com frequência pelos habitantes da ilha mas, em termos práticos, os taiwaneses não vivem num país. Nem numa província ou dependência de outra qualquer nação. Fazem parte da República da China, um caso de indefinição geopolítica único no mundo que, apesar da sua actualidade, se esboçou no longínquo ano de 1949.

Durante a 2ª Guerra Mundial, o exército comunista de Mao Zedong e o nacionalista (Kuomintang) de Chiang Kai-shek uniram forças ainda na grande China para expulsar o inimigo japonês. Com esse objectivo garantido, reataram a Guerra Civil, tal qual onde a tinham deixado, para decidir quem ficaria à frente do país.

Graças a um apoio soviético massivo, os comunistas inverteram o ascendente inicial nacionalista e, em 1949, obrigaram o General Chiang Kai-shek e o seu exército de 600.000 homens, mais um milhão de outros apoiantes, a fugir para Taiwan, um reduto situado a 60 km ao largo da costa leste da China, governado pelo KMT desde a expulsão dos japoneses decretada pelo Acordo de Yalta. 

Aquando da fuga, as tropas do KMT levaram consigo a constituição e a bandeira da República da China original, fundada, em 1911, pelo seu primeiro presidente, Dr. Sun Yatsen, uma das poucas figuras admiradas tanto na China como em Taiwan. Foi desta transposição ideológica do continente para os territórios insulares que surgiu a República da China actual.  

Apesar da retirada abrupta, Chiang Kai-shek, o novo presidente da ROC, estava convicto que a estadia do KMT em Taiwan seria breve e de que, assim que o seu exército estivesse reorganizado, voltaria à carga. Ao mesmo tempo, a ocidente do estreito, os comunistas preparavam a invasão de Taiwan. Nenhum dos planos se viria a concretizar e a China comunista, como a República da China, desenvolveram-se nos seus próprios territórios. 

Do terraço do Top View Taipei Observatory, contemplamos a imponência urbana de Taipé de que se destaca o famoso 101 (One o’ One). Com 509 metros, foi este o edifício mais alto do mundo de 2004 até à recente construção do Burj Khalifa, no Dubai.

“Segoy!” exclamam repetidamente vários japoneses entusiasmados. Não obstante a despromoção, gente dos quatro cantos do planeta e até os ultra-sofisticados nipónicos se surpreendem com a audácia arquitectónica do arranha-céus e com a prosperidade desafiante da pequena Formosa.

Ao contrário da economia exemplar da ilha, a sua situação politica mantém-se, hoje, estagnada. O regresso do KMT ao poder suavizou o relacionamento entre as duas partes e tornou tanto a declaração de independência como um eventual conflito menos provável. Mas a aproximação não implicou que Taiwan aceitasse a China Única há muito perseguida pela RPC.

O Dragão ultrapassou entretanto o Japão como segunda economia do mundo. De acordo, o seu orçamento militar atinge números recordistas que começam a preocupar tanto a RDC como os EUA (principais aliados militares).

Barak Obama deu seguimento ao compromisso assumido na Taiwan Relations Act renovando, assim, o jogo duplo dos americanos, que privilegiam a interacção diplomática oficial com a RPC mas inibem qualquer sua intenção de anexar Taiwan e restantes ilhas da RDC para concretizar a desejada Grande China.

Em 2010, os EUA anunciaram a sua intenção de vender material militar no valor de 6.4 biliões de dólares aos taiwaneses e voltaram a irritar o governo chinês que, como faz já de forma automática, libertou nova série de avisos e intimidações controladas.

Não é nada que afecte demasiado o dia-a-dia ocupado dos taiwaneses. Desde a chegada de Chiang Kai-shek que a Formosa vive sob ameaça.