Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Rosa Puga

Rosa Puga

Rosa Puga, "la que canta" os símbolos que vão saindo.

Campeche, México

Há 200 Anos a Brincar com a Sorte

No fim do século XVIII, os campechanos renderam-se a um jogo introduzido para esfriar a febre das cartas a dinheiro. Hoje, jogada quase só por abuelitas, a loteria local pouco passa de uma diversão.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Anoitece sobre o Parque Central de Campeche e a Catedral de La Concepción Inmaculada que o abençoa. Não são sequer sete mas, em redor do seu grande coreto, a praça exibe as luzes amareladas do turno que entra e ganha nova vida. Prepara-se um espectáculo musical juvenil num dos polos da estrutura. Aproximamo-nos do oposto e descobrimos mesas e cadeiras que não tinham estado montadas durante a tarde, ocupadas por dezenas de mulheres e algumas crianças, compenetradas na superfície colorida que cobre parte dos tampos. Chega música latino-romântica por entre os pilares da estrutura que serve de banda sonora à estranha sessão recreativa que ali tem lugar. Uma senhora de meia-idade e postura acomodada faz rodar um velho bombo (tômbola) totalmente forrado a fita adesiva castanha. Como desejado, as 90 esferas numeradas já só saem para a mão da operadora pelo orifício inferior do dispositivo. Há nove anos que Rosa Puga tem o cargo mas, em vez de “cantar” os resultados, como é suposto, comunica-os, ao microfone, de forma maquinal e arrastada: “11 gatos ... 28 mulas ... 42 cometas... 58 corações ... 25 cavalos ... 52 navalhas...”. Este tom aborrece algumas das participantes que preferem estilos mais espontâneos e divertidos. Certas “cantantes” até piadas relacionadas com os símbolos dizem ou associam-lhes personagens públicas que aproveitam para criticar ou ridicularizar em público. Quem não está a par da cartilha ou da actualidade do país, ou pede ajuda à parceira do lado ou perde a sequência e, eventualmente, a próxima lotaria.

Para o evitar, a cada anúncio da locutora, as jogadoras inspeccionam os seus cartões numa busca ansiosa por cada símbolo ditado. Os desenhos têm grafismos diferentes de cartão para cartão mas estão sempre ligados ao mesmo número. Quando encontrados, os rectângulos correspondentes são ocupados por contas de vidro tão vistosas e coloridas como os pictogramas que os ilustram. Não se joga, ali, a feijões mas só detectamos moedas em cima das mesas, muito raramente, uma ou outra nota envelhecida de poucos pesos.

Cada cartão tem 5x5 símbolos e custa, por norma, 1 peso (seis cêntimos de euro). Senhoras mais abastadas jogam com vários ao mesmo tempo. Nesse caso, cabe-lhes pagar entre 1 a 3 euros a cada 10 minutos para manterem as suas probabilidades mais elevadas. Tendo em conta que podem estar às mesas dezenas de apostadoras, certos prémios ascendem aos 300 ou 400 pesos (15 a 20 euros). Mesmo considerando o nível de vida mais baixo do México, a quantia não faz a fortuna de ninguém.

“Loteria!!!!” grita, ainda assim, com vigor, a vencedora da última volada (ronda). É contemplada com um molho de pesos metálicos trazido por Patrícia Zavala, uma das “caixas” móveis de serviço, tal como a senhora que “canta”, vestida com trajes tradicionais campechanos adequados ao clima tropical: de linho, brancos e com rendas floridas.

Só certas jogadoras a conhecem, mas há uma forte razão histórica para o passatempo funcionar com limites financeiros pouco ambiciosos.

Por volta do século XVIII, a colónia de Nova Espanha viu-se a braços com uma “epidemia” de barajas (cartas) importada da Europa. O jogo era ilegal mas viciava cada vez mais súbditos de sua majestade. Gerava apostas que, malgrado a subtileza com que eram feitas nas ruas, acabavam por ser percebidas e preocupavam seriamente as autoridades.

Diz-se que, como resposta, o próprio rei Carlos III teve a ideia de introduzir no território uma forma de loto que chegara à Espanha vinda da Península Itálica, via França. O passatempo tinha já sido introduzido na maior parte da América espanhola. Começou a fazer furor em Campeche durante a celebração patronal do Cristo Negro de San Román que, incorpora, ainda hoje, longas maratonas de loteria.

Num dos momentos financeiramente sossegados de nova volada, Patrícia Zavala conta-nos outras curiosidades: “a determinada altura, as cartilhas passaram a ser vendidas nas tendas de abarrotes (mercearias) da cidade. Há algum tempo, uma delas até oferecia símbolos para colar nos cartões.”

Com ou sem essa ajuda, as jogadoras inveteradas habituaram-se a produzir os seus para o que empregam um misto de superstição e de ciência caseira de probabilidade assente em que não se devem repetir figuras num só quadro e que a imagem preferida das 90, deve ser colocada no meio.

As senhoras mais desafogadas ocupam espaço adicional nas mesas com as suas apostas em multi-cartão. Conscientes deste abuso, algumas optam por imprimir e usar reduções dos originais que ocupam menos que os 15x15 cm convencionais.

Com os anos, a loteria campechana tornou-se popular. De tal maneira que as gentes começaram a usar os seus pictogramas para memorizarem toda a classe de números: telefónicos, códigos, entre outros. O jogo nunca mereceu, no entanto, fiscalização oficial. Recentemente, houve quem aproveitasse e tentasse, sem sucesso, patentear o conjunto homologado de símbolos para, mais tarde, lucrar a sério.

É algo que continua por acontecer entre as várias mesas instaladas no Parque Central o que não obsta a que a comunidade de damas conviva e se divirta mesmo que chova, o que nos dias mais ensopados da região, obriga as senhoras a apostarem debaixo de grandes chapéus de chuva.

É proclamado um bolazo ao microfone. O incentivo concede três peças adicionais a quem for contemplado com um símbolo no centro geométrico do cartão. E também sandes e sumos. Nem todas as presentes esperaram pela benesse. Já antes, familiares e amigas partilhavam empanadas e tamales.

Nora Garcia, uma senhora distinta premiava-se com um copo de arroz con leche cremoso mas não tirava os olhos da mesa, inspeccionando as melhores hipóteses de ganhar com as combinações horizontais, verticais ou diagonais de cinco peças, com as tijeras (pontas de seta), ou alguma das várias formas válidas de cruzes.

Já escureceu faz muito mas o Parque Central mantém-se animado, para gáudio de dezenas de turistas alemães em volta de um guia que aproveita para lhes apresentar o curioso fenómeno lúdico. Fascinados pela descoberta, os visitantes em número intimidador puxam das suas câmaras e perturbam o desenrolar pacato do jogo para mais tarde o recordar.

Rosa Puga ignora-os e comunica nova extracção: “Diezisiete Sillas”. A cada rotação da tômbola, a noite avança mais um pouco. Mas nem a súbita invasão teutónica motiva aquelas amantes da loteria campechana a levantar-se das suas cadeiras.

Guias: México+