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Vista de Selkirk

Vista de Selkirk

Um dos panoramas perscrutado por Alexander Selkirk vezes sem conta em busca de navios ao largo.

Ilha Robinson Crusoe, Chile

Na Pele do Verdadeiro Robinson Crusoe

A principal ilha do arquipélago Juan Fernández foi abrigo de piratas e tesouros. A sua história fez-se de aventuras como a de Alexander Selkirk, o marinheiro abandonado que inspirou o romance de Dafoe


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Assim que deixa para trás o continente sul-americano, o elegante Twin Otter encontra um céu salpicado de pequenas nuvens que, aqui e ali, vai perfurando. Seiscentos quilómetros depois, a nebulosidade intensifica-se e encobre o arquipélago de Juan Fernandez deixando apenas algumas arestas de terra descobertas que o piloto reconhece sem hesitações. A pista surge apertada entre as nuvens e o topo dos penhascos de Robinson Crusoe mas, apesar do vento forte, o piloto conduz o avião suavemente à terra batida. Onde se detém, uma bandeira esvoaçante anula qualquer dúvida que a distância e a estranheza do terreno pudessem levantar. Regressámos a solo chileno.

O aeródromo fica num lado da ilha, San Juan Bautista, a povoação onde se concentram os seus quinhentos habitantes, fica noutro. Não é possível fazer o caminho por terra o que obriga a um translado pelo mar que, além de lento, é complicado. O velho jipe ferrugento que assegura a ligação ao barco recusa-se a pegar. Quando pega, porque é o único veículo disponível, tem que cumprir várias viagens de ida e volta, cada uma mais arrastada que anterior.

Como se não bastasse, a ondulação é forte. Atira a embarcação em que devíamos prosseguir contra o molhe da Bahia del Padre, o que gera sucessivas discussões entre a tripulação. Em redor, dezenas de leões-marinhos nadam inquietos analisando o porquê de tanto frenesim. Quando o barco finalmente zarpa, seguem-no por algumas centenas de metros, como que a assegurar a segurança do seu território.

As desventuras ainda estão por terminar. A apenas cinco minutos de chegar ao destino, o barco imobiliza-se e a tripulação percebe que vem a perder combustível desde que embateu com mais violência num dos pilares do molhe da Bahia del Padre. Em Robinson Crusoe, tudo se resolve e, em três tempos, surge uma embarcação ainda mais pequena que, a grande esforço, nos reboca.

A chegada à vila é atribulada mas apoteótica. Dezenas de ilhéus acenam ansiosos pelos reencontros com os familiares ou tão só entusiasmados pelo renovar das gentes. Começa a desvendar-se uma peculiar forma de vida. 

Sobre o molhe, os locais pescam à linha, puxando, da água, peixe atrás de peixe. Ao largo, pequenas embarcações descarregam caixotes de lagosta acabada de capturar, contribuindo para a principal exportação da ilha. São muitas as toneladas destes crustáceos enviadas, todos os anos, para o continente chileno. As suas remessas tornaram-se de tal maneira importantes que a Lassa - a companhia aérea que opera os voos de e para Valparaíso e Santiago - lhes dedica regularmente metade dos seus aviões.

Quando escrevemos metade, referimo-nos a todo um dos lados da cabine. Como pudemos testemunhar, nessas ocasiões, as cadeiras são removidas e o espaço é preenchido por caixotes que tresandam a marisco.

O mar é generoso para os locais. Dá-lhes que fazer e alimenta-os anulando as razões mais óbvias para deixarem o isolamento anestesiante de Robinson Crusoe, uma separação que nem o passar dos séculos nem a modernização do Chile conseguiram ainda resolver.

Dos Piratas ao Caçador de Tesouros

Assim que nos instalamos, damos início à exploração da ilha com os guias e instrutores de mergulho Pedro Niada e Marco Araya Torres, acompanhados de um casal de franceses recém-chegado e de Toni um barcelonense estudante ERASMUS de Biologia, há já algum tempo na ilha. Saímos com o propósito de desbravar o litoral rude e mergulhar com os leões-marinhos, uma das espécies endémicas locais, agora em plena recuperação da matança sistemática levada a cabo por caçadores de vários países até ao início do século XIX.

O percurso para as colónias dos “lobos” (como lhes chamam em Robinson Crusoe) revela o esplendor vulcânico dos cenários contrastantes que mudam consoante a orientação e a exposição aos ventos húmidos do Pacífico.

Há também tempo para uma paragem estratégica na Baía do Inglês. Aqui, Pedro Niada introduz-nos a história de George Anson, o marinheiro que baptizou a baía onde se formou o povoado pirata de Cumberland e deu ao vale contíguo o seu nome. Diz-nos que ali escondeu um tesouro de valor incalculável e que já foram muitos os que o procuraram desenterrar, sempre em vão. Adianta ainda que Bernard Keiser, um milionário norte-americano, continua a tentar. 

Niada havia acompanhado Bernard Keiser em várias das suas épocas de trabalho. Com paciência e eloquência, à laia de documentário, o guia chileno vai percorrendo a enseada e elucida-nos sobre cada marca na rocha, cada medida e pista deixada pelos piratas com referência a pedras com formas curiosas, riachos ou árvores. A narração deixa-nos ainda mais fascinados pela ilha e pena é que estivéssemos em pleno semestre de restrição às escavações de Kaiser imposto pelo governo chileno...

Um Arquipélago Único

Deixamos a Baía do Inglês e seguimos por mais alguns minutos, ao longo de uma costa batida pelo mar agitado que acalma apenas quando nos deparamos com a enseada dos leões-marinhos. Detectado um recanto suficientemente tranquilo para o mergulho, equipamo-nos e saltamos para a água. Em três tempos, vêmo-nos cercados por crias e adultos frenéticos que não resistem à curiosidade e nos desafiam, chegando a morder-nos as barbatanas como que a tentar perceber de que espécie somos.

Por questões de calendário relacionadas com os voos e com as limitações impostas pelo transporte de lagosta, não temos todo o tempo que queríamos para descobrir a ilha. Como tal, após várias viagens pelo litoral, decidimos explorá-la para o interior, por trilhos inevitavelmente íngremes. 

Assim que nos começamos a internar em Robinon Crusoe, sobressai a sua flora fascinante enriquecida por espécies endémicas. Só por si, as paisagens despertam um enorme fascínio. Mas o interesse de Robinson Crusoe e das suas irmãs vai muito além dos panoramas. A quantidade de espécies animais e vegetais autóctones e a geologia dramática que está na base dos seus ecossistemas, atraem, há muito, ao arquipélago inúmeros cientistas. Como causa e consequência, em 1977, a UNESCO declarou-o uma Reserva Mundial da Biosfera, representativa da Região Oceânica da Polinésia do Sudeste.

O Verdadeiro Robinson Crusoe 

A personagem chave da ilha Robinson Crusoe chegou muito antes. Estava pouco interessada na fauna e na flora mas, sem quase ter tido tempo de perceber como ou porquê, passou a delas depender. A peripécia ficou para a posteridade como um dos mais excêntricos momentos da navegação corsária britânica.

À imagem das ilhas próximas - Alexander Selkirk e Santa Clara - Robinson Crusoe foi descoberta em 1574, por Juan Fernández, um navegador castelhano de família portuguesa. Pouco depois, o arquipélago agora seu homónimo, transformou-se num porto de abrigo dos piratas que atacavam os galeões carregados de ouro e pedras preciosas destinados a Cartagena das Índias e a outras paragens do vasto império hispânico.

Em 1704 fundeou na baía de Cumberland, o Cinque Ports, um navio corsário inglês. O seu capitão era William Dampier, um criador de mapas admirado mas considerado inapto para liderar embarcações repletas de homens rudes e conflituosos nos mares mais perigosos de que havia conhecimento.

Obcecado por saquear os navios espanhóis e portugueses que contornavam a costa Oeste da América do Sul, Dampier insistiu - contra o bom senso e a vontade dos seus marinheiros - em vencer o temido Cabo Horn durante o Inverno Austral, altura em que as tempestades eram mais frequentes e ameaçadoras.

Por três vezes tentou o feito e em todas, o navio foi afastado para longe da rota, sofrendo avultados danos. Quando a tripulação – que, em parte, já sofria de escorbuto - ameaçou revoltar-se, o contramestre, o escocês Alexander Selkirk, alertou Dampier.

Este, recusou-se a dar ouvidos. Conduziu o Cinque Ports uma vez mais para sul do Cabo Horn, sempre à mercê de um mar traiçoeiro. 

A sorte estava do lado do capitão. Apesar de danificado, o navio conseguiu passar do Atlântico para o Pacífico, e Dampier conduziu-o a Masatierra (a actual Robinson Crusoe) para que os seus homens pudessem recuperar.

Selkirk esperava que ordenasse uma reparação geral do Cinque Ports, mas Dampier continuava ansioso e queria zarpar o quanto antes. Convicto de que o navio não iria aguentar mais tempestades, o contramestre exigiu ser deixado na ilha. Farto das confrontações do contramestre, Dampier fez-lhe a vontade, com agrado. 

Selkirk voltou uma derradeira vez ao barco e levou para terra o seu colchão, uma espingarda, pólvora e balas, tabaco, um machado e uma faca, uma bíblia, instrumentos de navegação e alguns livros. Pensou que assim estaria bem preparado para o que estimava ser uma curta espera.

No momento decisivo, à medida que o barco a remos se afastava da costa de Masatierra, Selkirk ainda foi assolado pela dúvida e correu para a borda da água para chamar de volta os companheiros. Forçados pelo capitão a ignorá-lo, os remadores continuaram em direcção ao Cinque Ports. Selkirk ficou a ver o navio desaparecer no horizonte.

A sua solidão acabaria por durar quatro anos e quatro meses. Durante esse tempo, conseguiu alimentar-se de cabras que tinham escapado de outros barcos e colonizado a ilha, bem como de leite, frutas e de vegetais que tinham sido plantados anos antes pelos espanhóis.

A paisagem circundante era, à sua maneira, paradisíaca e proliferavam nascentes de água doce mas, apesar de um relativo bem-estar sobrevivente, Selkirk ansiou, desde o primeiro minuto, pela embarcação que o pudesse salvar. Subia, várias vezes por dia, aos pontos mais altos da ilha para perscrutar o horizonte. Passaram-se meses sem que o Pacífico lhe trouxesse novidades.

Tratou, então, de se instalar melhor. Construiu uma cabana com troncos que forrou com peles de cabra. Mais tarde, mudou-se para o interior de uma gruta.

Onde quer que estivesse, mantinha, no exterior, uma fogueira acesa, na esperança de que alguém avistasse o fumo.

A sua longa solidão terminou apenas no início de 1709 quando avistou o Duque, o navio que o levaria de volta à Grã-Bretanha. Por ironia das ironias, o piloto deste navio era William Dampier, o ex-capitão do Cinque Ports que lhe havia validado o cruel destino.

Após o regresso, a sua aventura correu as docas, tabernas e estalagens da velha Albion. Incluía trechos tão mágicos como danças e cantorias com cabras amestradas sob a luz da lua e tornou-se de tal forma famosa que inspirou Daniel Dafoe a escrever As Incríveis e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe com base numa personagem fictícia e passado nas Caraíbas. 

Nos Passos de Alexander Selkirk

Ao jeito de homenagem e para aproveitar o potencial turístico da relação entre Alexander Selkirk e Robinson Crusoe, este ultimo seria adaptado como o nome actual da ilha. Foi escolhido pelos habitantes para substituir Masatierra, usado, até então, por a ilha ser a mais próxima do continente sul-americano.

Deixámos para o fim o percurso doloroso que conduz ao Miradouro de Selkirk. Após dois quilómetros de curvas e contracurvas sempre íngremes, passa a fazer-se debaixo de autênticos túneis formados pela vegetação densa. Logo depois, revela-nos o posto de vigia, celebrado na aresta elevada da montanha por uma placa de bronze explicativa.

Dali, cansados e fustigados pelo vento, observamos, deliciados, a beleza fascinante de Robinson Crusoe, destacada pelas vertentes verdejantes dos montes em redor e pela língua de terra inóspita que se prolonga para sul das Tres Puntas.

No que a terra diz respeito, a vista termina na distante Isla de Santa Clara, a menor das ilhas de Juan Fernández e a mesma “vizinha” que Alexander Selkirk se habituou a contemplar dia após dia, até à passagem do “Duke” a embarcação que o resgatou, mas nunca resgatou Robinson Crusoe.

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