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Nana Kwame V

Nana Kwame V

Nana Kwame Menya V, nkyidomhen (chefe da área tradicional de Oguua) -, exibe o seu poder levitado por súbditos.

Cape Coast, Gana

O Festival da Divina Purificação

Reza a história que, em tempos, uma praga devastou a população da Cape Coast do actual Gana. Só as preces dos sobreviventes e a limpeza do mal levada a cabo pelos deuses terão posto cobro ao flagelo. Desde então, os nativos retribuem a bênção das 77 divindades da região tradicional Oguaa com o frenético festival Fetu Afahye.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Sem sabermos bem como, vemo-nos numa embrulhada daquelas bem africanas. Frank, motorista da Autoridade de Turismo do Gana, tinha recebido instruções para nos deixar num lugar estratégico da parada mas, em tempo de festa, a zona litoral de Cape Coast estava toda à pinha. Apesar dos apelos desesperados do condutor, de cabeça de fora da janela ou a buzinar sem cerimónias, emboscado pela multidão que seguia o cortejo, o sedan de vidros escuros mal se movia. Frank olha para trás em desespero. Sabia que era tudo menos normal largar-nos, ali, sem a orientação dos anfitriões, nesse dia, entregues à sua própria celebração.

Contemplamo-lo, por momentos. Fazemos o que tínhamos que fazer. Estávamos no Gana pela primeira vez. Não tínhamos ideia do que representaria metermo-nos, de máquinas fotográficas ao pescoço, em tal turba eufórica. Mesmo assim, deixamos o carro refrigerado e mergulhamos no rio de gente que descia a Kotokuraba Rd.

Durante um primeiro trecho, progredimos num aperto húmido e transpirado. Não tarda, aproximamo-nos da zona do percurso em que muitos dos espectadores se haviam alinhado à beira da estrada. Muitos dos intervenientes do desfile estavam já para trás. A visão de uma bancada partilhada por anciãos em túnicas tradicionais garridas indiciava ser um lugar privilegiado para nos determos. Recuperamos o fôlego. Ensopamos o suor tropical que nos encharcava. Procuramos um espaço inofensivo e ficamos a apreciar o frenesim ora protocolar ora popular e gentio que fluía por aquela artéria congestionada da cidade.

Sucessivos clãs de personagens surgem de montante do cortejo. Chegados à frente da bancada, exibem as suas danças, ritmos, trajes, os seus visuais e artes tradicionais. Refastelados sobre cadeiras de plásticos, protegidos do sol cruel por um grande chapéu de sol escarlate com abas caídas, os anciãos da região de Oguaa (Cape Coast) apreciam cada um dos espectáculos com entusiasmo contido. À sua frente, rodopiam dançarinos portadores de estandartes das suas regiões. Apresentam-se guerreiros com fios e colares tribais dependurados dos troncos-nus musculados e inflados sobre  saias franjadas vernaculares. Estes guerreiros massivos, com ar condizente de poucos amigos seguram zagaias com ambas as mãos. Parecem nelas apoiar a austeridade e o seu excessivo peso bélico.

Desfilam ainda músicos, tocadores de grandes baterias de tambores elevados acima da multidão por carregadores sacrificados. E duos ou trios de trompetes e de trombones que metalizam a atmosfera com estranhas melodias hipnóticas. Entre os figurantes e artistas, prosseguiam os participantes populares casuais, muitos deles, tão ou mais motivados a brilhar. Alguns, dançavam por nós em profundo transe, arrebatados pelo ritmo dos tambores e pelo apelo sobrenatural dos deuses. Outros, respondiam ao estímulo do inesperado duo de forasteiros de máquinas em riste. Detinham-se. Encaravam-nos, surpresos e hesitantes. Então, movidos pelo álcool e pela adrenalina comunal do evento, ensaiavam poses estilosas de vedetas da ocasião.

O festival Fetu Afahye tem muito mais que se lhe diga que a ostentação com que ali nos deparávamos. Começa, aliás, de uma forma bem contrastante. O seu cerimonial é inaugurado semanas antes, quando Osabarimba Kwesi Atta II, o Chefe Supremo da região de Oguua, se entrega a uma semana de confinamento e conferências com os deuses. Neste período, são proibidos a dança, os tambores, o ruído e a festividade em geral na municipalidade de Cape Coast.

A Lagoa Fosu que se enfia costa adentro como uma extensão providencial do Golfo da Guiné e prenda os nativos com alimento fácil, tem a pesca interditada. Os seus guardiães (amissafos) levam a cabo um ritual de purificação com o objectivo de espantar os maus espíritos, rogar pela abundância de peixes e por colheitas favoráveis. Uma data em particular, a Amuntumadeze, é reservada para a comunidade limpar o seu ambiente: recolher lixo, desentupir sarjetas, pintar fachadas de prédios e tudo o mais que possa contribuir para a higienização e o embelezamento das ruas.

Esta preocupação advém do trauma que a população de Oguua terá sofrido ainda antes do período colonial, quando uma peste fulminante dizimou boa parte dos seus habitantes e estes, em desespero, oraram como nunca aos deuses. O nome do evento ganhou aí a sua origem. “Fetu” é uma adaptação de “efin tu” que se traduz no dialecto fante como “livrar-se da sujidade” ou “livrar-se do mal”.

Uns dias depois do Amuntumadeze, o povo aflui à lagoa onde, durante a noite, os sacerdotes e sacerdotisas invocam os deuses, acompanhados por danças populares ao som de tambores. Outros rituais têm lugar num santuário local. Osabarimba Kwesi Atta II oferece uma bebida aos deuses e reabre oficialmente a lagoa, lançando ele próprio uma rede três vezes à agua. Se a rede capturar muito peixe, isso é sinal de pesca e colheitas abundantes no ano vindouro.

À medida que a semana se aproxima do fim, mais nativos chegam da área de Cape Coast mas também de partes longínquas do Gana. Os chefes de Oguua dão-lhes as boas-vindas, após o que se reúnem num durbar diplomático com o propósito de resolver disputas que se tenham vindo a arrastar. Seguem-se uma cerimónia de convocação dos espíritos ancestrais, o ritual Bakatue que envolve disparos solenes de mosquetes. Por fim, o sacrifício de um touro pelo próprio Osabarimba Kwesi Atta II  em honra de Nana Paprata - um dos deuses fulcrais da Terra – valida as celebrações festivas e a parada semi-tresloucada de Sábado em que nos continuávamos a embrenhar.

Avançamos e recuamos na Kotokuraba Rd. em perseguição ofegante dos motivos mais excêntricos do cortejo. Um enorme boneco de baleia negra de boca aberta, é empurrada por participantes de uma das asafos, as organizações militares do  subgrupo étnico ganês fante que contribuem para a segurança e paz da área tradicional de Oguua: a Bentsir, a Anaafo, a Ntsin, a Nkum, a Abrofomba, a Akrampa e a Amanful. A migração sobre rodas daquela réplica de cetáceo rua abaixo expunha à comunidade de Cape Coast, a força da companhia militar que a adoptar como símbolo e o conceito histórico de que, por mais evolução tecnológica a que homem chegue, o mundo natural será sempre mais poderoso que o humano.

A espaços, animam ainda o cortejo as passagem mirabolantes dos chefes de distintas regiões ganesas. Surgem envoltos de exuberantes indumentárias nobiliárquicas: coroas, braceletes, enormes anéis de ouro, tecidos lustrosos e outros adereços tão ou mais vistosos. Saúdam o povo do cimo da sua soberania, deitados em palanquins com formas algures entre sofás e  banheiras e que dezenas de súbditos sustentam no ar.

A populaça exalta com a proximidade dos líderes. Clamam pelos diminutivos dos seus longos nomes dinásticos e acenam lenços ou t-shirts enroladas de volta, em jeito de gratidão.

Toda esta comoção atinge um auge bem audível com a entrada em cena do actual Omanhen Osabarimba Kwesi Atta II, como é suposto, sumptuoso e majestoso a dobrar e, por desfilar em casa e ser o supremo, muito mais louvado que os congéneres.

Nem sempre os chefes de Cape Coast puderam expor desta forma o seu poder, controlar o seu destino e o do seu povo, ou proporcionar-lhe o idolatrado Fetu Afahye.   

A partir do fim do século XV, as potências coloniais europeias sucederam-se no controle desta parte da costa africana do Golfo da Guiné, do tráfico de ouro e, logo, de escravos que se apressaram a explorar. Em 1482, os portugueses fundaram o forte de São Jorge de Mina, a pouco mais de 10 km de onde estávamos e, em simultâneo, a sua proveitosa colónia da Costa do Ouro. Ao longo dos séculos, outros fortes e entrepostos se sucederam, alguns de nações ocupantes menos esperadas e notórias em África, casos da Suécia e da Dinamarca.

Durante este período de intensa rivalidade europeia, as autoridades coloniais de Cape Coast começaram a considerar o Fetu Afahye a uma espécie de Natal Negro, uma celebração tradicional maligna que comprometia os valores cristãos trazidos do Velho Mundo. Interditaram-no por largo tempo. O festival só seria retomado após a contestação de vários líderes e sacerdotes da Região Tradicional de Oguua. Em 1948, apenas nove anos antes da declaração de independência ganesa do domínio britânico.

Na Kotokuraba Rd., ao invés, o cortejo sabático do Fetu Afahye prosseguia sem pausas ou clemência. A determinada altura,  com a sensação de vertigem conferida por uma trupe de acrobatas sobre andas, que caminhava acima dos transeuntes e se detinha a conversar com os espectadores nas varandas mais elevadas do percurso.

Aproximávamo-nos do extremo sul da via, da Chapel Square e do Palácio do Chefe em que era suposto o desfile desembocar. Antes disso, ainda atravessou uma praça em que se transformou numa festa de rua efémera animada por uma banca que passava música a altos berros e seduzia ao estrelato dançarinos casuais. Lá nos espantamos com uma peixeira que se contorcia com incrível graciosidade africana sem nunca deixar cair o tabuleiro equilibrado sobre a cabeça.

O cortejo atinge os derradeiros meandros. Serpenteamos pela Royal Lane e chegamos ao Victoria Park, o sítio pré-determinado para novo Durbar, a celebração oficial de encerramento que volta a reunir os chefes.

A acção dá lugar a um aturado protocolo repleto de diplomacia e de locução. Osabarimba Kwesi Atta II circula com pompa, recebe os cumprimentos e saudações dos visitantes. Logo, senta-se e acolhe o orador convidado. O Omanhen e os seus chefes devolvem as felicitações do orador convidado e, em seguida, o chefe supremo de Ouguua inaugura aquele que é o mais conceituado dos discursos. A batalha verbal ainda tem uma derradeira resposta do orador convidado. Até que, por fim – para mais que provável alívio de muitos dos presentes - as companhias Asafo tomam o protagonismo e, com as suas acrobacias, encerram o Durbar.

A multidão debanda para os distintos focos de festa nocturna  disseminados em redor. Um núcleo mais paciente precede a boémia de uma peregrinação ao Cape Coast Castle, outro dos fortes negreiros erguidos pelos europeus na costa do Gana, este pelos oportunistas suecos. Juntamo-nos a esta romaria. Depois de termos já visitado o de São Jorge de Mina, inteiramo-nos, ali, do quão dramático se provou o período do tráfico negreiro que devassou a nação ganesa. Do cimo das suas muralhas nos deslumbramos com a cor e o vigor da frota tradicional pesqueira que preenche muito do areal da enseada contígua. Para o interior, do litoral da cidade ao seu âmago, Cape Coast rejubilava de espiritualidade e liberdade. E inebriava-se à altura do encerramento do seu Fetu Afahye.