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Cores Argentinas

Cores Argentinas

Visitantes admiram a vastidão azulada do glaciar Perito Moreno.

Perito Moreno, Argentina

O Glaciar Que Não se Rende

O aquecimento é supostamente global mas não chega a todo o lado. Na Patagónia, alguns rios de gelo resistem.De tempos a tempos, o avanço do Perito Moreno provoca derrocadas que fazem parar a Argentina


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Doña Alexandra, co-proprietária da pousada homónima de El Calafate, não se conforma. Chega a hora da segunda novela do dia mas, como quase todos os outros, o canal argentino em que mantém a TV alterou a grelha de emissão para se concentrar num evento de importância maior.

A família e alguns amigos ocupam os sofás da sala de estar. Em casa e abstraídos como estão, pouco se preocupam com o conforto dos hóspedes estrangeiros que como nós, de pé ou sentados em recantos afastados da divisão, se procuram inteirar das novidades. E, apesar de, num plano visível, não se passar muito, o País das Pampas e várias outras nações viraram antenas para o fim do mundo patagónio.

Interessava-nos a realidade mais que a sua imagem. Só 78 km as separavam e a decoração sopeira daquele Hogar Dulce Hogar sugeria uma partida imediata.

Chegamos ao anfiteatro natural do Parque Nacional Los Glaciares ainda a manhã ia a meio. Sob uma chuva miúda mas frígida, equipas de reportagem porteñas e de outras paragens do Planeta descarregavam equipamento das suas carrinhas e instalavam-se com a melhor vista possível para o cenário, também disputada pelos espectadores comuns.

Descemos o caminho serpenteante e aproximamo-nos do centro geométrico do lugar. Uma bandeira albi-celeste ondula agitada pelo vento furioso. Paramos junto ao seu mastro. Daí para norte, impõe-se o domínio majestoso do Glaciar Perito Moreno, mais uma vez a comprovar a saúde da meteorologia extrema da zona.

A origem deste rio de gelo reside numa falha baixa na Cordilheira dos Andes que permite que as nuvens pesadas provenientes do Pacífico atravessem do Chile para o outro lado da divisória onde descarregam a humidade na forma de uma neve que sobrepõe há muitos milhares de anos no que é o coração do ventisquero, assim lhes chamam os argentinos, por os vales glaciais atraírem rajadas contínuas.

O peso acumulado causa a sua recristalização em gelo que desce lentamente da montanha para leste. Trinta quilómetros para diante, a frente, ou melhor dizendo, a área de ablação - um paredão maciço com 5 km de largura, 60 m de altura e 170 m de gelo submerso – choca com a margem do Lago Argentino e represa o Canal dos Témpanos. Separa, assim, uma das suas extensões, o Brazo Rico, do corpo principal. A cisão provoca um desequilíbrio da água de ambos os lados. O Brazo Rico, fica sem escoamento e pode subir até 30 metros.

Com o tempo, a pressão e o derreter do gelo, acelerado pela entrada do Verão no sul do Hemisfério Sul, acabam por esculpir uma ponte. Em vinte e uma ocasiões de 1917 a 2012, esta ponte cedeu ao próprio peso e à força exercida pelo avançar do glaciar (dois metros por dia) contra a rocha da margem. Acaba por colapsar sobre o lago e provoca um forte troar seguido de um pequeno tsunami. Mas o culminar do processo é difícil de prever.

As horas passam. O frio e a chuva aumentam e castigam a multidão que se havia formado, embrulhada em roupa farta e em impermeáveis, aquecida pela conversa, por café e chá mate escaldantes. Até que a noite cai e só os profissionais se continuam a sacrificar.

Três dias desconfortáveis assim se passam. El puente vai dando ligeiros avisos que entusiasmam e estimulam a gente a voltar. Os espectadores aumentam de número e preenchem toda a encosta, ansiosos pelo último momento. De quando em quando, cai mais um fragmento sobre a água com estrondo e a gente rejubila. Mas a grande derrocada teima em adiar-se.

Um gaúcho que trabalha como guia em part-time mete conversa e conta-nos a sua agonia particular: “sempre que chegamos esta altura tenho que levar com o mesmo filme. O pessoal que trago mete na cabeça que a ponte vai cair a qualquer momento e atrasam o máximo que podem o regresso ao ponto de encontro. Como isto está à pinha, encontram cá as televisões e o aparato todo e custa-lhes a acreditar que ainda falte muito. Mas olhem que podem perfeitamente passar mais 5 ou 6 dias sem que nada aconteça. Já vivi várias destas rupturas. São uma verdadeira lotaria.”

O Perito Moreno é caprichoso, disso não temos dúvidas.  Talvez nem o prestigiado naturalista que lhe emprestou o nome (Francisco Pancásio Moreno) encontrasse explicação para o fenómeno excepcional que  protagoniza. Numa altura em que o híper-discutido aquecimento global encolhe a Gronelândia a olhos vistos e faz mirrarem quase todos os glaciares e áreas geladas à face da Terra, este ventisquero beneficia do vigor invernal do Campo de Gelo do Sul da Patagónia. Expande-se e galga a margem do Lago Argentino vezes sem conta.

Fartamo-nos do frio e do desconforto da imobilidade e desistimos. Aventuramo-nos numa pequena caminhada sobre crampons e a superfície do glaciar. Montanheiros líderes demonstram técnicas de escalada que lhes concedem uma estranha mobilidade vertical em pequenas montanhas vitrificadas. Entramos e saímos de grutas turquesa e admiramos caudais de água rápidos, nas profundezas daquele maciço gelado. No regresso, cruzamo-nos com pequenos icebergues que haviam encalhado na costa e assistimos, ao longe, ao colapso de mais dois grandes fragmentos do interior da ponte que, apesar de tudo, resiste.

Na manhã seguinte, acordamos moídos por todo o tempo ao frio e pelo contacto rígido dos crampons com o gelo. Doña Alejandra dá-nos a notícia com um alívio que nem se preocupa em disfarçar: “Então já sabem? Caiu ontem à noite. Estava escuro como breu. Só lá se aguentavam as TVs. Já passaram um vídeo esverdeado mas não se percebe nada de nada. Interromperam-me as novelas vezes sem conta para isto. Bom, pelo menos agora só daqui a uns quatro anos, com sorte mais”.

Não encontrámos em El Calafate algo que prometesse distrair-nos melhor e a curiosidade acaba por vencer. Voltamos ao glaciar e encontramos o Canal dos Témpanos desimpedido. Um retalho do glaciar permanece encaixado contra as rochas. A fenda tem várias dezenas de metros. Do lado oposto, persiste a imensidão azul do corpo principal.

Damos a volta ao Lago Argentino e admiramos o resultado da grande ruptura, em simultâneo com outros visitantes, estes a bordo de um dos barcos panorâmicos que ali navegam.

Nesse preciso momento, apesar do Verão meridional se reforçar, o resiliente Perito Moreno já progredia de novo para margem. Não tardará muito a recuperar a ponte e a sua forma predominante. 

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