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Sombra vs Luz

Sombra vs Luz

Visitantes admiram e fotografam o Pavilhão Dourado na sombra de árvores d margem do lago Kyoko-chi.

Quioto, Japão

O Templo que Renasceu das Cinzas

O Pavilhão Dourado foi várias vezes poupado à destruição ao longo da história, incluindo a das bombas largadas pelos EUA mas não resistiu à perturbação mental de Hayashi Yoken. Quando o admirámos, luzia como nunca.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Passava das oito e meia. O autocarro avançava pelas vias ainda desertas de trânsito, numa manhã de quarta-feira. Pouco depois do feriado nipónico que louva a saúde e o desporto, também não víamos vivalma naqueles arredores campestres de Quioto pelo que nos ocorreu que boa parte da população se tinha deixado dormir a recuperar do exercício comunal de há uns dias.

Uma voz feminina automatizada anunciou Kinugasa-ko-mae. Apesar do inevitável tom estridente e infantil, reconhecemos o nosso destino e saímos. Para diante, erguia-se uma encosta com vegetação alternada entre o verdejante e o outonal. Preferíamos que estivesse toda ou, vá lá, quase toda, com os tons deslumbrantes que antecedem a queda mas o Monte Kinugasa e as suas vertentes nunca se vergaram a caprichos.

Já Uda, o 59º imperador do Japão, havia exigido ver a bela paisagem, nevada, no pino do Verão. Para o satisfazerem, os súbditos da região tiveram que envolver a área em seda branca. O nome do monte traduz esse inesperado evento. E se, desde então, muito mais acontecimentos dignos de registo se passaram nestas paragens, um enredo em particular comoveu o Japão como não acontecia desde a aniquilação nuclear de Hiroxima e Nagasaki e a capitulação consequente na 2ª Guerra Mundial.

Tornou-se de tal forma notório que foi reconstituído mais que uma vez como filme e, enquanto romance “O Templo do Pavilhão Dourado”, pelo controverso Yukio Mishima. A abundância de reconstituições artísticas acabou por diluir a realidade na ficção.

Sabe-se que, em 1944, o pai de um jovem gago e feio de nome Hayashi Yoken, padre zen e, no fim da sua vida, tuberculoso, duma aldeia costeira do norte do Japão levou-o a admirar e a louvar a beleza de Kinkaku-ji (Rokuon-ji, de nome oficial), na origem a residência de Yoshimitsu, o terceiro xogun Ashigaka que entrou para o clero aos 37 anos e se tornou um seguidor do monge Zen Soseki e da filosofia Zen. Yoshimitsu determinou que após a sua morte, o complexo em que vivia se deveria converter num templo com Soseki como seu Superior.  

Quinhentos anos depois, o pai de Hayashi apresentou-o ao líder religioso contemporâneo desse templo, Murakami Jikai, era este o seu verdadeiro nome.

Segundo narraram tanto Mishima como o realizador Kon Ichikawa, após a morte do progenitor, com a guerra em pleno, Hayashi (Mizoguchi no livro e no filme) tornou-se um dos três acólitos sob a custódia de Jikai. No primeiro aniversário da morte do pai, a mãe visitou-o. Insensível aos danos na personalidade provocados pela gaguez e feieza do filho - fraquezas exploradas por colegas e outros jovens para o humilharem - impingiu-lhe o seu anseio de que deveria suceder ao líder da comunidade religiosa.

Por essa altura, como o interpretou Mishima, Hayashi já se deixara fascinar pela ideia de que o templo seria reduzido a escombros pelas bombas dos americanos. Mas o Secretário de Guerra dos E.U.A. Henri Stimson – que havia passado a lua-de-mel em Quioto - considerou que a cidade tinha demasiada importância cultural e removeu-a de forma repetida e teimosa da lista de alvos.

Tanto Quioto como o Templo Dourado sobreviveram à guerra. Na mente esquizofrénica de Mizoguchi, a visão da destruição do templo e o desejo de o possuir e controlar continuavam a debater-se.

A notícia da capitulação japonesa devastou-o. De noite, subiu a um monte em redor da cidade e decretou uma maldição: ”Que a escuridão do meu coração seja a da penumbra que envolve essas luzes sem fim”.

Vários desvios relacionais e sentimentais têm então lugar com diversas novas personagens. À medida que a sua doença psíquica se intensifica, agrava-se a antipatia para com o sacerdote-mor do templo que, em 1949, Mizoguchi vê com uma gueixa, mais um comportamento indigno daquele religioso tutor que era suposto admirar.

Ao mesmo tempo, o facto de o Pavilhão Dourado se ter tornado numa atracção turística visitada e trespassada também pelos ocupantes ianques sem que o impotente Mizoguchi o pudesse evitar, avivou a urgência de o destruir. A determinada altura, Mizoguchi ouviu dois passageiros de um comboio conversarem sobre o templo: “a receita anual livre de imposto do Pavilhão Dourado tem que exceder 5 milhões de ienes enquanto os custos de operação não podem ultrapassar 200 mil.” afirmava um deles. “Então e que aconteceu ao saldo?” questionou o outro. “O Superior alimenta os acólitos de arroz frio enquanto sai todas as noites e gasta o dinheiro com as gueixas de Gion.”

O desgosto do acólito aumentava a olhos vistos. Para o Japão, o Pavilhão Dourado tinha-se tornado um símbolo histórico. Para ele, não passava de um monumento inebriante à decadência e à comercialização do Budismo.

A 2 de Julho de 1949, Mizoguchi entrou no Pavilhão Dourado e espalhou medas de palha pelo chão de madeira. Vencida alguma hesitação, incendiou o edifício. Tentou subir ao terceiro piso mas a porta estava fechada. Ao sentir que algo falhava no plano da sua morte gloriosa, abandonou o templo, semi-intoxicado, a correr.

Pouco tempo antes, um incêndio não premeditado no templo Todai-ji de Nara causado por um cobertor eléctrico levado por um dos restauradores que trabalhavam numa grande pintura levou as autoridades nipónicas a instaurem sistemas de alarme muito avançados para a época. O do Pavilhão Dourado também soou mas a logística combustiva instalada por Mizoguchi garantiu uma rápida propagação do fogo. Mesmo assim, o incendiário conseguiu ascender a uma colina a tempo de, tal como um jovem Nero nipónico entre o delírio e arrependimento, contemplar as derradeiras labaredas.

Mas retomemos os nossos próprios passos contemporâneos. Quanto entrámos, o complexo ajardinado estava quase vazio. Caminhámos por instantes na natureza até que demos com um lago amplo repleto de nenúfares. Uma corda que delimitava o acesso à secção mais próxima da margem deteve-nos. Dali, maravilhámo-nos, por fim, com a visão reflectida na água escura do Pavilhão Dourado reconstruido e agora banhado a folha de ouro. Parecia-nos flutuar para lá das dez pequenas ilhas do lago Kyoko-chi (Lago Espelho) mas aquém de uma floresta verdejante de grandes pinheiros japoneses com ramos retorcidos e copas a roçarem o céu azulão do Outono.

Uma fénix também dourada e de asas abertas exibia-se sobre o coruchéu do terceiro andar de estilo zen, a sua Cúpula do Fundamento. Abaixo, o segundo andar incluía um Salão de Buda e um santuário à deusa da misericórdia. Foi chamado A Torre do Som das Ondas e construído no estilo dos aristocratas guerreiros. Na base, reluzia a Câmara das Águas Dharma, inspirada no estilo dos domicílios da aristocracia imperial Heian, do século XI.

Durante momentos, observados por algumas carpas e kois ansiosas pelo alimento atirado de quando em quando pelos visitantes, deixámo-nos deslumbrar pela beleza que obcecara tanto Hayashi como Mizoguchi. Pouco depois, assolou-nos parte da mácula que os fizera desesperar.

Os primeiros autopullmans tinham chegado e centenas de turistas surgiram atrás dos seus guias de bandeirinhas garridas ao alto. Invadiram e disputaram com grande alarido o espaço exíguo à beira-lago, até então só nosso, e corromperam a paz espiritual que se fazia sentir. Sem alternativa à altura, fugimos para o jardim em estilo período medieval Muromachi que nos cercava e deleitámo-nos com a sua atmosfera harmoniosa zen. Por pouco tempo, a horda de visitantes na sua maioria chinesa não tardou a também ali nos seguir.

Foi então que abandonámos o complexo do Pavilhão Dourado de vez. Durante mais alguns dias, prolongámos a descoberta da Quioto milenar e sumptuosa em que havia deambulado o acólito e que tanto o desiludira.

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