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Ferry Nek Luong

Ferry Nek Luong

Passageiros e carros a bordo da balsa que atravessa o rio Mekong em Nek Luong.

Ho Chi-Minh a Angkor, Camboja

O Tortuoso Caminho para Angkor

Do Vietname em diante, as estradas cambojanas desfeitas e os campos de minas remetem-nos para os anos do terror Khmer Vermelho. Sobrevivemos e somos recompensados com a visão do maior templo religioso


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O cartaz do Sinh Office de Ho Chi Minh City falava numa duração de 12 horas e mencionava um preço modesto de alguns milhões de Dongs mas não mencionava nada sobre o tipo de autocarro ou do percurso. Nestas agências de países do terceiro mundo ou se vai ou se fica. Não há tempo para indecisões e, esperar por respostas honestas é ser ingénuo. Conscientes disso, compramos os bilhetes e mentalizamo-nos para o que o dia seguinte poderia reservar.

Deixamos a caótica rua De Tham por volta das oito da manhã. Três horas depois, chegamos à fronteira. E ao princípio de um longo tormento.

A área que marca a divisão entre o Vietname e o Camboja estabelece também uma separação óbvia na paisagem. De um momento para o outro, os arrozais encharcados e outros campos verdes dão lugar a uma vastidão ressequida, de que se destacam apenas dois enormes arcos que assinalam a saída de um país e a entrada no outro.

O motorista dá indicação para que toda a gente abandone o autocarro e aponta, de forma rude, para a cancela mais próxima, a uns bons 500 metros. Lá fora estão 40 graus, o que torna a caminhada um castigo. A dose viria, no entanto, a repetir-se da barreira vietnamita à cambojana, onde a fila, desnecessariamente aumentada pela preguiça prepotente dos soldados de serviço, é maior que a anterior.

Algum tempo depois, o asfalto até então aceitável transforma-se numa sucessão terrosa de buracos convencionais, antigas crateras provocadas pelas bombas largadas durante a Guerra do Vietname e por lombas e desníveis subsumidos numa poeira densa. O percurso passa também a fazer-se aos “éses” e aos saltos. Mas ainda não é tudo.  

Uma Tortura Rodoviária

Vencemos 150, talvez 200 km e as bexigas de alguns passageiros estão nas últimas. Contamo-nos entre os mais aflitos. Por sorte e conveniência, o motorista mal humorado satura-se do desconforto e decide parar. 

Já estamos em plena savana do sudeste asiático quando notamos que os restantes elementos da excursão esbracejam. Tinha-nos passado despercebida uma placa sinalizadora e caminhávamos entre minas.

A aflição agrava-se mas, uma vez que nada tinha acontecido à ida, no regresso, só temos que identificar e pisar as pegadas no solo. Evitamos, assim, a inesperada catástrofe mas não nos safamos do sarcasmo irritante do motorista: “Foi por pouco, não foi? Para a próxima, vejam se se lembram que não estão a passear em Paris!”.

Apesar do tempo decorrido desde as atrocidades porque se tornou popular o país, aquele cambojano tinha toda a razão.

Em 2010, Kang Kek Lew tornou-se no primeiro khmer vermelho a ser condenado pelos seus crimes de guerra durante o regime maoista de Pol Pot. Muitos mais se deveriam seguir mas o primeiro-ministro Hun Sen prefere preservar a estabilidade política, algo que é visto como uma protecção a vários líderes guerrilheiros, hoje presentes nas instituições locais e nacionais do governo cambojano.  Se os antigos criminosos continuam dissimulados no poder, o Camboja permanece uma das nações mais necessitadas e vulneráveis da Ásia, dependente da assistência das nações desenvolvidas e do investimento chinês.

Comprovamos essa pobreza à medida que percorremos o país e percebemos a quantidade de campos ressequidos ainda infestados de minas e logicamente por cultivar, a predominância de habitações básicas sobrelotadas pelas famílias e pelos seus animais domésticos.

Palmeira cambojana (Borassus flabellifer) atrás de palmeira cambojana, palafita após palafita, já bem depois do pôr-do-sol e com um atraso de cinco horas chegamos a Phnom Penh. Temos apenas uma curta noite de sono para recuperar na capital.

De Phnom Penh a Siem Reap

A viagem recomeça cedo, com partida de uma doca sobre o Tonlé Sap que ali se junta ao Mekong e muda de direcção duas vezes por ano, invertido pelo refluxo do caudal do rio principal que a época das chuvas torna excessivo. Aguardam-nos embarcações futuristas mas desgastadas que depressa se enchem de estrangeiros. 

Zarpamos e, a grande velocidade, deixamos para trás as aldeias ribeirinhas que aparecem pelo caminho e, a balouçar, os pequenos barcos dos pescadores que as alimentam. 

A dois terços do percurso, o leito alarga e dá lugar a uma imensidão lacustre. De rio, o Tonlé Sap passa a lago. Mais duas horas de navegação e atingimos as proximidades de Siem Reap. Mas estamos em plena época seca. Nesta altura, as margens são inacessíveis aos barcos maiores o que obriga a um complexo transbordo.

Provenientes de várias filiais flutuantes, dezenas de pseudo-guias turísticos a trabalhar para guest houses acercam-se de nós em pequenas embarcações e, num processo divisório, tentam convencer o maior número possível de visitantes a prosseguir com eles. Sem alternativas válidas, é o que fazemos.

Dia e meio depois da partida de Ho Chi Minh tínhamos chegado a Siem Reap e os templos de Angkor pareciam mais próximos que nunca. Como a tarde ainda ia no início, saímos, de imediato, para a zona dos templos. Estava na hora da recompensa.

Testemunhos da civilização Khmer

Construídos entre os séculos XI e XIV, quando a civilização khmer estava no seu auge os templos de Angkor testemunham, mais do que a grandeza, a enorme criatividade arquitectónica de um povo que dominou o Sudeste da Ásia, subjugando diferentes etnias durante 600 anos, desde o sul do que é hoje o Vietname, ao território de Yunnan no sul da China, até à baía de Bengala na Índia. Os mais de 100 templos de Angkor são os vestígios vivos do esqueleto de um centro administrativo e religioso que albergava também centenas de casas, edifícios públicos e palácios construídos em madeira (que por isso não são hoje facilmente detectáveis), já que, segundo a crença Khmer, o direito de habitar em edifícios de pedra ou tijolo se reservava apenas aos deuses.

Vários séculos depois, as autoridades cambojanas e da UNESCO concederam a visitantes de todo o mundo, o privilégio de os admirar. Estavamos determinados em aproveitar ao máximo essa benesse.

Dirigimo-nos ao lado oposto da entrada do complexo, ansiosos por encontrar as ruínas furtivas de Ta Phrom (Brahma ancestral) um dos poucos templos a que não foi roubada à protecção original da selva. 

Descobrimo-lo fiel ao imaginário dos viajantes, cercado por árvores tropicais com raízes tentaculares que se agarram aos muros e paredes envelhecidos. Ali, o canto exótico das aves quebra o silêncio e reforça uma atmosfera de puro misticismo. Assim contemplado, o templo abandonado não faz justiça à grandiosidade da civilização que o ergueu mas uma placa informativa afiança que eram 12.500 as pessoas que nele viviam ou que lá serviam. Dois mil e setecentos oficiais, seiscentos e quinze dançarinos e mais de 80.000 almas das povoações circundantes trabalhavam para assegurar os mantimentos e outros serviços. Está provado que Angkor foi mais que um lugar artístico ou religioso. Acolheu cidades impressionantes que também serviam o povo khmer.

Em seguida, voltamos ao reduto de Angkor Thom em busca de Bayon. Tal como Ta Prohm, também este edifício agrupa corredores estreitos e lances vertiginosos de escadas mas ali se destaca a colecção de 50 torres decoradas com 200 misteriosas faces sorridentes de Avalokiteshvara, o Buda da compaixão e a inspiração do rei Jayavarman VII para a construção da cidade.

A Imponência Religiosa de Angkor Wat

Mudamo-nos para o Angkor Wat a mais imponente de todas as estruturas de Angkor, considerado o trono do Império Khmer e o edifício religioso maior do mundo. Muitas das características do maior templo religioso do mundo são únicas no conjunto dos templos de Angkor. Uma delas é a sua orientação para Oeste. O Oeste é, no universo khmer, a direcção da morte, o que levou vários estudiosos a concluir que havia sido erguido como túmulo. Esta ideia foi ainda suportada pelo facto de muitos dos seus baixos-relevos terem sido criados de forma a serem interpretados ao contrário do movimento dos ponteiros de um relógio, uma opção com antecedentes nos rituais funerários hindus. Por outro lado, o deus hindu Vishnu sempre foi também associado ao Oeste e a explicação mais aceite hoje em dia, é a de que o Angkor Wat foi inicialmente um templo e, mais tarde, o mausoléu de Suryavarman II, o décimo sexto rei do império khmer.

Atravessarmos a ponte sobre o fosso exterior e passamos para o interior de uma câmara escura. Ao sairmos, temos a visão inesperada e majestosa de três enormes torres longínquas. E pela frente, uma enorme avenida conduz ao templo central. Percorremo-la lado a lado com um grupo de monges budistas que emprestam cor ao lugar com os seus trajes cor-de-laranja e se fotografam ininterruptamente. Acabamos a conversar, apesar do seu inglês limitado que querem obviamente praticar: “Não somos khmer, somos tailandeses mas vimos a Angkor de vez em quando. Para nós é um privilégio sagrado podermos finalmente aqui rezar em paz. Durante muito tempo, corríamos risco de vida de cada vez que tentávamos.” 

Chegados ao pátio interior do templo, examinamos as galerias térreas e enfrentamos as escadarias assustadoras que dão acesso aos níveis superiores para conquistarmos acesso à vista desafogada sobre o complexo em redor.

Nessa altura, compreendemos um pouco melhor o discurso dos monges. E percebemos que a longa e dolorosa viagem partir de Ho chi Minh tinha valido toda a pena.

Do Fratricídio ao Esquecimento Forçado

Devastado pela guerra e pelo regime sanguinário de Pol Pot, o Camboja esteve mais de vinte anos fora do mapa turístico do mundo. Após o cessar-fogo e a estabilização relativa da situação política o país abriu-se, pouco a pouco, ao estrangeiro expondo aos visitantes o estado em que havia ficado: uma destruição quase total da sua escassa rede de transportes e da maior parte das infraestruturas importantes; uma população oprimida pela violência impune dos khmers vermelhos e pela corrupção generalizada de um governo vendido a todo o tipo de interesses; um território nacional repleto de minas por rebentar que impedem os camponeses de voltar a cultivar os campos e mata, ainda hoje, várias pessoas por dia.

Actualmente a situação do Camboja é ainda extremamente frágil. Em termos políticos, o país continua dividido pelos conflitos do passado: os dirigentes são vistos como tendo sido pró ou contra vietnamitas; antigos apoiantes da barbárie perpetrada pelos khmers vermelhos ou opositores.

Esta última oposição é uma verdadeira ferida aberta na sociedade cambojana. Depois das eleições de 1998, uma parte significativa dos guerrilheiros khmer deixou a selva e entregou-se às forças governamentais da recém-criada coligação que uniu as duas maiores forças políticas do país, o CPP e a FUNCINPEC.

Em 25 de Dezembro do mesmo ano, o líder da coligação, Hun Sen, foi prendado com um pedido de autorização dos principais dirigentes khmer vermelhos para também eles se entregarem ao governo.

Hun Sen fora desde sempre um defensor de um julgamento dos responsáveis pelo genocídio generalizado em que havia mergulhado o país. No entanto, inexplicavelmente, os líderes khmer vermelhos tiveram uma recepção VIP à chegada à capital e Hun Sen passou a defender a necessidade primordial de uma reconciliação nacional evitando castigar os seus antigos inimigos como a população cambojana esperava.

Esta reviravolta é ainda hoje uma causa latente de instabilidade. À medida que os membros da guerrilha khmer vermelha voltaram às suas casas, muitos deles passaram a viver lado a lado com pessoas que haviam torturado ou mutilado, ou a quem haviam assassinado brutalmente parte da família.

Todavia, o receio de que um julgamento justo das altas patentes khmer vermelhas possa assustar os restantes ex-guerrilheiros e levá-los de novo para a selva, provocando um reacendimento do conflito, tem sido um forte factor dissuasor e, assim, habituados a sofrer e calar, os cambojanos agarram-se à única opção que lhes foi dada: esquecer o que ficou para trás.

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