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Visitantes

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Um grupo diversificado de visitantes explora o topo de Masada.

Masada, Israel

O Último Baluarte Judaico

Em 73 d.C, após meses de cerco, uma legião romana constatou que os resistentes no topo de Masada se tinham suicidado. De novo judaica, esta fortaleza é agora o símbolo supremo da determinação sionista


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O teleférico ganha altitude e desvenda a vastidão inóspita e amarelada do deserto de Negev e a mancha de névoa gerada pela evaporação do Mar Morto, a leste. Tinha-nos passado pela cabeça subir a pé pelo trilho que serpenteia ao longo da encosta íngreme mas o calor de Verão aperta e desmotiva. Sobram outras paragens para o resto da tarde e até nestes cenários bíblicos e seculares o tempo corre. Alguns visitantes optaram por não resistir ao apelo e esforçam-se para acrescentar sensações à memória solene do lugar. Vemo-los, a meio do trajecto, relativamente de perto mas, à medida que a cabine se aproxima do topo, as suas figuras quase se somem contra a dimensão da meseta.

Uma plataforma semi-suspensa conduz-nos a partir da saída do teleférico e, passada uma porta escavada na rocha, entramos, por fim, no reduto elevado de Masada em que sobressai, de imediato, a bandeira azul e branca de Israel.

Inteiramo-nos da configuração do espaço e seguimos à procura das estruturas que resistiram à erosão, perdidos, aqui e ali, numa multidão internacional de forasteiros e guias que nos fazem pensar que também poderíamos estar no cimo da mítica Torre de Babel.

Até por volta de 103 a.C. – quando começou a ser fortificada - Masada não passava de um pequeno planalto com cerca de 400 metros de altitude e quase inacessível, perdido na imensidão do Negev. Mas, onde outros governantes não tinham achado nada de  interessante, Herodes, o Grande, viu um refúgio perfeito para se proteger tanto de uma eventual revolta judaica, como dos caprichos de Cleópatra que, por essa altura, lhe ansiava subtrair toda a Judeia. Diz-se que logo no seu primeiro encontro, a rainha adulterou a máxima romana Vini, Vidi, Vinci. Marco António chegou e viu mas Cleópatra conquistou-o. E, se o romano não se havia atrevido a fazer a vontade completa à amante, partes simbólicas do subdomínio de Herodes, incluindo as suas plantações reais de tâmaras e bálsamo de Jericó e Ein Gedi, tinham-lhe já sido oferecidas. Em Masada, Herodes preparou-se para futuras investidas da rainha egípcia.

O monarca reforçou as defesas da fortaleza com muralhas em casamata e torres. Adicionou ainda casernas, arsenais e armazéns e, para garantir que qualquer retiro forçado não fosse passado em desconforto, construiu também dois palácios luxuosos equipados com terraços com vista sobre o deserto e o Mar Morto, banhos termais e piscinas.

Muitas destas estruturas mantiveram-se reconhecíveis aos arqueólogos e alimentam o imaginário dos visitantes, enriquecido pelas descrições e explicações dos guias que se esforçam também por esclarecer diversas interrogações associadas, casos do complexo armazenamento e abastecimento de água, a real função do pombal e o local em que, mais tarde, os romanos viriam a aceder ao topo.

Herodes morreu de causas naturais no ano 4 a.C. e nunca chegou a usar o seu refúgio esplendoroso. Mas em 66 d.C., deu-se a primeira revolta dos judeus contra os romanos e um grupo de Sicários (zelotas extremistas que usavam sicae, punhais) proveniente de Jerusalém tomou a fortaleza às tropas imperiais que a guardavam. Foram prendados com uma reserva variada de armas e munições, matérias primas que permitiam construir mais, bem como grãos, óleos, vinho, tâmaras e hortas que forneciam alimentos frescos. Também as cisternas que recebiam as águas das chuvas se revelaram bem cheias. 

Sete anos depois, Masada estava ocupada por 960 zelotas e famílias de judeus sob o comando de Eleazar ben Yair e era usada como base para ataques planeados aos romanos.

Como quase todos os visitantes, questionamo-nos se os vários rectângulos visíveis no solo rochoso em redor da fortaleza serão vestígios de acampamentos militares romanos. E os guias resumem, pela milionésima vez, mas com entusiasmo, a resposta epopeica da história.

Durante dois anos, a guarnição foi o último foco de insubordinação judaica na região. Resistia aos ataques das legiões romanas e  humilhava os líderes ocupantes. Por essa altura, o governador general Flavius Silva assumiu ele próprio as operações militares no sul da Judeia e, determinado em pôr cobro ao insulto, liderou a marcha da Legio X Fretensis de Jerusalém para o Mar Morto. Chegado a Masada, distribuiu 8000 homens em oito campos instalados em volta da base da montanha e, recorrendo a escravos judeus, começou a aproveitar uma formação natural para instalar um rampa de terra junto à encosta hoje considerada traseira da fortaleza. Os engenheiros romanos planearam-na com uma base de 210 metros e um gradiente de 1:3. Naquele ponto, a rampa precisava de evoluir apenas cerca de 140 metros. Quando a obra ficou pronta, foi instalada contra a muralha uma torre de cerco com 28 metros. Do topo desta torre, os artilheiros romanos podiam operar os seus escorpiões e balistas, enquanto um aríete destruía a base da muralha. Cerca de um mês após a chegada de Silva a Masada e findos diversos preparativos que os zelotas acompanhavam do interior, os romanos estavam prontos para o assalto final. Mas, na manhã em que entraram na fortaleza, encontraram-na em silencio. Quando chamaram os rebeldes para o combate, depararam-se apenas com duas mulheres e cinco crianças.

Tão determinados como radicais, durante a noite, os resistentes decidiram que preferiam matar-se a ser mortos ou feitos escravos pelos romanos. Começaram por sacrificar as mulheres e crianças e, depois, todos os outros, até que ficaram apenas o comandante e mais dez homens que sortearam entre si para apurar quem mataria os restantes. Depois de o fazer, o último homem incendiou o palácio e suicidou-se. As cinco mulheres e crianças que apareceram aos romanos, esconderam-se da matança nas condutas subterrâneas de água.

A pouco e pouco, investigamos cada recanto da meseta, incluindo a zona em que a rampa dos romanos foi erguida e resistiu parcialmente à erosão. Descemos ao terraço inferior do palácio de Herodes e apreciamos a vista do deserto e do Mar Morto, sobrevoados por bandos de pequenos corvídeos. Regressamos ao topo e, ao passarmos pelo espaço que resta da velha sinagoga dos zelotas, deparamo-nos com um ritual semi-retirado de Bar Mitzvah. Uma família judaica norte-americana de férias em Israel decidira prendar os filhos realizando a cerimónia sobre a fortaleza para reforçar a sua solenidade.

Depois da redescoberta e recuperação arqueológica de 1963, mais que um lugar religioso, Masada tornou-se no símbolo supremo da determinação sionista. A história do assédio de que foram vítimas os zelotas é frequentemente usada para representar a situação do estado judaico moderno. De acordo, muitas escolas israelitas organizam visitas à fortaleza como rito de passagem para as suas crianças, algo tão importante como a aprendizagem do hebraico e da matemática. E várias unidades das Forças de Defesa de Israel (IDF) levam ali a cabo os juramentos dos seus novos recrutas, concretizados com a renovação da promessa gritada de que: “Masada não voltará a cair”. Estamos ainda no seu topo quando um rugido ensurdecedor vindo de sul se intensifica. Sem outro aviso, um esquadrão de caças israelitas sobrevoa o Deserto do Negev para o assegurar. A ameaça romana há muito que ficou para trás mas os novos judeus de Israel também se encontram cercados.

Guias: Israel+