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Caribe profundo

Caribe profundo

Vista do promontório em que se instalou a guest-house Casa Iguana.

Islas del Maiz, Nicarágua

Puro Caribe

Cenários tropicais perfeitos e a vida genuína dos habitantes são os únicos luxos disponíveis nas também chamadas Corn Islands, um arquipélago perdido nos confins centro-americanos do Mar das Caraíbas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Apanhar um autocarro num terminal de Manágua não é experiência em que se embarque de ânimo leve. A cidade respira uma atmosfera de hostilidade latente que as grades que contêm lojas e habitações e os seguranças armados de caçadeiras de canos cerrados provam poder manifestar-se a qualquer momento.

A nossa passagem pela capital confirmou-se, assim, apressada como previsto, seguida de uma travessia tão desconfortável quanto enigmática do interior do país, por estradas de terra enlameada e rios escondidos pela selva e pela neblina.

Chegamos a Bluefields, já na costa Atlântica, ao fim do dia com tempo apenas de sentir, nas ruas e num ou outro bar, o seu pulsar caribenho garifuna e reggae, pesado e arrítmico devido ao tráfego de cocaína “white lobster” que há muito agarrou a povoação. 

Na manhã seguinte, bem cedo, sobrevoamos 60 km do Mar das Caraíbas e as duas ilhas, antes de aterrarmos na maior, a Big Corn.

Instalamo-nos na Casa Blanca, uma pequena guest house familiar a funcionar numa vivenda verde e amarela de madeira, envelhecida e gasta como quase todas em redor. Sem tempo a perder, refrescamo-nos na água cristalina da praia em frente e saímos à descoberta, em duas velhas pasteleiras alugadas.

Os caminhos de terra passam junto a grupos espaçados de habitações espartanas que as tempestades tropicais e os ciclones abanam com frequência, como fez, em 1988, o Joan que derrubou a maior parte dos coqueiros e a  produção vital de copra da ilha, deixando-a dependente da pesca e de um turismo irrisório. 

É Domingo e, apesar da aparência humilde das moradias, cruzamo-nos com famílias pitorescas trajadas a rigor, a caminho das suas igrejas preferidas. Como noutras partes da Nicarágua e do Caribe, a religião sustenta a comunidade mas, ao mesmo tempo, divide-a entre as várias ramificações que se foram instalando. Pela multidão que se dirige ao seu templo, a adventista parece ter conquistado a maior parte dos fiéis mas, mesmo pouco frequentadas, as anglicanas e as baptistas, capricham nas suas cerimónias, aqui e ali, realizadas à laia de musical gospel.

Os nativos que não aderiram a nenhuma das fés, ficam-se pelos domicílios e pequenos jardins contíguos. E deixam-se embalar pelos ritmos caribenhos que chegam em onda curta do outro lado do mar enquanto vão verificando a longa cozedura de mais um almoço de arroz e feijão, quem sabe enriquecido por algum peixe frito.

A população de quase sete mil habitantes era predominantemente crioula, com mistura de sangue dos escravos africanos trazidos para as ilhas pelos ingleses, que as colonizaram até 1894, vindos de outras paragens das Caraíbas, como a Jamaica. Mas em termos étnicos, o panorama das Corn Islands complicou-se. Nos últimos anos, as ilhas atraíram do continente nicaraguense imigrantes hispânicos e miskitos (da Costa dos Mosquitos) responsáveis por o castelhano estar prestes a ultrapassar o inglês crioulo como língua mais falada. Os últimos são eles próprios, uma improvável combinação genética que, dizem vários historiadores, terá sido diversificada pela displicência marítima de um português.

Lourenço Gramalxo era um capitão de um barco negreiro que transportava escravos da Ilha de Samba, ao largo do Senegal, tendo como destino provável o Brasil. Durante a viagem transatlântica, os escravos revoltaram-se e apoderaram-se do navio. Sem qualquer conhecimentos de navegação, não evitaram que naufragasse na zona dos Cayos Miskitos. Foram primeiro aprisionados mas depois adoptados pelo povo Tawira que aceitou várias uniões dos recém-chegados com mulheres da sua tribo e os seus filhos como membros livres. 

A intrusão dos hispânicos e dos miskitos é facilmente detectável nos bares da avenida principal e da praia Pic-nic Center onde o reggae e o calypso e as cervejas nacionais, a Toña e a Vitória animam o ambiente e puxam pelas conversas fáceis dos latino-americanos.

Prendados pela bonança meteorológica, os dias vão passando, gloriosos, sob um céu azulão e afagados por uma brisa que suaviza o calor tropical. Umas poucas nuvens aventuram-se junto ao pôr-do-sol e a sua chuva cai apenas de noite, à pressa,  limpando o ar para a manhã que se anuncia.

Mas nestas coisas das viagens insulares, não se deve abusar da sorte. Após três dias, mudamo-nos de lancha para a irmã miniatura, a Little Corn island, ou la Pequeña Isla del Maíz, como preferem tratá-la os nicaraguenses continentais. 

É mais que a dimensão aquilo que distingue a Big da Little Corn. Se a primeira abriga a alma cultural e a sede laboral do arquipélago, a Little permanece à margem dos acontecimentos, num retiro perfeito que só os seus seiscentos habitantes e umas dezenas de visitantes por dia, em época alta, têm o privilégio de pisar.

Pouco depois de o fazermos pela primeira vez, tomamos o trilho que contorna a ilha e vamos descobrindo as variantes do seu litoral, ligeiramente urbanizado na costa oeste, a protegida do vento e da rebentação. E selvagem de uma forma divinal na oposta, onde o mar é quebrado por uma extensão da segunda maior barreira de coral do mundo e assume um estranho padrão listado de azuis e verdes até chegar ao areal branco e quase tocar na linha de coqueiros que lhe faz sombra.

Ao longo desse trilho e de outros que dele ramificam, cruzamo-nos com nativos que saudamos com um convencional “Hi” ou “Hello” mas, digamos o que dissermos, o cumprimento que obtemos da outra parte é sempre “OK”. Ao fim de algum tempo sem percebermos a lógica, confirmamos com um dos transeuntes a teoria que tínhamos entretanto elaborado. Que a ilha é tão pequena e tem tão poucos trilhos que os seus 600 habitantes acabam por neles se cruzar várias vezes ao dia. Para evitarem o desconforto e a chatice das constantes repetições de saudações, foram simplificando as abordagens até chegarem ao extremo de omitirem a pergunta e trocarem apenas a mais básica das respostas, “OK”.

Um declive acentuado leva-nos à propriedade da Casa Iguana, uma guest house de impacto ecológico quase nulo que se instalou junto a uma saliência elevada na costa e conquistou a melhor vista da ilha.

“É algo realmente especial, não é?” pergunta-nos Jeff, uma espécie de sócio-capataz do lugar que se mudou do Canada vasto e frígido para usufruir, por uns tempos, da beleza e do calor aconchegantes daquele cenário. “Até tenho arrepios quando aqui volto.” E continua a olhar fixamente para a floresta verdejante do interior, para a linha curva de costa delineada pelo areal e para o Caribe colorido que o encontra.

O sol precipita-se sobre o horizonte e, sem qualquer fonte de iluminação, preocupamo-nos em regressar à costa oeste antes que o escuro escondesse os caminhos. Seguimos por um atalho assinalado no croqui “oficial” da ilha e deparamo-nos com um enigmático prado tropical amarelo.

Já na povoação, paramos para assistir ao final de um torneio caseiro de voleibol, disputado sobre a areia, por adolescentes e homens aguerridos mas divertidos que, entre manchetes e remates esforçados gritam, discutem e praguejam alternadamente ou misturando o castelhano com o inglês apiratado e incompreensível da ilha.

Quinhentos metros ao lado, num bar minimal à beira-mar plantado, um grupo de visitantes escandinavos delicia-se a beber leite de cocos que Esteban, o dono hispânico e barman residente vai colhendo de um coqueiro do seu quintal com a ajuda meticulosa da esposa. Juntamo-nos ao convívio e ficamos a falar do frenesim do dia-a-dia europeu e a elogiar a vida pachorrento daquelas desconhecidas Caraíbas.