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Contemplação

Contemplação

Viajantes admiram a imponência de granito do monte Fitz Roy.

El Chalten, Argentina

Um Apelo de Granito

Duas montanhas de pedra geraram uma disputa fronteiriça entre a Argentina e o Chile.Mas estes países não são os únicos pretendentes.Há muito que os cerros Fitz Roy e Torre atraem alpinistas obstinados


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Os dias passavam e parecia confirmar-se a natureza algo epopeica da nossa última incursão pela Patagónia. Por norma, a ponte de gelo do glaciar Perito Moreno desaba de quatro em quatro anos, ou a cada meia década. Sem qualquer planeamento, chegamos à zona remota do ventisquero em pleno processo e juntamo-nos à histeria argentina que só tem fim dias depois com um frustrante ruptura nocturna a que nem a nação nem o mundo puderam assistir.

Depressa sentimos como as emoções em redor dos cenários grandiosos compensavam a frigidez da meteorologia austral. Fazendo fé no princípio, mudamo-nos para os confins norte do Parque Nacional Los Glaciares, em busca do aconchego solitário e improvável de El Chaltén.

A vila mais recente da Argentina foi erguida à pressa, em 1986, para reclamar uma vasta área indefinida circundante antes que o vizinho chileno o conseguisse. O objectivo terá sido garantido mas a controvérsia associada à partilha do território só se viria a apaziguar 12 anos depois, quando os dois países fizeram passar a linha divisória imaginária sobre o pico maior da montanha homónima - os indígenas chamaram-lhe “fumegante” no seu dialecto tehuelche.

Daí para cá, o interesse apaixonado dos viajantes e dos alpinistas na região justificou alguns investimentos mas a pseudo-povoação pouco mudou. Chegamos de uma viajem demorada e quase toda nocturna cumprida sobre uma estrada sinuosa, de rípio molhado e deslizante.   Encontramos a paragem final deserta, desarranjada, ventosa e poeirenta, como qualquer entreposto fronteiriço perdido no nada.

Mas ninguém visita El Chaltén pela sua sofisticação ou pela beleza das avenidas e monumentos. A grande atracção é, e sempre foi, a Cordilheira Fitz Roy, uma secção imponente dos Andes não tanto pelas altitudes – que pouco passam da metade do Monte Aconcágua (6962 m), o tecto da América do Sul – mas por os movimentos tectónicos e a erosão ali terem esculpido alguns dos cumes realmente excêntricos à face da Terra.

“Olhem que ou lá passam muito tempo ou vão  precisar de sorte para os ver” avisaram-nos alguns nativos agoirentos de El Calafate. “Essas montanhas só estão descobertas uns 20 ou 30 dias por ano!”

Já nos sentíamos privilegiados desde que tínhamos entrado na Argentina, vindos do Brasil. E lá arranjamos maneira de o prolongar.

São onze da noite e estamos de rastos mas uma ansiedade fotográfica incontornável obriga-nos a espreitar de novo pela janela apertada da pousada e a gelar mais uma vez as caras.

Deixamo-nos levar pela crendice e, apesar do vento furioso, interpretamos a lua enorme e o firmamento desobstruído como sinais de um amanhecer benemérito.  

Quando o dia desperta, alguns dos visitantes rogam pragas por as nuvens e a chuva se terem sumido apenas em cima da sua partida. Nós, limitamo-nos a esfregar as mãos para comemorarmos a satisfação efémera e as resgatarmos ao frio matinal. Fechamos as mochilas e fazemo-nos à floresta verde-amarelada de lengas e faias do sul.

Temos 10 horas de luz natural para caminhar mas chegamos ao pequeno promontório da Loma del Pliegue Tumbado num ápice. Dali, a visão inesperada dos pináculos graníticos do Monte Fitz Roy contra o céu azulão apanha-nos de surpresa e obriga-nos uma contemplação perplexa e demorada.

Continuamos para a base do colosso e atingimos as imediações do Glaciar Piedras Blancas. Cortamos depois para sul e, atravessamos um prado ensopado que nos conduz às margens daes Lagunas Madre e Hija para logo nos voltarmos a meter num bosque sombrio e descermos em direcção ao acampamento D’Agostini e à Laguna Torre. No fim deste derradeiro trecho íngreme, vislumbramos pela primeira vez o outro pico majestoso da cordilheira.

Considerada entre os escaladores e alpinistas a mais difícil do mundo, o Cerro Torre é o apogeu de uma sequencia decrescente de quatro montanhas: a Torre Eger, a Punta Herron e o Cerro Stanhardt. Tem 3133 m. Nada de especial, apetece concluir. Mas o seu cume projecta-se numa gigantesca agulha “afiada” de rocha salpicada de gelo, um repto a que os melhores alpinistas e escaladores não conseguem resistir e que já pôs cobro a várias vidas.

Werner Herzog, o realizador alemão obcecado em filmar a obsessão e a loucura um pouco por todo o mundo também se deixou apanhar pela magia desta montanha, pelas suas estórias e mitos.

Um enredo de ganância e mistério, em particular, inspirou “Grito de Pedra”, o seu filme de 1991, em que Donald Sutherland desempenha o papel de um produtor de TV maquiavélico, preocupado apenas com as audiências e que transmite em directo a corrida hercúlea para o topo do Cerro Torre entre um velho montanhista ermita que vive junto ao seu sopé e um jovem campeão mundial de escalada formado em ginásios e escarpas artificiais.

Trinta e dois anos antes, Cesare Maestri, Cesarino Fava (italianos) e o guia austríaco Toni Egger tentaram atingir o cume ainda vitorioso pela vertente nordeste. Suportaram ventos e nevões terríveis ao ponto de sentirem que, mais que escalar, estavam a brincar com as suas vidas. Já sob condições deploráveis, chegaram a um recanto íngreme que precede o Col of Conquest (no intervalo entre o Cerro Torre e a Torre Eger). Faltavam ainda muitas centenas de metros de paredão quase vertical. Mas, nessa altura, Fava voltou para trás e deixou o desafio entregue aos colegas mais novos.

Algum tempo depois, encontrou Maestri junto à base, moribundo e quase totalmente enterrado pela neve. Socorreu-o e, após voltarem ao acampamento, os dois contaram que Maestri e Egger tinham atingido o cume mas que o segundo havia sido arrastado por uma avalanche, durante a descida, e morrido.

A dupla depressa se viu enrodilhada nas suspeitas de fraude levantadas por Carlo Mauri (que falhara a ascensão no ano anterior) e de muitos outros montanhistas que apontaram incoerências nas descrições da ascensão e, principalmente, a inexistência de grampos, pitons e cordas para cima do ponto em que Fava desistiu da escalada. O suposto feito de Maestri e Egger acabou por ser desconsiderado pela comunidade alpinista e o Cerro Torre só seria tomado de forma não questionada 15 anos depois, em 1974.

Daí para cá, longe de diminuir, o respeito e fascínio pela montanha mais difícil de escalar reforçou-se. Alpinistas de todas as partes continuam a arriscar as vidas pela recompensa de verem o mundo do seu cimo exíguo e gelado e sobreviverem para o contar. Almas menos radicais viajam milhares de quilómetros pelo mero direito de o contemplarem com os pés bem assentes na terra. E, como nós, resistem ao seu chamamento.

Guias: Argentina+