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Alturas Tibetanas

Alturas Tibetanas

A não ser que chegue lentamente, por terra, o Planalto Tibetano é um exemplo típico de um mais que provável mal de altitude.

Mal de Altitude: não é mau. É péssimo!

Em viagem, acontece vermo-nos confrontados com a falta de tempo para explorar um lugar tão imperdível como elevado. Ditam a medicina e a experiência que não se deve arriscar subir à pressa.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Uma simplificação dos factos científicos 

À medida que a altitude aumenta, a pressão atmosférica diminui e o mesmo acontece à quantidade de oxigénio no ar. Como já todos tivemos oportunidade de reparar, o oxigénio faz-nos muita falta. A sua ausência provoca uma alteração drástica no ritmo e na intensidade da respiração. Ao mesmo tempo, origina uma disrupção do equilíbrio da água corporal no sangue face aos tecidos. O organismo sofre com a presença em grandes altitudes tenham ou não havido a habituação necessária. Sem esta habituação, o mal de altitude pode ter consequências apenas incomodativas ou até mesmo drásticas.  

Os efeitos sentem-se mais ou menos em função da altitude, da velocidade com que lá se chega. Também dependem da altitude a que a pessoa normalmente vive e de outras variáveis como a capacidade pulmonar (a alteração do ritmo e intensidade seria sempre mais bem suportada, por exemplo, por nadadores olímpicos) e outras "forças" ou fraquezas de cada organismo.

Por norma, os sintomas do mal de altitude começam a ser óbvios acima dos 2000 m e intensificam-se substancialmente acima dos 2800 m. Um viajante em boa forma física consegue habituar-se a altitudes na ordem dos 3000 m em alguns dias. Altitudes de 5000, 6000 m e superiores requerem uma aclimatização mais longa, possivelmente de semanas.

Doenças e Sintomas

Com mudanças de altitude médias - por exemplo de 3000 m - a consequência mais normal será apenas Mal da Montanha Agudo : uma dor de cabeça bastante persistente e perturbadora, com algum azar, também náuseas e até vómitos. O outro sintoma que salta à vista é a intensificação do cansaço que se torna exasperante com meros exercícios como subir uma escadaria ou um trilho de uma encosta. O exercício também faz piorar a dor de cabeça e restantes sintomas. Curiosamente, estes sintomas costumam fazer-se sentir mais nas pessoas jovens do que nas com mais idade.

O Edema Pulmonar das Alturas ocorre em casos mais extremos - quase apenas acima dos 2800 m - e com maior frequência nos homens que nas mulheres. É provocado pela acumulação de água nos pulmões e tem maior probabilidade de acontecer com o antecedente de uma constipação ou de uma simples infecção pulmonar. Pode revelar-se entre o primeiro e o quarto dia após a ascenção, com uma falta de ar mais intensa que a do mal da montanha agudo, comichão nos pulmões, tosse seca e, pouco depois, a formação de grande quantidade de expectoração que pode ser rosada e até conter sangue. Em pouco tempo, o Edema Pulmonar das Alturas pode evoluir para uma condição que coloca a vítima entre a vida e a morte.

O descalabro do mal de altitude e a causa de muitas mortes entre os montanhistas é a pior das suas consequências: o Edema Cerebral das Alturas. Pode formar-se de uma forma directa ou na sequência de mal da montanha agudo e/ou de um edema pulmonar das alturas, 1 a 4 dias após a ascenção. Gera dores de cabeça mais intensas, seguidas de alucinações e uma perda de discernimento e até dos sentidos. Estes sintomas acentuam-se com a altitude. 

Perante a suspeita de edema cerebral das alturas, qualquer montanhista deve ser imediatamente transferido para menor altitude e para um hospital.

A prática de mergulho pouco antes de qualquer ascenção agrava muito qualquer um dos males acima e os seus sintomas.

 

Para que não seja tão mau

1 - Aclimatize o tempo necessário. Alguns equipamentos simulam o ambiente hipóxico e permitem uma habituação mais antecipada.

2 - Beba muita água, evite café, álcool e qualquer outro tipo de diurético

3 - Caminhe sempre com calma e repouse sem pressas

4 - Perante a mais que provável falta de folhas de coca para mascar (são raras e ilegais) excepto para algumas comunidades de nativos dos Andes, consuma gingko biloba. Crê-se que este suplemento acelera o processo de aclimatização e reduz os sintomas do mal de altitude.

5 - Pode ainda recorrer à acetazolamida, uma substância comercializada como Diamox que tem o mesmo efeito do gingko mas, provavelmente bastante mais eficaz. Se tomar acetazolamida, beba muita água, já que se trata de um diurético.

 

Casos Pessoais, pouco extremos e sem Consequências Graves:

Subida Gradual na cordilheira Andina, Argentina

Durante uma viagem pela América do Sul, eu e a Sara alugámos carro em Salta, a 1187 m de altitude, no norte da Argentina, e explorámos grande parte da cordilheira andina. Na primeira dessas ocasiões, fomos subindo gradualmente e pernoitámos numa ou outra pousada enquanto percorríamos a famosa Ruta 40. A determinada altura, demos por nós em estradas da Puna Andina a mais de 4500 m de altitude. Uma vez que a ascenção até esta altitude foi gradual e demorou cerca de dois dias, os únicos sintomas incontornáveis que sentimos foram um enorme cansaço e respiração ofegante que demorávamos uma eternidade a regularizar de cada vez que precisávamos subir a um qualquer morro para conseguir cenários mais abertos.

Subida Rápida ao cume do Monte Mauna Kea, Big Island, Havai

Por uma questão de calendário, tínhamos o tempo contado para explorar a Big Island. Com carro alugado, conduzimos em pouco tempo de Hilo, no litoral leste da ilha (17 metros acima do nível do mar) ao desvio da Sadlle Road - Route 200 - para a derradeira estrada de acesso ao cume do monte Mauna Kea. Este desvio está a uns "meros" 2021 metros de altitude. Já o Mauna Kea é o monte mais elevado à face da Terra, apenas e só se a altitude for contada desde o fundo do mar. Como a sua base submarina se situa a 6000 m de profundidade e o cume se situa a 4203 m acima do nível do mar. A altitude "total" do Mauna Kea é, assim, de 10.203 m.

Mas, regressemos à estrada. Só nos sobrava essa tarde na Big Island para subir ao cume do Mauna Kea. As autoridades e o bom senso aconselham que nenhum visitante o faça directamente do nível do mar e, se o fizerem, para aclimatizarem o maior tempo possível a meio caminho no Onizuka Visitor Center. Quando lá chegámos, o sol tinha já descido muito mais no horizonte do que estávamos a contar. Como não estávamos dispostos a deixar o Havai sem a experiência de ascender ao cume do Mauna Kea para apreciar as vistas e a sua vasta estação astronómica, decidimos prosseguir quinze minutos depois e arcar com as consequências.

Já no cimo, a Sara não sentiu nada de especial. Eu Marco, comecei a padecer, de imediato, de uma dor de cabeça forte, tonturas e um cansaço realmente incomum. Esses sintomas duraram cerca de 40 minutos. Ou porque o meu organismo se foi adaptando rapidamente, ou, quem sabe também um pouco, porque os cenários incríveis do topo ao pôr-do-sol e crepúsculo me ajudaram a abstrair, pouco depois já só sentia cansaço. Descemos aparentemente incólumes, mas tenho que confessar que comecei a ficar seriamente preocupado com a combinação das tonturas com a dor de cabeça.

Viagem para Lhasa, Tibete

Andávamos por Chengdu, na província chinesa de Sichuan, um dos lugares de onde é hoje mais fácil chegar ao Tibete. As viagens para o Tibete estão controladas pelo governo chinês e nem sempre são possíveis. Nessa altura, eram possíveis e não sabíamos se tão cedo teríamos outra oportunidade de estar tão próximo. Alojados num tal de Mix Hotel, percebemos que lá organizavam viagens de exploração do Tibete. Durante alguns dias, esperámos por mais hóspedes interessados em formar um pequeno grupo e isso veio a acontecer. Juntaram-se a nós Jacob, um sueco e Ryan, americano. Nós e o Jacob comprámos voo de Chengdu, situada a uma altitude média de 500 m) para Lhasa, a 3650 metros. 

O Ryan estava com orçamento ainda mais apertado que o nosso. Decidiu que ia de comboio e saiu de Chengdu bem antes de nós. A viagem de comboio demorava três dias (44 horas, 3360 km). O Ryan tinha lido algures que, de comboio, os problemas com a altitude ou não se passavam ou eram mais ténues. Chegou a brincar connosco por achar que íamos gastar mais dinheiro e sofrer mais que ele.

O voo durou duas horas. Pouco depois de aterrarmos em Lhasa, enquanto procurávamos hotel com o guia que nos recebeu, já eu e o Jacob andávamos com a cabeça "feita em água". A Sara pensava que tinha mais uma vez evitado o famoso mal de altitude. Na manhã seguinte, estava como nós.

Trocámos queixas atrás de queixas e maldições por não termos preferido o comboio. Entretanto chegou o Ryan. Pelo que ele descreveu, apesar da subida progressiva de comboio, ainda estava pior que nós e, no comboio, até teve que recorrer ao oxigénio. Pelos vistos, nem a viagem ferroviária foi suficientemente lenta. É claro que não desperdiçámos a oportunidade de sermos agora nós a gozarmos com ele. 

Sempre que parávamos num bar ou restaurante de Lhasa, pedíamos invariavelmente chá de gengibre com mel. Se ajudou substancialmente ou não, é difícil de dizer. Sabemos que só nos passou completamente ao fim de dois dias de sofrimento decrescente.

Ainda percorremos uma boa parte do Tibete e chegámos ao acampamento base tibetano do monte Evereste, a 5.300 metros. Entretanto, tínhamos comprado latas de oxigénio mas os nossos organismos já se haviam habituado e só as usávamos, dentro do jipe, a simularmos emergências, na brincadeira.

Visita às obras de renovação do teleférico de Mérida, o mais elevado do Mundo, Venezuela

Aqui, em pouco mais de duas horas, subimos numa mini-cabine de transporte de carga e trabalhadores, dos 1630 metros de Mérida, para os 4.765 metros do Pico Espejo, o segundo mais elevado do país. Tivemos paragens curtas pelo meio, uma delas no refeitório dos trabalhadores, para um briefing e um pequeno snack. Algumas das pessoas da comitiva começaram logo ali a sentir sintomas e já não saíram do refeitório.

No que nos disse respeito, os problemas só começaram no último trajecto, entre a estação de Loma Redonda (4045 m) e a derradeira, já em Pico Espejo. Desta vez, eu, Marco, só senti algum cansaço e uma ligeira tontura. A Sara e várias outras pessoas tiveram que descer numa semi-emergência para receber oxigénio. Quando mediram o oxigénio no sangue da Sara, o aparelho indicava 72. Temos um medidor desses em casa e, quando o usamos, dá-nos sempre 98 ou 99. Estava a tornar-se grave mas ela recuperou pouco depois.

Nota: se quiser ler sobre situações realmente extremas de mal de altitude, recomendamos-lhe blogs de alpinistas a sério.