O relógio da torre da Main Guard da St. Ann Garrison marca as três e um quarto.
Por fim, o calor tropical começa a ceder. Uma armada de nuvens plúmbeas geradas acima do Atlântico quase caribenho anuncia-se, à distância.
Num sábado, Bridgetown tem a maior parte dos seus estabelecimentos fechados. Em comparação com o cenário normal de um dia de semana, poderíamos declarar a cidade deserta.
Excepção feita para o domínio oval, imenso e verdejante no limiar leste da sua área histórica.
Acentua-se uma confusão de veículos e pedestres para ali atraídos numa confluência de ansiedade e entusiasmo.
Aos poucos, ocupam a orla da Savannah. Instalam-se à sombra das árvores frondosas que a delimitam, diríamos mangueiras, em qualquer caso, de copas bem arredondadas.
Quando nos acercamos, confirmamos que estão prestes a realizar-se as derradeiras provas do dia do Barbados Turf Club, a organização que regula e promove as corridas de cavalos na ilha, fundada, em 1905, pelos colonos então súbditos do rei Eduardo VII.
Intensificam-se as movimentações de jóqueis, cavalos, tratadores, treinadores e, claro está, de apostadores. Cientes de que, pela tarde fora, teriam lugar várias corridas, buscamos um edifício em particular da emblemática Garrison.
Passamos para as traseiras da Main Guard.

A torre da antiga Main Guard colonial da Garrison, em Bridgetown
Percorremos umas dezenas de metros da Garrison Road, até cruzarmos a perpendicular Bush Hill Rd. Do lado de lá, damos com um jardim desafogado e composto, encerrado por uma floresta urbana das mais densas que subsistem em Bridgetown.
Tropical, como a latitude e o clima, salpicada de palmeiras e, pouco ou nada nos surpreenderia, habitada ou, pelo menos, visitada por macacos, como acontece com frequência em Barbados, onde os símios se habituaram a roubar fruta e outros petiscos aos homo sapiens incautos.
A Polémica George Washington House de Bridgetown
Passamos um café esplanada. À esquerda de um relvado rectangular, insinua-se uma mansão.
É bela e amarela, em vez de grená, branca e verde, a combinação de cores predominante nos edifícios em redor da Savannah.

A casa em que George Washington viveu, aos seus 19 anos, durante uma visita a Barbados com o seu irmão
Apontamos à recepção, animados pela relevância histórica do lugar.
“Boa tarde. Mas, disseram-vos para cá vir hoje?” responde-nos uma funcionária, visivelmente atrapalhada. “É que hoje temos uma festa privada. Não é possível visitarem, lamento.”
Em vez de nos desiludirmos, apreciamos o casarão, por fora, em volta do jardim.
Mesmo se o tema se mantem controverso, aquela mansão peculiar, adornada por um alpendre contido, persianas e telheiros tabuados verdes a protegerem janelas de guilhotina é conhecida como Casa George Washington.
Em 1751, apenas com 19 anos, o futuro presidente dos Estados Unidos viajou para Barbados com o seu meio-irmão Lawrence, na altura, tuberculoso. Nessa mesma viagem, estima-se que a única de George Washington para fora do território actual dos E.U.A., ele próprio contraiu varíola.
Teve cuidados médicos que lhe permitiram recuperar. A questão debatida está onde os recebeu exactamente. Investigadores locais e estrangeiros da história dos Founding Fathers dos Estados Unidos suscitaram dúvidas quanto a se poderia ser aquela a casa acolhedora.
Sublinham, sobretudo, a disparidade da sua arquitectura face à típica de Bridgetown, durante o século XVIII. Reforçam a inverosimilidade com a baixa probabilidade de aquela mansão ter resistido, sem danos de monta, aos furacões que fustigaram Barbados em 1780 e 1831.
Seja como for, estimamos que por benefício diplomático, a Casa Branca optou por reconhecer e louvar o monumento. Em 1997, durante uma visita oficial do ex-presidente Bill Clinton a Barbados, a ex-primeira-dama Hillary Clinton desvelou uma placa oferecida à nação barbadiana.
A placa reconhecia que George Washington ali teria, de facto, vivido. Decorridos quatro anos, a mansão foi incluída no conjunto da Bridgetown e Garrison Históricas reconhecidas pela UNESCO como Património Mundial.
Incursão à Velha e Vasta Garrison da Capital de Barbados
Instantes depois, retomamos a exploração da estranha Guarnição, em torno da Savannah, da competição e comoção equina que por lá perdurava.
Num determinado ponto, ainda próximos da Main Guard, pasmamo-nos com uma longa sequência de peças de artilharia de ferro fundido, com formas e calibres díspares e denominador comum no seu tom de chumbo gasto.

Sequência de canhões dispostos na Savannah, Garrisonn de Bridgtown
Favorecido pela humidade, um feto atrevido desponta debaixo do cano curto e largo do primeiro canhão na linha. Inusitada, a sequência depressa se prova uma mera amostra na profusão de armas de fogo portentosas disseminadas sobre o relvado e, apuramos, entretanto, um pouco por toda a ilha.
O facto de, a partir de 1705, Barbados ter servido de principal base militar britânica para as Índias Ocidentais levou a uma produção intensa de canhões e outras armas, essenciais à supremacia da Grã-Bretanha num universo caribenho híper-disputado pelas potências coloniais europeias.
De tal maneira que, umas poucas Pequenas Antilhas a norte, Antígua, os britânicos contavam com o apoio naval da Nelson’s Dockyard, uma base naval protegida pelo recorte da enseada English Harbour.
Um militar fascinado pela abundância de engenhos de guerra, o Major Michael Hartland, nascido na Índia, mas, a partir de 1980, radicado em Barbados, assumiu a criação do arsenal nacional da nação bajan.
Ao longo dos anos, a sua equipa encontrou e desenterrou mais de 400 canhões de lugares distintos da ilha: quintais, praias, caves, jardins, florestas e outros. Para cima de metade, tinham sido moldados no século XVII, o mais antigo, em 1620, o mais recente, fabricado em 1870.
Nem todos eram britânicos. Na panóplia catalogada, surgem peças holandesas, espanholas e suecas, provavelmente capturadas em batalhas contra os rivais.
Vemos os canhões apontados ao centro da Savannah, a mesma planura ervada, repleta de túneis subterrâneos secretos, em que os antigos colonos realizavam paradas militares aturadas, celebrações coreográficas e coloridas do poderio global de Sua Majestade.

Torre de observação das corridas de cavalos realizadas na Savannah
Os usos da Savannah ao Longo dos Tempos
As paradas britânicas tinham, claro está, os seus dias. Desde o século XIX que a Savannah era – como víamos ser – palco de corridas de cavalos.
Não só.
Durante algum tempo, a Savannah recebeu partidas de cricket, algumas, precoces e internacionais, como foi o caso do confronto inaugural contra a Guiana, de 1865.
Com o tempo, o recinto em que as gentes de Barbados se habituaram a apoiar a equipa multinacional das Índias Ocidentais tornou-se o Pickwick Cricket Club, actual Kensington Oval, situado no cerne histórico de Bridgetown, a menos de 1km da casa humilde em que nasceu, em 1988, Robyn Rihanna Fenty, mais conhecida como Rihanna.
O cricket libertou, assim a Savannah. Se o surgimento do Barbados Turf Club substanciou o seu uso enquanto hipódromo britânico, a Independência de Barbados limitou-se a transferi-la para uma gestão barbadiana.
Em modos muito semelhantes aos coloniais, não fosse Barbados uma das nações das Antilhas mais desenvolvidas, malgrado a ancestralidade afro-caribenha de cerca de 90% da população, mais ajustadas aos modos e trejeitos british da Commonwealth.

Jóqueis e cavalos pouco antes de nova corrida da Savannah
As Corridas de Cavalos realizadas na Savannah pelo Secular Barbados Turf Club
As corridas de cavalos prosseguem, tarde fora. Antes de cada, os treinadores fazem passear cavalos já montados por jóqueis enfiados em uniformes coloridos.
São, quase sem excepção, barbadianos ou caribenhos baixos, magros e ágeis, como há muito exige o desporto.
Cumprido o período de preparação, jóqueis e cavalos encaixam-se num portão de partida numerado de 1 a 12, identificado como do Barbados Turf Club.

Jóqueis e cavalos a postos no portão de partida da Savannah
Por essa altura, todas as apostas deram entrada.
Nas bancadas, em volta da Savannah, o público aguarda, nervoso, o desenrolar das galopadas no sentido dos ponteiros do relógio, mais ou menos longas consoante o número de furlongs (200 metros) designados para cada prova, entre os cinco e os onze.
A Sandy Lane Gold Cup, por exemplo, a competição suprema do calendário das Caraíbas, é disputada em 8.95 furlongs, 1800 metros.
Um oficial do Barbados Turf Club carrega num botão e abre as grelhas do portão de partida.
Com recurso às esporas e chicotes, os jóqueis fazem disparar os cavalos para uma disputa pelo interior da pista.

Momento de partida de uma das corridas organizadas pelo Barbados Turf Club
Apreciamos como empregam a perícia de largos anos de treino e dedicação.
Em diversos pontos da oval, enquadramos a dianteira da corrida com os edifícios grenás e brancos da Garrison em fundo, aquém do limbo arbóreo.

Jóqueis e cavalos agrupados com nuvens bem carregadas em fundo
As sucessivas voltas têm centro no Monumento da Independência de Barbados da Savannah, uma espécie de pódio redondo dotado de um relógio de sol e de um tridente negro quebrado que simboliza a emancipação do jugo britânico.
Ao sabor dos Alísios de nordeste, uma versão estampada desse tridente oscila, destacada sobre o amarelo médio da bandeira barbadiana.

Bandeira de Barbados ondula acima do centro da Savannah.
A derradeira corrida termina, com os habituais rejúbilos e desilusões.
A tarde de sábado segue o mesmo caminho. No tempo das várias galopadas, os Alísios tinham empurrado a armada de nuvens sobre a Garrison, a Savanah e Bridgetown.

Bandeireiro do Barbados Turf Club entre corridas de cavalos da Savannah
Jóqueis e cavalos retiram-se para os bastidores do hipódromo.
Nós, refugiamo-nos na esplanada coberta, próxima da casa que terá (ou não) abrigado George Washington.
Até a bátega nos conceder tréguas. E uma retirada condigna.
Como Ir
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