Continuávamos a descer das terras altas de eSwatini para a savana que, por influência dos bóers sul-africanos, o povo suazi também trata por bushveld.
Deixamos para trás a Reserva de Vida Selvagem de Mkhaya. Curta, de menos de 60km, a viagem depressa nos faz passar, numa curva alongada, por Big Bend. Cruzamos o território de cana-de-açúcar da velha Suazilândia. De novo, na iminência do grande rio que o irriga, o Usutu.
Por este nome, pouco nos dizia. Até que, com uma observação mais atenta do mapa, percebemos que se tratava do Maputo, o mesmo curso serpenteante que fluí para Moçambique e desagua na Baía de Maputo, a sul da capital moçambicana.
De Big Bend, conseguíamos avistar outro marco geográfico incomum, os montes confinantes de Libombo. No seu ponto mais alto – o monte Mananga – os Libombo ficam-se pelos 776 m de altitude.
O que de pouco têm de montes, compensam-no com excentricidade geológica. Resultaram de uma fenda vulcânica com elevação abrupta de um dos lados. Esta fenda prolongou-se de forma hiperbólica, por cerca de 800km de comprimento (norte para sul), por 100km de leste para oeste.
A fenda e os Libombo emergem no norte da África do Sul, na província de Limpopo. Separam eSwatini de Moçambique. Prosseguem de novo na África do Sul, pela província de Kwazulu Natal.
O destino que perseguíamos no seu sopé, era a antiga Reserva de Nisela, actual KaMsholo.
Foi assim baptizada pelos rangers dos Big Game Parks criados por Ted Reilly, pioneiro da conservação da Natureza em eSwatini. Msholo, foi o nome dado pelos rangers ao seu líder conservacionista. KaMsholo, por sua vez, traduz-se por “os de Msholo”.

Calau de olho em possíveis presas
A reserva ficava a oeste de uma secção em que, como o faz a norte a Reserva Natural de Malolotja. os Montes Libombo marcam a fronteira entre eSwatini e a África do Sul, Estávamos cada vez mais perto.
Detemo-nos em Matata, uma povoação repleta de lojas e um mercado de rua. Fazemos umas compras rápidas. Despedimo-nos do Usutu que, por ali, continuava para nordeste e para Moçambique.
Ao longo de dezenas de quilómetros, marca inclusive, a fronteira entre a África do Sul e Moçambique, onde, a leste se estende a Reserva imensa de Maputo.

Cabanas tradicionais no exterior do edifício principal de KaMsholo
Finda a Viagem, acolhimento em KaMsholo
Estacionamos em KaMsholo ainda não é meio-dia. Instalam-nos num chalet distante, encaixado numa floresta de acácias.
Regressamos para almoçar e ficamos à descoberta do complexo até às quatro da tarde. Por essa hora, encontramo-nos com Stew Hlongwane, um guia experiente e residente.
Stew convida-nos a subir a bordo do jipe aberto em que tinha aparecido.

Manada de palancas-negras na savana de KaMsholo
E a inaugurarmos um game drive que podia connosco ajustar.
Sugere-nos irmos ao encontro da manada de palancas negras da reserva que tinha um certo hábito de, por aquela hora, pastar junto a uma picada.
É lá que as encontramos, uma manada de algumas dezenas, tímida e que se afastou assim que nos tentámos aproximar.
Mudamo-nos para uma área distinta, pejada de acácias espinhosas e com vista bastante nítida sobre os Montes Libombos a leste.

Zebra na savana da reserva de KaMsholo, eSwatini
Passamos por umas poucas impalas, por zebras e facocheros.
Segundo Stew, estávamos a salvo de grandes predadores.
O guia desafia-nos a nos apearmos e a fazermos algo memorável. Seguimo-lo como a um qualquer profeta da savana.
Primeiro, entre zebras e antílopes.

Um cudo intrigado e de orelhas hirtas
Interacção, a Pé, com as Girafas de KaMsholo
Pouco depois, na direcção de girafas que o guia tinha detectado pelo meio e acima das acácias.
Caminhamos devagar, de olho no solo, de forma a evitarmos cobras e escorpiões. Aqui e ali, acocoramo-nos. Stew aproxima-nos das girafas tanto quanto possível.
Logo, detemo-nos, a sussurrarmos. Esperamos. Esperamos. E esperamos.
Olhamos para Stew, intrigados com o que estaria afinal a cozinhar. “Tenham paciência!” sussurra-nos de volta, com gestos que reforçavam o repto.
Continuamos a nele crer.

Duas de muitas girafas de KaMsholo, com os montes Libombo em fundo
De repente, algumas das girafas aproximam-se. Com o exemplo das pioneiras, acercam-se mais. De cabeças bem erguidas, de maneira a nos verem no meio dos arbustos.
Sem que o esperássemos, nuns meros minutos, damos com toda uma manada alinhada e a meros vinte ou trinta metros de nós. As girafas imóveis, a sondarem o que éramos, o que fazíamos, afinal, no seu território.
Stew cochicha que o sigamos. Caminhamos rebaixados, paralelos ao alinhamento da manada. Voltamos a deter-nos mais abaixo. De novo, as girafas avançam para nós, desta feita, ainda mais próximas.
Tentamos acercar-nos um pouco mais. As girafas rejeitam a abordagem, ameaçam debandar, mas nunca o chegam a fazer.

Duo de girafas cruzadas acima da savana, com os montes Libombo em fundo
Imobilizamo-nos.
Sentamo-nos mais confortáveis, a saborearmos os raios solares suavizados do fim da tarde nas faces e a sublimidade daquela estranha comunhão.
O sol põe-se.

Silhuetas de acácias durante o ocaso, a oeste dos montes Libombo
Prenda-nos com silhuetas de acácias e de algumas girafas lado a lado, até com os longos pescoços cruzados. Por fim, deixamo-las na sua paz.
Stew tinha outro plano para o fim do dia.
Piquenique Crepuscular, à beira de um Lago Ventoso
Conduz-nos savana abaixo, rumo a terras afundadas no sopé dos Montes Libombo. Quando pára, revela-nos um lago imenso que não fazíamos ideia que por ali estivesse.
A reserva de Nisela era diminuta.
Em volta, estendia-se uma imensidão rural, em boa parte, preenchida pela cana-de-açúcar que tínhamos atravessado na viagem a partir de Mkhaya.
Aquele era um reservatório pertencente à propriedade de KaMsholo que acumulava água das chuvas, escoada das alturas dos Libombo e até do rio mais próximo, o Nggwayuma.

Patos num lago artificial próximo da reserva de KaMsholo
A ideia, era jantarmos à sua beira, na companhia de uma comunidade de patos e outras aves que se reuniam para pernoitar nas suas margens.
Por azar, o fim da tarde libertou um vendaval furibundo que varreu o fundo dos Libombo.
De acordo, aceleramos o repasto, a determinada altura, já à luz de candeeiros de petróleo que dois outros trabalhadores do KaMsholo haviam acendido.

Empregados de KaMsholo asseguram luz artificial, num fim de dia ventoso
Regressamos ao quarto é noite escura, pelo território das zebras, girafas, javalis-africanos e outros em que tínhamos passado boa parte da tarde.
O dia, esse, no seu todo, já vinha do cerne da reserve de Mkhaya e de bem cedo. Dormimos de maneira a compensar a estafa. A espaços, alertados por mugidos e outros sons da fauna que nos servia de vizinhança.
Amanhecer em Comunhão com o Gado Idolatrado de Nguni
Stew vai ter connosco à esplanada de KaMsholo, onde ainda terminávamos o pequeno-almoço. Debatemos o que seria o game drive dessa manhã. O guia sugere-nos algo diferente. “Sabem o que são as vacas nguni?”
Reconhecemos que não fazíamos ideia. “São uma espécie exclusiva do sul de África, vacas importantes entre nós, suazis, já que o povo nguni é o povo original da nossa nação. Só que por causa de cruzamento de espécies, as vacas nguni estão ameaçadas de extinção.”
Muito devido à forma como Stew apresentou o caso, sentimo-nos aliciados. Partimos de imediato, em busca de Thabo, um jovem cuidador das vacas que sabia onde as encontrar.

Guias da reserva de KaMsholo examinam vacas nguni.
Thabo ocupa o lugar do pendura. Guia-nos até à manada.
Em pouco tempo, damos com dezenas de vacas com um padrão de cores inusitado, castanhas ou brancas, salpicadas da cor contrária, mais ou menos escura em zonas aleatórias do corpo, mas com o denominador comum da ponta do focinho negra.
Pareciam-nos uma obra tresloucada de Deus, sarapintadas à pressa e sem critério.
Stew e Thabo aproximam o jipe da frente da manada. Algumas vacas, sentem-se tão à vontade com o duo que vêm encostar-se e esfregar-se na grelha do jipe. Stew e Thabo levantam-se.
Analisam-nas e comentam-nas durante um bom tempo. Deixam o jipe e continuam-no entre as vacas. Até que, por fim, interrompem a sua conferência e regressam decididos a nos explicarem algo mais sobre os animais.

Gado nguni, o mais valioso do reino Suati, actual eSwatini
As vacas nguni chegaram com a tribo pastoralista homónima de zonas de África mais a norte. São vacas que preferem pastos de maior altitude, mas que, ali, se adaptaram à savana.
São, há muito, consideradas prodigiosas tanto pela sua produção de leite como pela qualidade da carne. Tornaram-se de tal forma apreciadas que, aquando dos matrimónios suazi, há quase sempre um número destas vacas incluído no dote das noivas.
Contados quase quarenta minutos, concordamos em encerrarmos o estudo. Stew deixa Thabo junto ao curral em que trabalhava.
Uma Volta Panorâmica ao Lago, na Iminência do Montes Libombo
Logo, seguimos até ao lago do dia anterior.

Jipe da reserva de KaMsholo levanta poeira do lowveld.
Contornamo-lo, na sua margem leste, já na iminência dos Montes Libombo.
Fotografamos mergulhões-serpente, águias-pesqueiras, garças e íbis.

Lago artificial nas imediações da Reserva de KaMsholo
Stew impede-nos de nos aproximarmos das margens pantanosas em que sabia habitarem grandes pitons constrictoras.
Leva-nos de volta, são e salvos, ao complexo da KaMsholo Bushveld Safaris.
De onde, pouco depois, regressamos ao vale de Ezulwini, o âmago real de eSwatini.
Como Ir
Voe para Maputo, com a TAP Air Portugal: flytap.com/. A reserva de KaMsholo dista apenas 180km, que podem ser percorridos, numa viatura alugada, em 2h30.
Onde Ficar
KaMsholo Bushveld Safaris: https://biggameparks.org
https://biggameparks.org/properties/kamsholo-bushveld-safaris-21
Email: [email protected]
Tel.: +268 76288167; +268 7677 6772: +268 2528 1000
Mais informações: thekingdomofeswatini.com