Uns derradeiros passos na direcção do abismo e desvelam-se as profundezas sinuosas do desfiladeiro do Blyde.
Complexa, em termos de cenários e ecossistemas, a nação arco-íris tem nos meandros do rio abaixo uma das suas vistas arrebatadoras.
A via serpenteante que de lá se estende para sudeste da província de Mpumalanga conquistou o título de Panorama Route.
Em boa parte, devido à imponência deste canyon com 26km de extensão.
A Visão Deslumbrante sobre o Desfiladeiro do rio Blyde
Admiramo-lo, sem pressas.
Em absoluto deslumbre.

Blyde River Canyon, no norte da província de Mpumalanga
O declive é acentuado.
Os fundos fluviais estão a quase 800 metros. A visão das falésias imediatas prova-se difícil. Incita-nos a avançarmos para rochedos ainda mais pronunciados.
Por fim, submetemo-nos a uma posição de compromisso. Vemos o desfiladeiro forrado do verde de uma vegetação arbustiva subtropical escurecida nalgumas zonas de sombra.
O caudal exibe um tom que pouco ou nada destoa.

Formação rochosa das Three Rondavels, no cimo do desfiladeiro do rio Blyde.
Destacam-se, assim, de forma reforçada, as formas circulares e o ocre rugoso dos Three Rondavels, um trio alinhado de picos também cobertos de mato e que, pela semelhança com a forma das cabanas tradicionais destas partes de África, receberam tal nome, meio inglês, meio em dialecto afrikaans.
Para trás das falésias setentrionais, apesar de alguma névoa, vislumbramos as terras planas predominantes da província, preenchidas por savana que os bóers tratam por lowveld.
Provínhamos da reserva de Kapama.
Mantínhamos o plano de regressar ao PN Kruger, um domínio imperdível da vida selvagem sul-africana.
A Panorama Route, haveria de lá nos apontar.

Cimo do desfiladeiro do rio Blyde, Mpumalanga
No sentido inverso do rio Blyde que flui para norte, até à província de Limpopo, a mais setentrional da África do Sul.
À imagem de tantos outros lugares da nação, também a nomenclatura do rio sofreu sérios percalços históricos.
O Significado do rio Blyde na História Boer da África do Sul
Baptizaram-no, em 1844, os voortrekkers (colonos pioneiros holandeses) depois de um subgrupo ter regressado de uma expedição à Baía de Maputo, então conhecida como Baía da Lagoa.
O grupo principal que os aguardava, dava-os já como perecidos e, de acordo, tinha até baptizado um outro rio próximo de onde haviam acampado de Rio do Luto.
Contra as probabilidades e expectativas, o subgrupo apareceu. Os voortrekkers decidiram baptizar o rio principal – de que aquele era afluente – de Blyde, o termo de holandês antigo para “feliz”.
Avancemos até 2005. Na sequência da presidência de Nelson Mandela (1994-99), as autoridades sul-africanas concertaram um rearranjo de dezenas de nomes de termos bóer e britânicos para outros nativos. Blyde passou para Motlatse, a expressão do dialecto sePulana para “rio que corre sempre cheio”.
Seguimo-lo, contracorrente. Nas imediações de uma povoação conhecida por Moremela, desviamos para leste. Buscamos a confluência do tal rio Treur (rio do Luto) com o Blyde.
Lá damos com ambos os rios já bastante afundados face às falésias rochosas que os contêm, naquele que é considerado o começo do Blyde River Canyon.
Os leitos de ambos estão, por ali, em função das chuvas a montante, sujeitos a enormes oscilações de caudal e de fluxo.
Há milhões de anos que redemoinhos submersos erodem a rocha polida e geram buracos cilíndricos.

Os buracos da sorte de Tim Bourke, parte da Panorama Route.
Os Bourke Luck Potholes que só Agora Geram Riqueza
De tal forma fundos e pronunciados que os conseguimos admirar, num conjunto amplo, a partir de uma ponte sobre o caudal.
Inusitado, o lugar homenageia Tom Bourke, um prospector que, no final da década de 1880, se dedicou a procurar ouro naquela zona fluvial. Bourke nada encontrou.
Além de amostras insignificantes que terão alimentado falsas esperanças e justificado a adição de “luck” a Bourke’s Luck Potholes.
A grande ironia está em que, desde há três ou quatro anos, ouro foi, de facto encontrado naquela zona esburacada do rio. Prospectores contemporâneos conhecidos na África do Sul como “zama zamas” mineram grandes áreas que lhes têm granjeado a riqueza que Bourke falhou encontrar.
Os “zama zamas” chegaram a bloquear um trilho de acesso à atracção geológica. Mesmo se providencial para as suas famílias, até há algum tempo atrás, o afluxo dos “zama zamas” continuava a afectar a ordem turística da Panorama Route.
Prosseguimo-la.

Outro salto de rio majestoso no percurso da Panorama Route, as Berlin Falls
As Quedas d’Água e Formações Rochosas Exuberantes
Entre falésias, rios e riachos, abundam também, na região, quedas d’água.
Menos de 30km a sul, deparamo-nos com as Berlin Falls, apodadas em honra de um dos grupos de mineiros alemães que viajaram da Europa, atraídos pelas sucessivas febres do ouro do norte da África do Sul.
À época, os recém-chegados geraram o costume de consagrar cada queda d’água e cascata com cidades e lugares dos países que provinham.
Das Berlin Falls, viajamos uns poucos quilómetros para oriente, na direcção de um cimo panorâmico entre falésias, com vista sobre um vale verdejante frondoso, afundado em cerca de 700 metros.
Uma Janela Divinal e a Pinnacle Rock
Diz-se que, num dia de atmosfera límpida, essa crista a que subimos permite avistar as terras do PN Kruger e até os montes de Lebombo que marcam a fronteira da África do Sul com eSwatini e com Moçambique.

A vista divinal de God’s Window, Panorama Route
Enquadrado como está, por uma geologia e natureza prodigiosa, o panorama que concede ficou conhecido como God’s Window. Ainda por ele agraciados, descemos na mesma crista.
A proeza geológica que se segue prova-se um rochedo solitário de quartzito, com 30 metros de altura.

A Pinnacle Rock da Panorama Route, Mpumalanga
Encontramo-lo destacado de um talvegue apertado e inclinado, uma vez mais envolto de vegetação subtropical.
Quando o vemos, temos poucas dúvidas de que se trata da almejada Pinnacle Rock.
Voltamos a subir pela estrada R532 que faz da coluna dorsal da Panorama Route.
A determinada altura, entramos num âmbito de nomenclaturas familiares.
Uma Lisbon Falls Rd, conduz-nos a novo desfiladeiro estreito, o do Lisbon River, outro tributário do Blyde.

Quedas d’água de Lisbon, a sul do canyon do rio Blyde.
Do nada, esse rio precipitava-se falésias abaixo, em dois saltos principais separados pela configuração da escarpa. À imagem das Berlin, estas quedas foram baptizadas em função da chegada de portugueses à zona e de uma fazenda que lá fundaram.
Com 94 metros de altura, as Lisbon Falls são as mais altas da província de Mpumalanga, mesmo assim, têm um mero décimo das quedas d’água mais altas da África do Sul, as de Tugela, que completam 934 metros de queda, 411 metros dos quais, ininterruptos.
As Mac Mac Falls e a Povoação Mineira de Pilgrim’s Rest
Sucedem-se as quedas d’água. No caminho ou próximas, existem ainda, pelo menos, as de Sabie, as Bridal-Veil, as Lone-Creek e as Mac-Mac.

A queda d’água de Mac Mac, situada na região em que se deu a primeira Febre do Ouro de Mpumalanga
Estas últimas surgem na área que acolheu a primeira das chamadas febres do outro do TransVaal.
A febre do ouro que se seguiu, teve lugar nas imediações, num tal de Pilgrim’s Creek.
Geraram a povoação mineira de Pilgrim’s Rest que visitámos na sequência, em que pernoitámos e a que dedicámos já todo o seu próprio artigo.

Casario colonial de Pilgrim’s Rest, no sul da Panorama Route
Como tal, saltamos Pilgrim’s Rest. Passamos por Mbombela, a capital da província de Mpumalanga.
Da antiga Nelspruit, continuamos para o limiar sul da Panorama Route, tido em Sudwala, lugar de umas grutas, estima-se que formadas há mais de 240 milhões de anos e com grande relevo na história recente da África do Sul.
Nos Fundos da Panorama Route, às Grutas de Sudwala
Na ladeira que lhes dá acesso, um grupo de visitantes e funcionários festejam o sábado com música em alto berros, cantorias e conversas num volume a condizer e que profana a sacralidade natural do lugar.
Entramos. Um guia conduz-nos pelas galerias desafogadas.
Mostra-nos as estruturas mais exuberantes de “Lowveld Rocket”, “Samsom’s Pillar” e “Screaming Monster”, todas formadas pela infiltração de água acídica vinda do solo acima.

Sudwala Caves, a sul de Mbombela, África do Sul
O guia introduz a questão da utilização humana das grutas como refúgio e, desde 1836, de personagens ligadas à realeza do reino Suazi, durante os permanentes confrontos pelo respectivo trono.
Também entre facções dos Suazi e os Bóer que há muito procuravam controlar o máximo de terra sul-africana possível.
Diz-se que, durante a 2ª Guerra Bóer, travada contra os Britânicos, os Bóeres esconderam, naquelas mesmas grutas, as munições dos canhões Long Tom com que fustigaram o inimigo.
Associada a Sudwala, há ainda a teoria improvada de que o ex-Presidente Paul Kruger as usou para esconder vários milhões em ouro, um tesouro que se teria sumido ali em redor, consumada a derrota Bóer no conflito contra o Império Britânico que, em 1900, obrigou Kruger a fugir para Lourenço Marques.

Casal nas Sudwala Caves,
De Sudwala, regressamos a Mbombela. Ainda nos dedicamos a explorar o PN Kruger. Dois dias depois, reentramos na sempre acolhedora Maputo.
COMO IR
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