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Caçada com Bolhas

Caçada com Bolhas

Baleias-de-bossa levam a cabo atacam um cardume em grupo.

Juneau, Alasca

Na Capital Diminuta do Grande Norte

De Junho a Agosto, Juneau desaparece por detrás dos navios de cruzeiro que atracam na sua doca-marginal. Ainda assim, é nesta cidade ínfima que se decidem os destinos do 49º estado norte-americano.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Há sempre lugar para mais um barco no Sudeste do Alasca. Isolada entre o oceano Pacífico e a imensidão da Columbia Britânica, a região surge  fragmentada por incontáveis canais e fiordes a partir dos quais se elevam as Coast Mountains, uma cordilheira litoral junto à Tongass, uma das  maiores florestas dos Estados Unidos. Esta natureza rude inviabiliza a construção de vias e, com excepção de Skagway, Hyder e Haines, as povoações locais continuam desprovidas de uma ligação rodoviária ao exterior. A via de eleição é, desta forma, o Alasca Marine Highway, uma espécie de auto-estrada marítima que tem início no longínquo porto aleuta de Unalasca/Dutch Harbour e percorre a passagem interior do «cabo de frigideira» até Bellingham ou Prince Rupert, a norte de Vancouver.

Depressa nos tornamos seus passageiros frequentes. Numa de várias viagens marinhas, embarcamos em Skagway no M/V Malaspina, com destino à capital.

Durante o Inverno, praticamente não chegam turistas e Juneau vive uma vida genuína. Os legisladores do estado entretêm-se aqui com os seus lobbies e confrontos políticos. Encontram-se, diariamente para trabalhar no Capitólio e no City Hall. Depois, por falta de espaço e de oferta, confraternizam juntos nas escassas ruas, restaurantes e bares da cidade.

De 2006 a 2009, a protagonista deste círculo foi a governadora republicana Sarah Palin. Nascida no Idaho, mudou-se com a família para o Alasca ainda muito nova e não demorou a afeiçoar-se ao estado e a Juneau onde tem uma mansão à beira da estrada pouco protegida e quase nunca habita, em detrimento da original, em Wasilla.

Mas a Republicana não se afeiçoou tanto como era de esperar. Vinte e dois anos depois de ter ficado em terceiro lugar no concurso Miss Alasca, e apenas alguns dias após ter tomado posse, Palin irritou os habitantes de Juneau ao dizer aos seus commissioners que não tinham que se mudar para a capital. A verdade é que poucos são os políticos a quem agrada a perspectiva de ficarem sitiados na capital-miniatura, condenados por uma meteorologia lúgubre e horas a fio em frente ao televisor, mas a sinceridade da governadora pecou por excesso.

Em Agosto de 2008, Sarah Palin deixou a capital do estado para fortalecer a candidatura de John McCain à Casa Branca. O resultado não foi o esperado pelos Republicanos e o objectivo da eleição presidencial gorou-se. Desde então, interessada em voos mais altos, a senhora pouco se dedicou politicamente ao Alasca. 

Mas o Verão sempre trouxe mudanças ao município. «É isto??» perguntam vezes sem conta os recém-desembarcados dos cruzeiros estivais. Juneau tem o condão de deixar incrédulos muitos dos compatriotas do Lower 48, a quem a sua dimensão exígua parece brincadeira. Sobretudo quando várias companhias de navegação estão presentes com vários dos seus enormes cruzeiros parte da cidade fica «entalada» entre as embarcações monstruosas e as lojas na base do Monte Juneau. O aperto gera o mesmo estímulo consumista que rege Skagway, mas sufoca a cidade.

Os visitantes com vistas largas e carteiras recheadas monopolizam as poucas fugas possíveis. Dos confins da S Franklin Street, um teleférico ascende ao cume do Mount Roberts, de onde desvendamos, em formato panorâmico, o casario da cidade e os paquetes contíguos. Entre a floresta densa, vê-se também o longo canal de Gastineau, transformado numa pista de aviação concorrida, tal a quantidade de hidroaviões a descolar para sobrevoar outros cenários das redondezas: montanhas nevadas, lagos, o glaciar Mendenhall e o vasto campo de gelo de que desliza. Estes últimos destacam-se como as grandes atracções naturais da região e, durante o Verão, quase não têm descanso. Sempre que a meteorologia o permite, elevam-se do aeroporto da capital helicópteros atrás de helicópteros com destino ao domínio gelado do Juneau Ice Field.

Mas não é só na rota dos visitantes estivais que Juneau se encontra. Quando os meses mais quentes se aproximam, enormes colónias de baleias de bossa e de outras espécies migram de águas mais quentes como aquelas em redor do arquipélago havaiano. Em cerca de 30 dias, percorrem quase 5000 kms para atingirem o mar frígido e repleto de krill em redor de Juneau. Com outro menu marinho em mente, seguem-nas também centenas de orcas.

Como seria de esperar, o seu avistamento tornou-se numa das actividades mais populares da região e, ao contrário do que se passa noutros lugares tão ou mais remotos, é simples e quase garantido. Percorremos toda a margem o Canal de Gastineau, passamos o glaciar de Mendenhall e a baía em diante. Embarcamos numa marina movimentada nas imediações do Lago Auke e zarpamos para as águas já desafogadas da Auke Bay. Estamos absolutamente de rastos devido a repetidas viagens nocturnas desconfortáveis mas mal temos tempo para nos lamentarmos. 

Com poucos minutos de navegação, estamos lado a lado com um bando oportunista de orcas. Pouco depois, detectamos caudas de outros destes mamíferos a afundar-se lentamente e, quando já começamos a ficar mal habituados, somos prendados com o espectáculo mor. Um grupo de baleias-de-bossa posiciona-se num quase círculo. Num ápice, produzem em redor de si as enormes bolhas que desorientam e forçam um grande número de peixes do cardume alvo a emergir. Uma vez que os peixes se encontram próximo da superfície, são as próprias baleias que emergem com as enormes bocas escancaradas, ávidas por engolirem o maior número possível de peixes e acossadas por dezenas de gaivotas famintas e destemidas. Os passageiros, meio incrédulos, rejubilam com o imediatismo daquele fenómeno, na maior parte dos casos, só aflorado em documentários televisivos.

Com os clientes satisfeitos e o tempo programado a esgotar-se, a tripulação faz o barco regressar à doca. Dali, somos levados para um almoço-piquenique de confraternização internacional.

O salmão fresco e a root beer combinavam bem no fresco concedido pela floresta de encosta em que nos encontrávamos. Mas, não tarda a sentar-se a nossa mesa um casal norte-americano chauvinista que se apressa a provocar-nos alguma indisposição. “Portugueses? Não temos muitos lá no Texas. E já decidiram em que parte dos Estados Unidos é que vão querer ficar a viver?”, pergunta-nos o marido gordalhufo e avermelhado como se mais nada, no resto do mundo, pudesse alguma vez interessar.

Abreviamos a refeição e regressamos à marginal sempre ocupada de Juneau. Faz um calor incomum para estas latitudes e só nos agasalhamos após o pôr-do-sol. Nesse, dia, por essa hora, rendemo-nos à curiosidade. Mortos por uma cerveja Alaskan Amber que já não bebíamos desde Skagway, damos entrada no Red Dog Saloon, um bar, hoje, por muitos considerado de mau gosto mas famoso inaugurado nos tempos da febre do ouro alasquense. O estabelecimento aparentemente emblemático mantém a velha fórmula da música ao vivo, hoje actualizada por DJs entertainers que, ainda ao piano mas apetrechados de muita mais tecnologia e um enorme frasco com Viagra escrito para as gorjetas, levam os espectadores sempre interventivos ao êxtase.  

“Alguém daqui é de New Orleans?”, pergunta o músico branco e careca à multidão entregue a refeições caseiras mas nem por isso saudáveis. Vou tirar o boné e já vêm porque ganhei o concurso de sósias do Louis Armstrong. Agarra numa espécie língua da sogra carnavalesca, enrouquece a voz o mais que pode e dá início a uma espécie de recital eufórico de Blues.