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Uma Cidade Perdida e Achada

Uma Cidade Perdida e Achada

A perspectiva mais famosa da cidade que os incas terão abandonado por altura da conquista hispânica do Império Inca.

Machu Picchu, Peru

A Cidade Perdida em Mistério dos Incas

Ao deambularmos por Machu Picchu, encontramos sentido nas explicações mais aceites para a sua fundação e abandono. Mas, sempre que o complexo é encerrado, as ruínas ficam entregues aos seus enigmas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Em dois dias de habituação gradual à altitude, a imponência colonial de Cusco voltara a impressionar-nos. Já os primeiros metros da Ferrovia Santa Ana destoavam o mais possível. Em vez de deslizar de forma digna e fluída, a composição soluçava. Não tardaria a deter-se e a inverter a marcha, o que repetiu por mais algumas vezes. O estranho fenómeno a que os moradores e trabalhadores do PeruRail baptizaram de "El zig-zag" permitiu ao comboio conquistar a encosta abarracada nos arredores da cidade e, pouco depois, enfrentar a descida para o vale sagrado do rio Urubamba.

Tínhamos admirado, pela primeira vez, aquelas paragens luxuriantes, nos planos épicos de abertura de “Aguirre, a Cólera dos Deuses”. No filme, um destacamento de militares e missionários liderados por Gonçalo Pizarro, apoiados por carregadores nativos, mulas e lamas serpenteia subsumido na névoa por trilhos traiçoeiros embutidos na encosta acima do leito furioso do Urubamba. Pouco depois, Pizarro rende-se às dificuldades do terreno e decreta a divisão da comitiva. Parte da que desce o rio vê-se em apuros com os seus rápidos e remoinhos.

Inspirado pelos feitos de Hernán Cortéz, Don Lope de Aguirre (representado pelo irascível Klaus Kinski que receberia, como cachet, um terço do orçamento da longa metragem) não tarda a arrebatar a liderança do grupo e a revelar a sua obsessão doentia pelo El Dorado.

Nos dias em que explorávamos a zona tropical de Ucayali, o El Dorado era, para todos os passageiros a bordo, outro. Cada minuto da viagem o tornava mais real. O comboio percorre as últimas centenas de metros entre a selva cerrada e o Urubamba. Deixa-nos na estação de Águas Calientes de onde prosseguimos, de autocarro, para as alturas intermédias (2.430m) da cordilheira andina.

Somos apenas dois de vários milhares de visitantes a ascender àquela montanha com face de velha (significado inca do termo Machu Picchu e, defendem vários adeptos, o visual subliminar do relevo).

Os nativos da zona sabiam, havia muito, da existência das ruínas. Há quem diga, aliás, que ao invés de isolada e remota, a cidadela estava acessível por distintos trilhos que a ligavam a pequenos núcleos familiares de indígenas.  Além destes, é ainda possível que, no mínimo, dois missionários britânicos, um engenheiro alemão, um seu compatriota que, em 1860, comprara terras nas imediações, bem como três exploradores de Cusco: Enrique Palma, Gabino Sánchez e Agustín Lizárraga, já conhecessem o lugar. Venham ou não alguma vez a comprovar-se os seus créditos e até os de muitos outros, foi Hiram Bingham um historiador, professor, explorador e, mais tarde, senador americano nascido no Havai quem mais se dedicou a estudar Machu Picchu e a divulgou ao Mundo. Foi ainda Bingham quem suscitou as incontáveis incursões facilitadas que a velha cidade hoje acolhe, dia após dia.

Em 24 de Julho de 1911, Melchor Arteaga, um indígena que Bingham considerou “bastante melhor que o comum” viu o forasteiro deambular nas imediações da cabana de colmo que mantinha na sua plantação de Mandor Pampa. Arteaga vendia erva, pasto e bebidas alcoólicas a quem passasse. A par do provável interesse do estrangeiro pelos vestígios históricos e ávido de ganhar algum dinheiro extra, ofereceu-se para lhe mostrar umas ruínas que conhecia a troco de meros 50 cêntimos de dólar diários. Bingham aceitou, de imediato, a proposta. No dia seguinte, sem dificuldades de maior, confrontou-se com a cidade abandonada.

O achado tê-lo-á certamente deliciado. O explorador nunca teve, no entanto, o privilégio de o admirar completamente reconstruído como o fazemos no mais absoluto assombro, após subirmos à cabana dos Vigilantes da Pedra Funerária, onde se crê que eram mumificados os nobres incas falecidos. Dali, entre lamas e alpacas altivos, apreciamos a vista clássica e mais abrangente de Machu Picchu.

É naquele ponto elevado que tentamos intuir a razão de ser de tão majestosa edificação. Sabemos que a tese mais popular a explica, com base num documento hispânico do século XVI, como um retiro de montanha dos imperadores incas Pachacutec Inca Yupanqui e Tupac Inca Yupanqui, vivos entre 1438 e 1493. Teria sido erguida por volta de 1450, no apogeu do Império Inca. Foi abandonada à sua sorte um século depois, na altura em que os conquistadores espanhóis se apoderavam dos territórios indígenas, apesar de se acreditar que nunca descobriram a localização de Machu Picchu. 

De início, Bingham anunciou tratar-se de Vilcabamba la Vieja, a última cidade de onde os derradeiros governantes incas resistiram à conquista espanhola, durante o século XVI. Mas, outros arqueólogos viriam a descobrir que essa teria sido, na realidade, Espíritu Pampa, a 130 km a oeste de Cusco.

Após aturado estudo das ruínas, de ossadas humanas e outros elementos, Bingham defendeu, então, que Machu Picchu havia surgido como uma espécie de berçário das “Virgens Incas do Sol” uma ordem santa de mulheres dedicadas ao deus Inti. No entanto, veio a provar-se que muitas das ossadas eram, afinal, masculinas.

Uma teoria alternativa do arqueólogo e antropólogo Johan Reinhardt defende que a presença da cidade num lugar tão remoto se deveu aos Incas considerarem sagrados o rio Urubamba e a paisagem em redor. Também por terem apurado que o nascer e o pôr-do-sol, nos equinócios e solstícios, quando vistos de certos pontos, se alinhavam com as montanhas de Machu Picchu que - tal como o rio - tinham grande significado religioso.

Após passarmos pelas portas do Templo do Sol, pela Praça Sagrada, pelos Templos das Três Janelas e pelo Templo Principal, investigamos a Casa do Sumo Sacerdote e subimos ao santuário Intihuatana, do qual os astrónomos incas acompanhavam os “movimentos” do sol e previam os solstícios e outras posições chave do astro.

Decidimos ascender ainda ao pico de Huayna Picchu, de onde era garantida uma vista suprema sobre as ruínas e os cenários em redor. Mesmo se a morfologia deste cume agudo assusta qualquer montanhista de ocasião, depressa percebemos que o único problema sério com que nos debatíamos era termos que o conquistar em contra-relógio por as autoridades encerrarem o trilho muito antes do complexo em geral.

Assim sendo, com as pernas num longo sobreaquecimento, chegamos ao cume em 45 minutos. Dedicamos 15 ou 20 adicionais a recuperarmos o fôlego violentado, a contemplarmos a cidadela no sopé irregular e as sucessivas faldas da cordilheira verdejante em que os Incas a encaixaram. É já após a hora limite que descemos, em óbvio excesso velocidade, pelo mesmo caminho de cabras andinas. A meio do percurso, voltamos a passar por um segmento apertado, mantido em pura vertigem entre um paredão de rocha protuberante e um abismo sem aparente fim. Ali, a Sara deixa-se intimidar. Encosta-se demasiado à falésia e tropeça numa pequena laje destacada do solo. Quando aterra, tem a face sobre o limiar entre vida e a morte e contempla o precipício sobre o vale sagrado. Quiseram o destino ou os deuses incas que o resto do seu corpo ficasse sustentado pela superfície exígua do passadiço.

Não temos sequer tempo para nos restabelecermos do susto. Sanada a mente e soprados uns pequenos arranhões, continuamos o percurso em corrida. Somos os últimos a apanhar o derradeiro autocarro mas ainda descemos sem ser em queda para junto do sempre furibundo Urubamba.

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