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Lombok

Lombok

Vista de Lombok a partir de Trawangan.

Gili Islands, Indonésia

As Ilhas que Não Passam Disso Mesmo

São tão humildes que ficaram conhecidas pelo termo bahasa que significa apenas ilhas. Apesar de discretas, as Gili tornaram-se o refúgio predilecto dos viajantes que passam por Lombok ou Bali.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A confusão estava instalada na derradeira sala do aeroporto de Mataram com os taxistas a abordarem os recém-chegados com determinação exagerada. Habituados a estas provas mas, nem por isso, imunes à irritação, retiramo-nos por alguns minutos para decidirmos qual a melhor abordagem e o preço em redor do qual estaríamos dispostos a prosseguir. Um outro passageiro faz o mesmo. Acabamos os três num recanto e o forasteiro mete conversa: “está aqui uma bela trapalhada, não é? Vão para as Gili? Olha que maravilha. Também vou para lá. Querem dividir o táxi? Sai-nos mais barato e, assim, protegemo-nos melhor da máfia de Bangsal.”

Concordamos em absoluto com o plano. Seguimos um taxista que não tirava os olhos do trio e damos início à viagem rodoviária. Pelo caminho, bem mais tranquilos, prolongamos o diálogo que Brandon tinha inaugurado e descobrimos muito mais sobre o aussie oportuno.

“Eu trabalho com ouro, diz-nos sem entrar em pormenores.” A ambiguidade da profissão deixa-nos intrigados. Perante a dupla insistência, o rapaz não vê como se esquivar: “Bom, trabalho numa mina enorme do Território do Norte australiano. Ganha-se bom dinheiro mas é desgastante. De tal maneira que só podemos operar seis meses de seguida. Este ano nem aguentei  tanto. Fiz quatro e decidi tirar umas férias para recuperar. É por isso que aqui estou. Já cá vim várias vezes. As Gili são perfeitas para levantar os ânimos!”

Chegamos à costa norte de Lombok e ao litoral de Bangsal, uma povoação conhecida entre quem viaja pela Indonésia e temida por quase todos os seus pequenos empresários turísticos tentarem enganar quem por ali passa a caminho do arquipélago ao largo.

O taxista havia prometido que nos ajudava e levou-nos directo a amigos, donos de um barco supostamente de confiança. Tudo se resolveu sem contratempos. Pouco depois, o sol estava a pôr-se. Foi com a penumbra a instalar-se que zarpámos para travessia do estreito do Mar de Bali que separa o arquipélago secundário das Gili, de Lombok. 

Se Senggigi – a cidade mais turística da ilha-mãe – alicia e concentra os visitantes endinheirados, atraídos pelos resorts luxuosos e os bares com música ao vivo que passam futebol europeu a toda a hora, Kuta, a Meca do surf do sul e, acima de tudo, as Gili são desejadas pelos remediados, com destaque óbvio para os australianos jovens que vivem logo abaixo no mapa.

Trawangan, a Air e a Meno estão rodeadas de recife de coral e de praias de areia branca com águas cristalinas onde se encontram tartarugas, mantas e uma panóplia de peixes tão folclóricos quanto algumas das decorações dos bares locais. Em nenhuma delas há estradas, carros ou motas. O mais parecido são os cidomos, carroças puxadas por pilecas. Também não existe no arquipélago qualquer autoridade. As questões que possam existir resolvem-se entre os locais ou estes e os visitantes. Até agora, o sistema tem funcionado na maior parte dos casos que, diga-se de passagem, foram escassos.

A maior das três ilhas, a Trawangan, fica-se pelos 3km de norte a sul e dois de leste a oeste. Concentra a grande fatia do alojamento e assegura festa até às tantas, apesar de não ter uma única discoteca digna desse nome.

Em comparação, as ainda mais pequenas Air e Meno, são tranquilas. Logo bem cedo, recebem as visitas dos foliões ensonados de Trawangan, temporariamente arrependidos de se terem inscrito nas saídas madrugadoras de mergulho e de snorkeling. Foi algo de que nos precavemos de forma estratégica, pelo menos no que dizia respeito à primeira manhã.

Em época alta, as Gili são reforçadas com centenas de jovens de Lombok e ilhas vizinhas do arquipélago Nusa Tenggara que vão trabalhar nos bares e restaurantes.

Num dos dois jantares que tivemos em Trawangan, assim que descobriu de onde éramos, o empregado de mesa não descansou enquanto não se lembrou todas as palavras portuguesas que enriqueciam bahasa indonesia, o dialecto malaio nacional. Depois da enunciação da “janela”, da “bandeira”, da “manteiga” e do “sapato” continuou a explicar-nos o seu interesse especial pela pátria ex-colona. “a mãe era timorense, chamava-se Adolfina. Casou com um indonésio muçulmano e, como tal, foram forçados a mudar de apelido. Tanto ele como a progenitora tiveram pena de perder o antigo apelido, Lobo.

A conversa prolongou-se para mais uma (são tão frequentes na Indonésia) rendição à selecção nacional (a nossa) e à sua nova vedeta. A verdade é que o futebol português e, principalmente Cristiano Ronaldo, conseguiram um milagre diplomático entre Portugal e a Indonésia, pelo menos, a popular. 

Mais de duas décadas volvidas sobre o massacre do Cemitério de Santa Cruz, o assunto Timor Leste ainda suscita nalguns indonésios alguma ironia maldosa. Esse ressabiamento foi, todavia, significativamente aliviado pela visita de Cristiano Ronaldo à Banda Aceh devastada pelo tsunami de 2005 onde cumprimentou o jovem Martunis (caso não se lembre, o miúdo que foi achado com a t-shirt das Quinas e trazido a Portugal para ver um jogo da selecção). Cristiano Ronaldo, a selecção portuguesa e o Real Madrid são, agora, temas bem mais discutidos entre os visitantes portugueses e os anfitriões.

Nas Gili, em particular, o desporto-rei é, todavia, o surf. Uma barreira de recife próxima duma secção da costa de Trawangan gera ondas de dimensão, por norma, mediana mas perfeitas para a prática da modalidade. Dezenas de jovens indonésios locais ou deslocados de outras partes da nação aproveitam a benesse. Dia após dia, vemo-los determinados em aperfeiçoar as suas manobras e a competir entre si e com forasteiros por um ambicionado protagonismo aquático.

Ao largo, mais e mais barcos se aproximam das Gili, repletos de adolescentes desejosos de darem entrada naquele pequeno recreio insular.