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Sem corrimão

Sem corrimão

Funcionário dirige-se para a saída do palácio Itamaraty.

Brasília, Brasil

Da Utopia à Euforia

Desde os tempos do Marquês de Pombal que se falava da transferência da capital para o interior. Hoje, a cidade quimera continua a parecer surreal mas dita as regras do desenvolvimento brasileiro.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A época seca do Planalto Central costuma ser inclemente com Brasília e a meteorologia cumpria os seus desígnios. O ar mantinha-se há já alguns dias quente e áspero, quase desprovido de humidade e misturado com uma poeira leve que feria as gargantas mais sensíveis.

“Vamos lá pessoal, com determinação mas respeito...”  alerta ao altifalante um “policial” experiente.

Nem o calor insuportável do meio da tarde demovera uma mega-manifestação da Polícia Rodoviária Federal de se formar à hora marcada junto à catedral exuberante da cidade.

Vemos o cortejo estender-se pelas principais avenidas, demorando-se propositadamente na Praça dos Três Poderes, em frente ao edifício do Congresso Nacional e junto ao Palácio do Planalto onde era crucial que as suas reivindicações de um plano de carreira e de mais vagas fossem ouvidas.

Os brasileiros procuram o seu caminho para a Ordem e o Progresso e, ao mesmo tempo, um outro protesto criativo, desta vez dos professores, estava instalado sobre o relvado adjacente ao Congresso Nacional.

Precavendo a mais que certa indisponibilidade para os  receber, os responsáveis tinham colocado dezenas de imagens dos deputados sobre cadeiras. E era aquela plateia inanimada que recebia a exigência de um “piso” salarial proferida por um representante da classe a partir de um púlpito improvisado.

São elevados os custos da interioridade da capital e, em particular, destas expressões da democracia. Chegam-se com frequência a despesas com transportes, alimentação, infra-estruturas e outros na ordem dos 2, 3, 4 e até bem mais milhões de Reais, um pouco menos de metade se convertidas para Euros. Apesar de ínfimos se comparados com o que foi gasto na construção de Brasília e com o potencial económico do Brasil, os números afectam as organizações promotoras que, os divulgam frequentemente à imprensa ao jeito de queixa adicional. 

Não foi nada que preocupasse em demasia o governo do Marquês de Pombal quando ponderou, pela primeira vez, passar a capital do império para domínios menos explorados da colónia.

À época, as riquezas mais fáceis do Brasil – ouro e diamantes, em vez do imenso petróleo actual - iam surgindo do litoral para dentro e convinha à Coroa efectivar um domínio o mais abrangente possível do território. A ideia foi debatida e disputada por várias facções com destaque para os Inconfidentes Mineiros que, conjuravam, desde há algum tempo, uma revolta separatista contra a derrama e outras formas de impostos implacáveis que levavam para a metrópole parte (1500kg de ouro anuais) da riqueza acumulada pela população abastada de Minas Gerais.  

Ironicamente, o seu lugar de eleição para a capital da nova república chamava-se São João d’El Rei. Mas o plano foi traído por um coronel que em troca viu perdoada a dívida que tinha para com a Coroa e, no mesmo ano da Revolução Francesa, os Inconfidentes foram condenados no Rio de Janeiro e aprisionados. Tiradentes, o conjurado de mais baixa posição social, seria enforcado e esquartejado como exemplo preventivo de novas revoltas.

A disposição de deslocalizar a capital permaneceu, no entanto, ao longo da história. Antes e depois da independência brasileira. Em 1891, essa mudança foi incluída na constituição republicana e, ao mesmo tempo, constituída uma Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil. Mas só muito mais tarde, em 1960, a desejada nova capital se tornaria realidade, viabilizada pela determinação politica do Presidente Juscelino Kubitschek.

Ao urbanista Lúcio Costa e ao arquitecto Óscar Niemeyer foi dada uma carta quase branca. De tal maneira que, quando o astronauta russo Yuri Gagarin visitou a nova cidade fez questão de declarar: “tenho a impressão de que estou a desembarcar num planeta diferente ...”.

É a mesma sensação que temos ainda hoje, a caminhar pelas suas avenidas largas, entre formas criadas para formar a visão dos anos sessenta do que seria uma cidade de um futuro longínquo. Uma cidade que acabou por ser a única construída no século XX a conquistar o estatuto de Património Cultural da Humanidade da UNESCO.

E, malgrado o seu aspecto de museu orgânico, Brasília depressa ganhou uma vida contrastante. O Distrito Federal foi acolhendo migrantes de todas as regiões do Brasil e até do estrangeiro de uma forma não tão harmoniosa como a esperada. Na proximidade do Eixo Monumental, das diferentes “asas” habitacionais e dos excêntricos sectores funcionais da cidade (diversões, cultura, comércio, hotéis, médico-hospitalar etc.), a população beneficiou dos empregos criados pelo estado e daqueles a estes ligados e foi prosperando. Mas, ao mesmo tempo, os municípios goianos da periferia acolheram milhares de recém-chegados extra que procuravam alternativas à pobreza das zonas que tinham abandonado. Actualmente, Brasília vai a caminho dos 3 milhões de habitantes mas, em termos sociais, é considerada a 4ª cidade mais desequilibrada do Brasil e a até recentemente, a 16a do mundo. Os números da criminalidade surgem, como era de esperar, a condizer mas pouco afectam a nata elitista dos políticos que têm o seu domicilio luxuoso na capital mas, voam sempre que podem para as grandes metrópoles históricas do litoral – leia-se São Paulo e Rio de Janeiro – onde, politica à margem, continua a desenrolar-se a “verdadeira” vida brasileira.

Para a classe média e, ainda mais para os pobres, Brasília é a cidade com que há que lidar.

Taxista a tempo inteiro, seu Zé mostra-se mais apoquentado com a praga de manifestações do que com os “passarinhos” (assim lhes chama), os radares de velocidade que as autoridades esconderam em várias árvores da avenida e acelera sempre que pode.

”Esses caras ainda me vão arruinar o fim do dia. Tenho que levar meu filho ao treino a horas, vocês sabem como é o famoso paitrocínio brasileiro...” Como não tem politico na família, a gente tenta se virar com o futebol, né ?”

Tanto a reclamação como a ambição são velhas mas Seu Zé admite: “pelo menos nas notícias internacionais desde há algum tempo que o Brasil só dá show. Vocês sabem ... tem uma das economias com crescimento mais rápido do mundo e prevê-se que se torne uma das 5 maiores já nas próximas décadas...” O motorista acaba ainda por aceitar que a carrinha hiper-moderna, quase luxuosa em que trabalha se pode considerar um fruto desta nova prosperidade.

Dentro do táxi, perdemos a noção do tempo. Entretanto a multidão de protestantes desmobiliza e, quando menos esperamos, o sol começa a pôr-se e pinta uma parede celeste laranja que parece fechar a cidade a oeste. Compõe-se ali mais um dos célebres ocasos exuberantes de Brasília e segue-se um crepúsculo rivalizável.

Na manhã seguinte, previstas várias novas manifestações e quem sabe, um ou outro escândalo dos que dão mais sentido aos jornais da nação, os deputados e senadores ocuparão os seus lugares na câmara do Congresso Nacional. E, através das suas decisões, como o faz desde a década de 70, Brasília decidirá, para bem e para o mal, o futuro do Brasil.