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Las Cuevas

Las Cuevas

Entrada da estância de neve de Las Cuevas quase sem neve.

Mendoza, Argentina

De Um Lado ao Outro dos Andes

Saída da Mendoza cidade, a ruta N7 perde-se em vinhedos, eleva-se ao sopé do Monte Aconcágua e cruza os Andes até ao Chile. Poucos trechos transfronteiriços revelam a imponência desta ascensão forçada


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Pouco a pouco, para oeste das planícies intermináveis salpicadas de adegas sofisticadas, Mendoza eleva-se ao domínio arranha-céus da cordilheira dos Andes. O minúsculo Ford Ka era o carro mais desaconselhado para nos conduzir por terras tão cruas e imponentes. Também estava listado  como mais barato e, para não variar, o factor financeiro falou mais alto. Sobrecarregamo-lo com as mochilas já gastas com que andamos e deixamos para trás a capital homónima da província.

Ladeira atrás de ladeira, o motor do pequeno utilitário ruge furibundo à medida que o forçamos em progresso na estrada RN7, a via argentina que atravessa a cordilheira em direcção ao Chile.

O rio Mendoza acompanha-nos das terras mais planas até à Cordilheira del Limite. Serpenteia por entre uma panóplia de expressões dramáticas da natureza e atravessa algumas das localidades mais pitorescas daquela Argentina desafogada. A primeira a chamar-nos a atenção é Uspallata, pronunciada Uspajata em “argentino”, um povoado que, em meados do século XV, se situava nas imediações no Camiño del Inca usado por aquele povo para cruzar os Andes.

A vila surge num vasto planalto, no geral, árido mas que acolhe um oásis de enormes alámos beneficiários de correntes de água tímidas. Junto a este cenário inesperadamente refrescante encontramos as abóbadas caiadas das curiosas Bovedas, fornos de adobe do século XVIII em que os colonos hispânicos fundiam os minerais extraídos da região incluindo, muito provavelmente, o ouro subtraído aos incas e outros povos indígenas.

Não se vê vivalma em redor. O lugar permanece entregue às cabras e vacas que devoram a erva junto ao ribeiro mais próximo e, como tal, não nos tardamos muito.

Seguimos à descoberta por uma estrada secundária erma de asfalto gasto e, vários quilómetros depois, paramos junto a um núcleo de rochas arredondadas em que uma placa identifica a presença pouco óbvia dos petroglifos do cerro Tunduqueral. Com paciência, identificamos as figuras antropomórficas, um rosto com grandes olhos, homenzitos de linhas simples, estranhas criaturas com três dedos e um outro homem, este lagarto, entre várias outras ilustrações que se crê terem sido deixadas por habitantes pré-históricos da região que esboçavam as suas primeiras crenças xamânicas .

Subimos a uma crista geológica em destaque na paisagem.  Do topo, confirmamos como não tinha fim aquele deserto pintado e apreciamos o cenário multicolorido de Western Spaghetti sul-americano. Também detectamos o cerro local das Siete Colores – estas elevações com inspiração de arco-íris abundam no país das pampas – e, já no seu sopé poeirento, aproveitamos as explicações de um professor geólogo entusiasta que forma um grupo de adolescentes interessados. 

Mesmo afastada da berma da estrada, também não demoramos a achar a ponte miniatura de pedra que cruza o rio Picheuta, o Torreão da Sentinela vizinho e os vestígios do fortim com o mesmo nome do rio onde o exército liderado pelo General San Martin triunfou, em 1770, na primeira de várias batalhas libertadoras da Argentina contra as forças da coroa espanhola. Ali se começou a concretizar a independência da Argentina e, ao mesmo tempo que forjou a nova história da América do Sul, San Martin transformou-se num herói nacional, uma espécie de Simon Bolivar do cone sul. Hoje, existem estátuas e ruas em sua honra um pouco por todo o país.

Viajamos a 2050 metros de altitude quando damos entrada em Polvaredas, uma de várias estações ferroviárias andinas que a construção da via asfaltada que ligou Mendoza a Santiago do Chile e que percorremos tornou fantasma. Nas redondezas de Punta de Vacas, vislumbramos o distante Cerro Tupungato, um vulcão com 6.500 metros de altitude.

Os panoramas revelam-se avassaladores. Predominam novos vales amplos com leitos que os caudais do degelo primaveril escavaram bem profundos, mas, naquela altura, exagerados para os rios diminuídos que os percorriam.

Em redor, como gigantescas forças de opressão, impõem-se outras das montanhas majestosas da América do Sul, que ali – mesmo se não tanto como o Cerro de Las Siete Colores - ostentam uma impressionante palete de tons, do cinza ou preto gastos aos avermelhados e ocres mais garridos.

Já ascendemos aos 2580 metros acima do nível do mar, quando surge para lá da beira do caminho a Puente del Inca, uma formação rochosa natural amarelada esculpida pela passagem da água do rio Vacas sob sedimentos ferruginosos. Em 1835, Darwin também ali se deixou intrigar. Como era seu hábito, criou desenhos da ponte e das grandes estalactites mas não pôde mimar o corpo saturado das intermináveis explorações terrestres nas agora conceituadas águas termais. As infra-estruturas de SPA mal-amanhadas que servem actualmente o lugar só surgiram no início do século XX.

Continuamos a submeter o motor urbano e débil da viatura à sua já longa tortura. Após novo esforço mecânico hercúleo alcançamos a entrada para o tecto das Américas.

Estacionamos e fazemo-nos ao trilho que conduz ao monte que lhe empresta o nome. Passamos a lagoa Horcones até que, no cimo de um pequeno morro, uma placa sugere um miradouro privilegiado e identifica a visão longínqua entre duas encostas mais próximas: Cerro Aconcágua, 6992 metros.

O trilho que prossegue na sua direcção seduz-nos. Mas ainda estamos longe do fim do trecho argentino da ruta internacional e o tempo que tínhamos estava contado. Fosse como fosse, não nos atreveríamos a desafiar aquele colosso de ânimo leve mesmo que os especialistas o considerem a montanha não técnica mais elevada do mundo, por o seu cume ser conquistável sem qualquer tipo de equipamento de escalada.

Descobertas arqueológicas surpreendentes de 1985 parecem sustentar a teoria. Nessa data, o Clube Andinista de Mendoza encontrou uma múmia Inca na vertente sudoeste, a 5300 m. Ficou assim provado que até mesmo as montanhas mais elevadas da cordilheira eram usadas para ritos funerários pré-columbinos.

Partilhado entre Argentina e Chile, o Aconcágua destaca-se das montanhas vizinhas pelo seu cume amplo coberto por um manto espesso de neve eterna que atrai alpinistas, ou andinistas - como os argentinos fazem questão de chamar – de todo o mundo. Apesar da atenção que lhe é dedicada e da altitude recordista do continente sul-americano, do hemisfério ocidental e do hemisfério sul, não está sequer entre as 400 montanhas mais elevadas do mundo, muito graças à supremacia dimensional da cordilheira dos Himalaias.

Conformados, damos por encerrada a contemplação e retornamos à linha condutora do percurso. Em vez do Aconcágua, continuamos a subir os Andes ainda e sempre pela RN7. Já na iminência do Chile, chegamos ao vale do rio Las Cuevas e à povoação deserta homónima.

A pouca neve que encontramos decora o castanho-escuro das encostas íngremes com padrões aleatórios de branco que aparenta ter passado de validade, como as construções de arquitectura nórdica moderna, adequadas àquela zona que, durante o Inverno meridional, recebe intensos nevões e muitos milhares de esquiadores e snowboarders argentinos, chilenos e de outras paragens mais longínquas que ali acorrem para se divertirem e aperfeiçoarem as suas acrobacias.

Las Cuevas confirmou-se a última marca de civilização argentina antes da aduana fronteiriça. Em breve, começaríamos a descer a vertente oeste dos Andes e a embrenharmo-nos no território chileno.

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