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Nippo-Selfie

Nippo-Selfie

Mulher fotografa-se no cenário típico de madeira de Sanmachi-Suji, o centro histórico de Takayama.

Takayama, Japão

Entre o Passado Nipónico e a Modernidade Japonesa

Em três das suas ruas, Takayama retém uma arquitectura tradicional de madeira e concentra velhas lojas e produtoras de saquê. Em redor, aproxima-se dos 100.000 habitantes e rende-se à modernidade.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Conhecemos a gerente do hotel Tanabe no ambiente aconchegante e típico daquele estabelecimento em estilo ryokan. A anfitriã recorre a um inglês muito ponderado e ainda mais pausado e apresenta-nos a sua concordância com duas polémicas teorias vocabulares de ligação entre o Japão e Portugal: “Sim, é isso mesmo que eu e muitos outros japoneses pensamos: os mercadores portugueses introduziram o arigato ao dizerem repetidamente o seu obrigado. Tal como fizeram com muitas outras palavras que nós usamos“. Pouco depois, entra em êxtase quando lhe revelamos a semelhança entre o sabon japonês e o sabão nacional para logo nos lavar o cérebro com uma canção infantil nipónica que usa e abusa do termo.

Findo o breve convívio, deixamos o hotel Tanabe. O centro histórico Sanmachi-suji está apenas a umas centenas de metros. Acabamos por o percorrer, para a frente e para trás, vezes sem conta. Esta área secular diminuta de Takayama é formada por apenas três ruas repletas de domicílios e armazéns de mercadores do período Edo, lojas vetustas, restaurantes típicos, museus e produtoras de saquê, estas, facilmente identificáveis pelas esferas de franjas de cedro penduradas à porta.

Reina, por aqui, uma arquitectura e decoração tradicionais consubstanciadas em fachadas de madeira escura, coloridas por plantas e letreiros que sinalizam os estabelecimentos ou anunciam promoções especiais e com retoques regionais apurados ao longo dos tempos pelas muitas famílias de carpinteiros e marceneiros que se crê terem participado, no século VIII, na construção do templo esplendoroso Hida Kokubun-ji de Takayama e dos seus pagodes, também do palácio imperial de Quioto e de vários outros templos de Quioto e de Nara.

Perdemos a noção do tempo enquanto  contemplamos e provamos dezenas de produtos locais, incluindo amostras de reconfortantes caldos miso, ou vemos os visitantes nipónicos investigarem e fotografarem-se junto a tudo o que lhes chama a atenção.

De quando em quando, a dinâmica fortemente turística de Sanmachi-Suji é redobrada pela passagem apressada de riquexós puxados por condutores de trajes típicos, por norma azuis. Estes rebocadores humanos também são guias e explicam - ainda a arfar do esforço empregue na locomoção - os mais íntimos segredos seculares do bairro. Os seus veículos pouco evoluíram face aos que terão sido inventados no Japão, por volta do fim do século XIX e inspiraram grande parte dos que são puxados, ainda hoje, em países asiáticos e de outras partes do mundo. Mesmo assim, garantem-lhes rendimentos sazonais mais que dignos para os padrões nipónicos.

A tarde chega ao fim e começa mais uma vez a chuviscar. O aguaceiro frígido não obsta a que, lá fora, um mensageiro medieval shobodan honre a sua missão cívica e percorra as ruas a bater dois paus um no outro para produzir um som traduzível por “cachium”, familiar entre os moradores. Ao mesmo tempo, o ancião apregoa o aviso Hi no yojin! (cuidado com o fogo) para reforçar o alerta de que devem ter cuidado com as chamas nos seus lares.

O coração de Takayama mantém-se fortemente combustível. Foi erguido, em madeira, no fim do século XVI, como toda a cidade fortificada que se desenvolveu em redor do castelo do todo-poderoso clã Kanamori. Mas, Takayama também perdurou muito tempo como capital da velha província Hida, uma região perdida no interior montanhoso do sobrelotado Japão, com estatuto oficioso que nos ocorreu compararmos ao de Lafões.

Quando a noite se instala e o frio desce dos vizinhos Alpes nipónicos, os donos e empregados das lojas apressam-se a fazer contas, a fechar e a recolher ao domicílios. As ruas depressa ficam desertas. Seguimos o fluxo habitual da cidade e regressamos ao templo-pousada Zenkoji em que havíamos dado entrada à chegada à povoação.

A porta principal estava aberta, como quase todas as das divisões interiores, que eram fusuma, que é como quem diz, nipónicas e de correr. Lá dentro, o monge Tommy tratava de arrumações na cozinha e provou-se muito mais austero do que quando o víramos pela primeira vez.

“Estão de volta?“ Pergunta-nos no inglês americanado que tinha adquirido nos anos em que vivera nos Estados Unidos. Não se esqueçam que não podem fazer barulho a partir das 22h.” relembra-nos sem grande delicadeza para logo voltar aos seus afazeres. Tommy parecia apreciar a rigidez espartana da vida budista. De regresso ao Japão, decidiu abrir o seu próprio templo e, de certa maneira, usava-o para a impingir aos hóspedes. Os forasteiros mais exigentes queixavam-se de quase tudo, com excepção, talvez, para o preço e a localização conveniente.

Os quartos, dispostos em redor de um pequeno lago interior repleto de carpas eram diminutos e húmidos. Separados por paredes de quase papel, ofereciam pouco conforto e ainda menos privacidade. Nem sequer a limpeza era feita com o habitual critério nipónico, muito provavelmente porque o sempre poupado Tommy não queria pagar a empregadas para esse serviço diário.

Foi, assim, com surpresa que demos com a cozinha aquecida e bastante mais limpa do que algumas horas antes. Permanecemos por ali umas duas horas a aproveitar o sinal de Internet que não chegava em condições a mais nenhum lugar da casa. Pouco depois, rendemo-nos ao cansaço acumulado e ao conforto limitado dos futons e dos edredons eléctricos que nunca chegamos a ligar com receio que, naquele ambiente tão húmido, nos acabassem por fritar. Pelo que percebemos, num ou outro despertar indesejado, choveu toda a noite.

Levantamo-nos ainda meio atordoados com a fadiga que sobrava e com o frio precoce. Improvisamos um pequeno-almoço rápido e saímos para a rua determinados a enfrentar um Outono nipónico ansioso e descomplexado.

Takayama acordara havia muito, com o frenesim de dois mercados matinais, o Jinya-mae, organizado junto à casa de governação (Jinya) e o Miya-gawa, este, disposto ao longo do rio homónimo que atravessava a cidade.

Agrupavam-se, em ambos, agricultores enrijecidos pela idade. De quando em quando, ofereciam aos transeuntes pequenas amostras das suas maças fuji e uvas tão deliciosas quanto dispendiosas. Controlavam de forma quase mecânica as provas repetidas e abusadoras dos gaijin (estrangeiros). Ao mesmo tempo, esquivavam-se das excursões de miúdos de escola, autênticos bandos de crianças de rapina. 

Como é de esperar em qualquer urbe japonesa, Takayama também tem os seus domínios xintoístas-budistas. Chamam-se Teramachi e Shiroyama-Koen e ocupam as colinas a leste da cidade. Pouco depois de deixarmos os mercados, apontamos para estas paragens e percorremo-las por um caminho que serpenteia entre ciprestes, templos, santuários e cemitérios vastos, num cenário de atmosfera encharcada que tem tanto de lúgubre como de sedativo. A caminhada entretêm-nos quase duas horas. Reserva-nos para o fim as passagens mais íngremes e dolorosas: as subidas até ao parque Shiroyama-koen e, já no seu interior bucólico, às pseudo-ruínas (pouco ou nada lá encontrámos) do Takayama-jo, o velho castelo feudal da era Kanamori.

No regresso ao centro, surpreendemo-nos com uma vista aberta sobre o casario pré-fabricado e anti-sísmico da cidade. Dali, não detectávamos qualquer sinal do núcleo histórico que, mesmo escondido, sabíamos resistir entre os edifícios mais altos. Retornamos à baixa de Takayama e dedicamos mais um dia à exploração do seu resiliente reduto secular.