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Pedra vs Planta

Pedra vs Planta

Colónia de aloés excelsa altivos na encosta do Grande Cercado.

 

Grande Zimbabwe

Grande Zimbabwe, Mistério sem Fim

Entre os séculos XI e XIV, povos Bantu ergueram aquela que se tornou a maior cidade medieval da África sub-saariana. De 1500 em diante, à passagem dos primeiros exploradores portugueses chegados de Moçambique, a cidade estava já em declínio. As suas ruínas que inspiraram o nome da actual nação zimbabweana encerram inúmeras questões por responder.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Cada civilização dá no que dá. Há muito que a do Zimbabwé já teve melhores dias.

Despertamos em Masvingo entusiasmados por cumprirmos um sonho de há vários anos. O motorista do Stalion Hotel diz-nos que é suposto irmos buscar uma guia da ZTA, a autoridade de turismo nacional. À hora a que saímos, não havia pequeno-almoço no hotel. Aproveitamos o facto de os escritórios locais da ZTA serem ao lado de um supermercado para superarmos o caos absoluto em que a economia do país andava, fazermos umas compras e quebrarmos o jejum. Chegamos à caixa. Uma vez mais, não nos aceitam as notas de dólares americanos com que queremos pagar. São anteriores a 2009 e há uma epidemia desse numerário falsificado. As notas mais antigas são as mais copiadas.

Pagamos com euros e recebemos parte do troco em dólares, outra parte em bonds, uma artimanha financeira com que o governo de Harare procurava conter a inflação cada vez mais atroz. Tão complicadas se revelaram as compras que, quando saímos para o parque de estacionamento, já o motorista e Dani nos esperavam há dez minutos. Apresentamo-nos à jovem anfitriã, instalamo-nos no banco de trás. Seguimos, na galhofa, para sul, na direcção do lago Mutirikwi e do Great Zimbabwe National Monument, um dos monumentos mais considerados no Zimbabwe. O lugar mágico e enigmático inspirador do nome da nação independente, há demasiado tempo problemática, que emergiu após a sangrenta Bush War, a guerra civil que, de 1964 a 1979, opôs dois movimentos de libertação (mais tarde também eles rivais) ao governo branco opressor da Rodésia.

Desviamos da estrada principal para uma viela cercada de árvores bem mais amplas e verdejantes que a vegetação da savana de encosta em redor. Dani, conduz-nos ao edifício de acolhimento. Lá nos espera Philip o jovem guia residente do complexo. Philip e Dani já se conheciam havia algum tempo. À boa maneira da etnia xona e do sul de África em geral, Philip inaugura de imediato uma intensa sessão de piropo e galanteio a Dani que só terminaria com o fim da visita.

O anfitrião lidera o caminho. Conduz-nos por um trilho íngreme que, por vezes enfiado entre enormes rochedos granitícos polidos, conduzia ao cimo do complexo da colina, um dos conjuntos arquitectónicos do monumento. Pouco habituada a caminhadas, Nadia arfa e reclama da aspereza do percurso. Quando é altura de subirmos ao topo vertiginoso da fortaleza, teima em ficar à espera na sua base.

Não tardamos a perceber que a vista privilegiada compensava todo e qualquer esforço da ascensão, não tarda, tornada escalada.

Abaixo, espraiava-se o sulco mais profundo de um vale. Para diante, uma encosta verdejante salpicada por grandes calhaus. No sopé já algo inclinado dessa encosta, destacava-se o fulcro de uma velha fortaleza arredondada, cercada por vestígios do que terão sido muros exteriores, em tempos mais elevados, agora adornados por acácias e por uma colónia de aloés excelsa altivos.

Philip transmite-nos algumas das inúmeras explicações históricas de que carecíamos. Quando detecta a primeira das nossas sucessivas pausas para fotografia, intercala o seu discurso com novos cortejos a Dani que permanecia no sopé dos grandes rochedos que tínhamos conquistado, a dar ao dedo no seu smartphone.

Como o nome indicava, o Grande Zimbabwe era o maior de vários zimbabwes (complexos de ruínas) disseminados por aquela imensidão do planalto sul-africano. Não só era o maior como continua a ser considerado a maior das cidades medievais de toda a África sub-saariana, com muralhas que chegavam aos 11 metros de altura, com 250 de extensão, compostas apenas por pedras trabalhadas e empilhadas, sem qualquer argamassa. Apesar da sua impressionante dimensão e do óbvio poder e influência da civilização que a construiu, a sua origem e autoria permanece objecto de acesa polémica. O facto de o povo que a ergueu não usar comunicação escrita fez com que nunca tenham sido encontrados testemunhos ou registos gráficos. Aqueles que existem, datam de a partir do século XV, como os deixados pelos exploradores portugueses que começaram a aventurar-se àquelas partes, oriundos da vizinha colónia lusa de Moçambique.

Crê-se que Grande Zimbabwe foi erguido ao longo dos anos entre os séculos XI e XV pelos ascendentes Gokomere (bantus) da civilização xona (Zimbabwe: dzimba = casas e mabwe = pedras é, aliás, um termo xona), a etnia predominante na actual nação zimbabweana. A determinada altura, a cidade ocupou uma área em redor de 80 hectares. Assumiu uma dimensão e importância de tal forma impressionantes que, durante a Idade Média, se tornou notória em África, em redor do Mar Vermelho - de onde chegavam mercadores árabes - e, mais, também entre os exploradores europeus. Escavações arqueológicas lá revelaram ouro e moedas e Kilwa, um sultanato nas imediações de Zanzibar. Também contas e porcelanas da China.

A explicação mais propagada para a emergência de Grande Zimbabwe centra-se na abundância de ouro e marfim na região, que terá justificado o engrandecimento do reino detentor daquelas paragens, a construção de um trono-fortaleza à altura da realeza e da protecção dos filões que a enriqueciam.

No seu zénite, habitaram-na quase 20.000 habitantes, os mais humildes alojados em palhotas cónicas com telhados de colmo. Depois de um bom tempo a vasculharmos os pormenores da acrópole do complexo da colina, o mais antigo, regressamos à sua base. Logo, tomamos o trilho que conduzia ao complexo do vale que tínhamos apreciado à distância e, na sequência, ao elíptico Grande Cercado. Aproximamo-nos da colónia de aloés e das suas rivais eufórbias (muhondes, em dialecto xona), ambas disseminadas numa área de muralhas preambulares arredondadas mas desgastadas pelo tempo e que agora mais parecem canteiros. Alguns metros acima, deslumbramo-nos com a imponência sobranceira da grande muralha. As copas de algumas Mimusops zeyheri ancestrais parecem espreitar-nos do cimo da cerca de pedra que, em parte, foi tingida de amarelado por uma floresta densa de líquenes oportunistas. Philip aproxima-se de um muro externo quase raro. A sua humana pequenez ajuda-nos a valorizar a herança civilizacional que tínhamos a fortuna de apreciar. Não tardamos a passar para o interior.

O Grande Cercado terá sido erguido durante o século XIV em blocos de granito. Protegia uma série de alojamentos familiares de famílias mais próximas da realeza. As suas cabanas eram feitas de tijolos de areia granítica e argila.  Partilhavam uma área comunal e uma ligação para uma passagem exígua que conduzia a uma torre cónica de dez metros encostada à muralha, ainda hoje à sombra das enormes árvores que ali despontam. Não se sabe ao certo, qual terá sido a sua função. As duas teorias mais populares são bastante discrepantes. Uma defende ter sido um reservatório de grãos. A outra, um símbolo fálico.

Nos tempos de glória da povoação, os restantes súbditos residiam no vale contíguo. Criavam gado, cultivavam cereais e tubérculos. Levavam a cabo o comércio do ouro com mercadores que chegavam sobretudo do litoral do oceano Índico.

Philip comunica-nos que, foram achadas em áreas próximas oito esculturas em pedra-sabão, assentes em colunas, que retratavam figuras que combinavam aves com feições humanas – lábios em vez de bicos e pés com cinco dedos. Seriam símbolos de poder real. De acordo, após a independência de Abril de 1980, foram adoptadas como símbolo da nova nação zimbabweana.

Mas, tal como emergiu, o Grande Zimbabwe desvaneceu-se. No início do século XVI, os exploradores portugueses começaram a aventurar-se para o interior de Moçambique em busca de riquezas. As narrativas de abundância de ouro levaram-nos às paragens da velha cidade. Em 1506, Diogo de Alcáçova chegou a descrever o lugar numa carta que enviou ao rei Dom Manuel como integrante de um tal reino de Ucalanga.

Em 1531, Vicente Pegado, capitão da guarnição de Sofala, já descreveu o lugar já como um legado ao tempo. Crê-se que, por volta de 1450, Grande Zimbabwe estaria já abandonada. A falta de registos escritos do antecedentes do povo xona, faz com que não se saiba, com certeza, a razão. Contam-se, entre as explicações mais fidedignas, o facto de o ouro das minas se ter esgotado e levado a um declínio acentuado na relevância do lugar em que, em simultâneo, a abundante população se terá visto também em sérias dificuldades para obter alimento na região em redor, cada vez mais deflorestada. Sabe-se que quando a situação se tornou realmente grave, um emissário, Nyatsimba Mutota, foi enviado ao norte em busca de fontes de sal que preservasse a carne. O abandono urgente de Grande Zimbabwe, terá favorecido Khami, um estado rival e concorrente, hoje ruínas do género de Grande Zimbabwe ainda que sem a sua magnificência.

Mais tarde, o historiador português João de Barros, referiu-se a um tal de império Mutapa que sucedeu ao de Zimbabwe, com capital num lugar distinto em que não existiam as pedras que viabilizaram a construção de Grande Zimbabwe.

Como sempre acontece nestes casos, quantos mais cientistas, estudiosos e saqueadores de tesouros chegam, mais teorias e certezas vêm ao de cima. Em 1871, Karl Mauch, um explorador e cartógrafo alemão viu pela primeira vez as ruínas. Não esperou muito para as associar ao Rei Salomão e à Rainha de Sabá, como haviam já feito outros estudiosos como o escritor português João dos Santos. Essa interpretação disseminou-se entre a comunidade branca de colonos em África. Inaugurou uma série de outras. Patrocinado por Cecil Rhodes, o determinado e egocêntrico mentor da Rodésia, J. Theodore Bent passou uma temporada nas ruínas, após o que publicou  “The Ruined Cities of Mashonaland”. Nesta sua obra, defendia que a cidade fora erguida ou pelos Fenícios ou pelos Árabes. Instigou o preconceito do governo (e da população) racista e pró-apartheid rodesiana de que nunca poderiam ter sido construídas por povos negros.

As autoridades do Zimbabwe sempre rejeitaram estas postulações - e outras similares - que procuraram retirar o crédito de tão marcante civilização aos seus antecessores. Como forma de animar o lugar e de ilustrar o passado xona, mantêm uma réplica de aldeia xona que encontramos a pouca distância a norte do Grande Cercado. Os seus habitantes mostram-nos o prolífico artesanato da comunidade. E exibem-nos danças tradicionais com o empenho possível, tendo em conta que o fazem de sol a sol, sempre que novos forasteiros por ali passam. Assistimos ao espectáculo com o interesse que nos mereciam nem que fosse pela sua provável descendência dos autores do Grande Zimbabwe. Em seguida, despedimo-nos de Philip. Deixamo-lo entregue à rotina de aguardar por visitantes a quem oferecer os seus serviços. E, às ruínas, às muitas incertezas da história zimbabweana por esclarecer.

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