Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Um céu em fogo

Um céu em fogo

Aves esvoaçam num céu tingido pelos tons fortes do ocaso, em mais um fim de dia africano.

Delta do Okavango, Botswana

Nem Todos os Rios Chegam ao Mar

Terceiro rio mais longo do sul de África, o Okavango nasce no planalto angolano do Bié e percorre 1600km para sudeste. Perde-se no deserto do Kalahari onde irriga um pantanal deslumbrante repleto de vida selvagem.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira (fotos)


O voo com partida da região do Savuti que a BBC tornou conhecida pelos  documentários sobre os seus leões comedores de elefantes só durou 35 minutos. Foi o suficiente para nos revelar a imensidão árida do Kalahari, salpicada de arbustos espinhosos e sulcada por longas estradas sinuosas de terra mais arenosa que batida. Da altitude a que viajávamos, percebíamos em modo geológico e panorâmico, a importância que água tinha para aquela região e tanto a sua presença como a sua ausência. À imagem do caudal do rio Solimões que corre lado a lado com o do Amazonas quilómetros a fio incompatibilizados devido às suas distintas composições e densidades, vistas do ar, também extensões imensas da superfície terrestre ali se opunham com diferentes graus de humidade: verde-amarelado contra um acastanhado aparentemente mais poeirento definiam quantidades discrepantes de água subterrânea.

De quando em quando, fosse em que tipo de mancha de solo fosse, avistávamos manadas longínquas de elefantes que bebiam e chafurdavam em charcos perdidos no nada. Eram estes os postos de abastecimento que permitiam aos paquidermes e a outras espécies sobreviver à longa migração para sudoeste, onde se escondia um domínio bem mais verdejante, abastecido pelo rio Okavango.

Quando nasce no município Tchikala-Tchohanga do Huambo, o Okavango é chamado de Cubango. Dali, flui para sudeste através das províncias do Bié, de Huila e de Cuando-Cubango, logo, da faixa namibiana de Caprivi.

O rio acelera o seu curso nas cascatas de Popa antes de entrar no noroeste do Botswana. Nas imediações de uma aldeia de nome Shakawe, as suas águas começam a espalhar-se e são retidas pelas areias do deserto do Kalahari e pelo ar seco acima. Nesta ampla dispersão conta-se 95% da água doce do Botswana.

Enquanto a avioneta se fazia à pista de aterragem desvendámos meandros caprichosos, desenhados em vegetação relativamente baixa. Aterrámos na suavidade vegetal de uma pista relvada da Reserva Animal de Moremi, a única secção do Delta do Okavango oficialmente delimitada em 1963 para permitir a preservação da vida selvagem que a caça ilegal então fazia declinar a forte ritmo.

Somos recebidos com palavras suaves de boas-vindas por rangers nativos que nos conduzem a um pontão do aeródromo. Subimos a bordo de um pequeno barco metálico com tecto de lona e zarpamos em direcção à lagoa de Xugana.

A viagem pouco fica a dever às melhores cenas de acção dos clássicos jamesbondianos, com o devido desconto para a ausência dos tiroteios e explosões. Durante quarenta minutos, serpenteamos a alta velocidade, por canais com água ocre ou cor-de-champanhe delimitados por papiros às vezes com bem mais de dois metros de altura. Estes canais alargam e estreitam de forma mais ou menos aleatória. Aqui e ali, apertam tanto que as canas invadem os barcos e nos ameaçam com fortes estaladas vegetais.

Na sua imensidão, o delta revela visuais contrastantes. Grandes áreas de terra seca, surgem do meio de zonas encharcadas sem fim. Em quase 16.000 km2, abriga diversos habitats. São florestas de mopane e arbustos espinhosos, savana seca, pastos, planícies alagadas e um labirinto de pântanos, de canais e de enormes lagoas que visto do espaço aparenta uma pegada de ave. O papiro é um das duas espécies vegetais que predominam nos pântanos perenes do delta e fornecem registos muito úteis das suas oscilações. A outra espécie é palmeira Fénix ou anã que se destaca nas muitas ilhas da região.

Quando menos esperamos, os canais desembocam de novo nas tais lagoas desafogadas, em parte, cobertas de nenúfares e partilhadas por trinta e cinco milhões de peixes de oitenta espécies, por crocodilos do Nilo, hipopótamos, marabus, mergulhões, íbizes e uma miríade de outros répteis e aves. Os crocodilos e os hipopótamos são os reis e senhores do delta. De tal forma perigosos que os Bayei – um dos cinco grupos étnicos que habitam o delta - ensinam um poema preventivo às suas crianças: “Eu sou o rio. A minha superfície dá-nos vida. Por debaixo, está a morte.”

A impressionante liquidez luxuriante do cenário é alimentada de uma forma pouco palpável ou localizada. O tempo pode manter-se seco no delta durante meses. No entanto, em simultâneo, chuvas intensas nas terras altas ( 1780m ) do Planalto do Bié - a mais de 800 km de distância - geram uma espécie de enxurrada em câmara lenta.

A superfície destas paragens interiores de África é tão plana que a inundação pode levar mais de três meses a sentir-se nestas partes do Botswana. A estes, há que contar com quatro meses adicionais para que atravesse os 240 km de extensão do delta.

Ao chegar às imediações de Shakawe, o Delta aumenta substancialmente. A partir daí, a enxurrada vagarosa move-se em várias frentes, pelos seis dedos da pata que os satélites registam. Os habitats mais profundos e diversos residem na “perna” de quase 100 km em que a inundação atinge o seu pico em Abril e faz aumentar o nível do rio em quase dois metros. Em Maio, a profundidade começa a diminuir.

Terá sido o explorador e missionário escocês David Livingstone o primeiro europeu a dar com o delta, em 1849, numa altura em que o seu caudal fluía de forma bem diferente da de hoje ainda que igualmente misteriosa. “A água não pode correr para trás ou para cima” retorquiu Livingstone, ao companheiro de descobertas dessa altura, o naturalista sueco Charles Andersson. Ambos estavam abismados com os canais que ora fluíam a grande velocidade ora paravam de fluir ou chegavam a inverter o seu sentido.

Livingstone pediu a nativos Bayei para lhe explicarem o fenómeno. Estes contaram-lhe o que sabiam: todos os anos um chefe do norte do seu território, de nome Mazzekiva matava um homem e atirava o seu corpo ao rio. Depois disso, a água corria para sul. É improvável que o aventureiro se tenha conformado com tal esclarecimento.

Livingstone abriu caminho para uma catadupa de visitantes que, a partir da segunda metade do século XX, se deslumbraram com um dos cenários mais fascinantes de a África, entretanto protegido pelas normas da Convenção de Ramsar que salvaguardam a preservação dos pantanais do mundo. Mesmo se a origem e parte substancial do Okavango está em Angola e na Namíbia onde não usufrui dos mesmos cuidados, o Botswana só beneficiou.

Nesta jovem nação, apenas as prolíficas reservas de diamantes garantem mais divisas estrangeiras que o turismo no Delta do Okavango. O proveito deste último recurso tem origem nas licenças de operação e taxação de eco-lodges sofisticados e dispendiosos instalados em lugares estratégicos, vários, geridos por proprietários sul-africanos, mais experientes no ofício.

O Xugana em que nos instalamos era um deles. Camuflado por vegetação densa, culminada por árvores majestosas, tinha, entre outros, o dom da absoluta simbiose com a natureza circundante. Pulavam, nadavam, arrastavam-se e esvoaçavam, por lá, esquilos e uma miríade de pássaros e insectos coloridos, répteis e anfíbios. Como é frequente no Botswana e noutros lodges que ficaram para trás, o Xugana mantinha-se aberto à fauna local. De noite, para gáudio dos hóspedes mais entusiasmados com o realismo da Natureza da zona, visitam-no espécies de maior porte, incluindo os elusivos leopardos. 

Já instalados, descansamos até por volta das quatro da tarde. Estava previsto, na manhã seguinte, mudarmo-nos para outro lodge chamado Moremi. Nesse fim de dia, ainda voltamos a sair de barco para o delta, com o objectivo de explorar os cenários e a fauna de outras das suas ilhas, também de mokoro, a canoa tradicional da região, feita de um único tronco escavado.

Mas as mokoro eram demasiado estreitas e instáveis. Tendo em conta que dificilmente conseguiríamos resistir a fotografar de pé, representavam sério um risco para as câmaras que transportávamos. Optámos, assim, por começar de fora e avaliar e registar primeiro a acção a partir da margem. Quando nos separamos do resto da comitiva, um dos guias deixou-nos apenas com um conselho: “Se algum animal aparecer, saltem logo para a caixa da carrinha.”

Sós, face à vastidão do delta, sentimos como nunca a imponência esmagadora de África. As nuvens azuis e lilases que descarregavam à distância, as acácias gigantescas que se destacavam contra o céu pesado e o vento que siflava através da floresta de papiros impunham-nos uma desagradável sensação de vulnerabilidade.

Além dos hipopótamos e crocodilos que sabíamos ser mais raro atacarem longe das margens ensopadas, o Delta do Okavango acolhe uma população generosa dos mais capazes predadores terrestres. Leões, chitas, leopardos, hienas e mabecos eram apenas alguma das espécies de que teríamos, em vão, que nos defender caso algo corresse mal. Não necessariamente ali, mas em redor, percorriam-no ainda cerca de 60.000 elefantes - uma das maiores manadas do mundo - e milhares de búfalos irascíveis.

Sobrevivemos à espera solitária, ao percurso de mokoro entre hipopótamos e crocodilos furtivos. No regresso, fomos prendados com um pôr-do-sol esplendoroso, rasgado por centenas de aves e acompanhado, no horizonte, por uma mancha cinzenta e granulada, desenhada pela queda da pula, a chuva do Botswana, malgrado a abundância de água no delta, tão valiosa que também denomina a moeda nacional da nação.

ACOMPANHE-NOS NO "DESTINO IMPROVÁVEL", ÀS SEXTAS, NAS REVISTAS TABU E CAJU (ANGOLA) DO JORNAL SOL.

Guias: Botswana+