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Debate ao molho

Debate ao molho

Monges aglomerados confrontam um colega que propõe uma premissa polémica.

Lhasa, Tibete

O Mosteiro da Sagrada Discussão

Em poucos lugares do mundo se usa um dialecto com tanta veemência como no mosteiro de Sera. Ali, centenas de monges travam, em tibetano, debates intensos e estridentes sobre os ensinamentos de Buda.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Estamos no pico do Inverno e não há um pingo de nuvem no céu azulão sobre Lhasa ou a maior parte do Planalto Tibetano. Lobsang, o anfitrião indígena destacado pela agência de viagens chinesa diz-nos que chegámos na época mais genuína possível, que não devem estar sequer 20 estrangeiros em todo o Tibete.

Depressa percebemos que se sente contrariado por ter que trabalhar para o invasor. Desde que chegámos que faz questão de atalhar ao mínimo possível o tempo que nos dedica. Essa manhã, solarenga mas gélida, como se provaria cada uma das seguintes, não seria excepção.

“Mas querem mesmo ir ao Sera?”, tenta enrolar-nos, ainda atordoado do convívio alcoolizado da noite anterior. “Já visitaram tantos mosteiros aqui em Lhasa. O Sera é só mais um. A arquitectura é igual à dos outros e o que lá vão ver pouca diferença fará para o que encontraram nos anteriores, garanto-vos.”

Por sorte, tínhamos lido sobre o lugar e sabíamos bem o que o tornava distinto. Não cedemos. Lobsang optou, então, por uma estratégia de não confrontação: “Bom, eu hoje de manhã tenho que ir tratar dos papéis de uns alemães que vêm em Maio. Se querem mesmo lá ir, chamo-vos táxis e ligo a um camarada que vos pode acompanhar”.

Fá-lo sem apelo. Alguns minutos depois, aparecem dois carros modernos com matrículas e condutores chineses. O tal camarada já vem num deles. Metemo-nos no da frente. Ryan, um “valet” (encarregado de estacionar veículos em hotéis, casinos etc.) norte-americano e Jacob, adolescente sueco estudante de mais de 1 metro e 90 que atraía em redor de si grupos de tibetanos fascinados com a sua altura eram parceiros de viagem que tínhamos conhecido ainda em Chengdu (a capital da província chinesa de Sichuan). Entraram os dois no táxi de trás.

O mosteiro distava menos de 2 km mas o motorista equipado a rigor para a condução, de luvas e óculos escuros, decide que é uma distância mais que suficiente para desafiar o colega. Percorrem, assim, o trajecto como se de uma competição de rali se tratasse, com arranques chiados e saltos precipitados pelo declive rebaixado de condutas de água.

Ainda nos debatíamos com uma mal das alturas horripilante provocado por termos recentemente viajado, numa hora e meia apenas, dos 500 metros de altitude de Chengdu, para os 3650 de Lhasa.

Quando saímos dos táxis, já com a montanha ressequida de Pubuchok como fundo e nas imediações do mosteiro, a conversa manteve-se centrada neste tema: “Realmente estes chineses dão cabo de tudo! queixa-se Ryan, o único que se tinha furtado ao voo. ”Vim eu três dias apertado no comboio para me safar da dor de cabeça e bastou uns minutos naquele carro infernal para me sentir a rebentar tão ou mais que vocês!”

O amigo de Lobsang convida-nos a caminharmos ao longo de uma alameda delimitada por árvores desfolhadas e edifícios tibetanos brancos. No cimo, damos com a entrada principal do templo, construído, em 1419, por Jamchen Chojey, discípulo de um dos principais mestres budistas de então.

Para não variar, no interior, é proibido fotografar ou filmar e tresanda a manteiga de iaque, o combustível eleito pelos tibetanos para assegurarem a iluminação e a manutenção da chama nas velas oferecidas pelos crentes.

Fazemos o circuito integral das várias salas do templo e seguimos as explicações exaustivas do recém-empossado novo guia do grupo. Somos obrigados a dar razão parcial ao que o anfitrião original nos havia tentado transmitir: a sua dissertação soa-nos bastante repetitiva face ao que ouvíramos noutros templos e mosteiros.

E, tal como Lobsang, também este amigo se furtava compreensivelmente a abordar a melindrosa integração à força do Tibete na Grande China, quanto mais a contribuição dramática de Sera para a revolta de 1959.

Nesse ano, o exército chinês danificou vários dos colégios do mosteiro e assassinou centenas dos mais de 5000 monges residentes. Depois de o Dalai Lama se ter asilado na Índia, muitos dos sobreviventes refugiaram-se em Bylakuppe, próximo da cidade indiana de Mysore, estado de Karnataka. Estabeleceram, ali, um mosteiro de Sera paralelo, com os seus próprios colégios budistas e um Grande Salão de Assembleia com as mesmas linhas arquitectónicas do original.

A assistência do governo indiano permitiu que neles se estabelecessem mais de 3.000 monges tibetanos que desenvolvem actividades missionárias budistas na Índia e em diversos outros países.

Além da arquitectura religiosa e compaixão professada por Buda, os monges também levaram do Tibete o hábito de se reunirem dia após dia para discutirem, da forma o mais dialéctica possível, os ensinamentos do seu mestre iluminado.

A seita Gelupga (Chapéu Amarelo) do Budismo Tibetano a que pertencem os 600 monges aprendizes que ainda resistem em Sera tornou-se predominante no Tibete, a partir do final do século XVI. Estuda as doutrinas budistas através de um processo passo-a-passo. Durante a sua aprendizagem, os lamas devem participar nestes debates por forma a aperfeiçoarem a sua capacidade de compreensão e evoluírem para níveis mais avançados de estudo. Por norma, as sessões têm lugar às três da tarde de 2ª a 6ª. Duram, em média, uma hora e meia e só são suspensas em virtude de uma celebração ou cerimónia religiosa coincidente ou de mau tempo.

Quando deixamos o interior lúgubre do mosteiro, damos de caras com uma porta que anuncia “Debating Courtyard”. Nesse recreio amplo, entre árvores despidas pelo longo Inverno do planalto e sobre uma brita farinhenta, as múltiplas disputas já se faziam ouvir.

Dispersos pelo pátio, vários núcleos de monges trajados apenas com os seus hábitos vermelhos e que seguram “juzus” (rosários budistas) nas mãos, trocam argumentos atrás de argumentos. Em certos grupos, um ou dois dos religiosos apoderaram-se do protagonismo. São atentamente seguidos ou desafiados por pequenas plateias amontoadas com relativa intimidade. Para melhor expressarem os seus argumentos, estes profetas da ocasião puxam pelos interlocutores e fazem soar os seus juzus ou, mais frequentemente,  repetem um mesmo movimento de recuo, avanço e projecção do corpo para a frente que termina com um batimento de palmas exuberante.

Os “claps” sucessivos ressoam por todo o pátio. Fazem as mãos dos autores tão vermelhas como os seus trajes mas parecem ajudar a convencer os adversários. Quando se vêm forçados a reconhecer a razão, estes, soltam “oooooohhhhhs” prolongados em coro, e voltam a analisar as falhas e virtudes das suas alegações perante a examinação pouco criteriosa do público, então, na sua maioria, tibetano.

Passa a hora e meia. Os lamas recolhem ao conforto quase espartano dos edifícios do mosteiro de Sera. A assistência debanda alameda abaixo.

De acordo com instruções telefónicas de Lobsang, regressamos ao centro de Lhasa de autocarro. Aquele a que subimos vai lotado. Entre passageiros intrigados pela presença dos forasteiros e já vestidos para mais um fim de tarde enregelante, não tardámos a reencontrar os sorrisos incondicionais dos tibetanos e o seu aroma familiar a manteiga de iaque.