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Luzes de Ogimachi

Luzes de Ogimachi

A aldeia de Ogimachi ilumina-se aos poucos à medida que a escuridão toma conta da região de Shirakawa-go.

Ogimashi, Japão

Uma Aldeia Fiel ao "A"

Ogimashi revela uma herança fascinante da adaptabilidade nipónica. Situada num dos locais mais nevosos à face da Terra, esta povoação aperfeiçoou casas com verdadeiras estruturas anti-colapso.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Shirakawa-Go é, desde há muito, uma região eleita.  Começámos a descobri-la, faz uns bons dez anos, num documentário francês. Um comboio vencia o declive do percurso verdejante e solarengo da montanha até entrar num túnel, a meia-encosta. Durante algum tempo, a imagem mantinha-se negra e a música que acompanhava o som do comboio parecia querer anunciar algo mas o narrador antecipa-se: “... et voilá ... la vallée magique de Shirakawa-Go...”.

Saída do escuro, no outro lado da montanha, a composição revela, então, o cenário encantador do vale do rio Sho-gawa, com as suas casitas longínquas em forma de A parcialmente afundadas na neve.

O documentário manipulava a realidade. Apesar do crescimento inexorável das vias de comunicação japonesas, nenhum comboio dá ou alguma vez deu directamente para o vale mostrado a seguir ao túnel. Foi a inacessibilidade desta zona remota que atraiu os seus primeiros colonos, membros deslocados do clã Taira - praticamente aniquilado, em 1185, pelo clã rival Minamoto – que apostaram tudo em evitar novos confrontos mas tiveram que se defender do clima austero da região. Shirakawa-Go continua a registar uma das maiores quedas anuais de neve do mundo e, entre Dezembro e Abril, fica regularmente isolada do exterior do vale devido à intensidade e duração das tempestades.

O clima impiedoso e a acumulação excessiva de neve -que provocou provavelmente o desabamento de várias das primeiras casas erguidas – foram a inspiração forçada do estilo arquitectónico gassho-zukuri (mãos em oração). A construção gassho-zukuri foi aperfeiçoada com o passar dos séculos. Suporta, sobre estruturas fortes feitas de troncos de cedros, enormes telhados em V invertido e três ou quatro andares desenhados para alojar famílias extensas (às vezes de quase 30 pessoas).

Como é visível no maior de todos os gasshos de Shirakawa-Go, Wadanake - agora declarado Tesouro Nacional – as casas reservam ainda espaço para diversos tipos de armazenamentos e indústrias: sericultura no topo e produção de nitrato, (essencial para a produção de pólvora) abaixo do primeiro piso.

Um aparte para referir que a pólvora alterou uma balança de poder que era secular no Japão e se tornou vital para a sobrevivência dos shoguns (senhores feudais). Começou a ser produzida em grande quantidade em Shirakawa-Go e restante província de Hida, pouco depois de as armas de fogo terem sido introduzidas no Japão, pelos mercadores portugueses, a partir de 1543.

Passado meio milénio, a história do país do sol nascente deu voltas e mais voltas. A mais importante de todas - também ela militar – acabou em tragédia. Melhor do que proclamou o ex-primeiro ministro Yoshida Shigeru, o Japão perdeu a Segunda Guerra Mundial mas ganhou a paz e, por extensão, uma combinação entre prosperidade económica e equilíbrio social que é única à face da Terra.

Não espanta, portanto, que os senhores japoneses continuem bem armados.

Na multidão que, aos fins de semana, flui entre os cento e dez gasshõs de Ogimachi, cruzam-se inúmeros de chefes de família abastados (muitos octogenários e nonagenários), munidos de modelos SLR Canon ou Nikon topo de gama apesar de os seus conhecimentos de fotografia pouco passarem da função On/Off.

Até nas mais paragens mais remotas deste bastião do consumismo se percebe que o dinheiro é abundante, mas a forma algo desalmada com que o Japão e os japoneses se habituaram a gerá-lo causou e continua a causar sérios revezes ambientalistas e paisagísticos, por todo o país. Nem Shirakawa-Go nem Hida, em geral, parecem estar a salvo.

Shirakawa já era um importante destino turístico antes de a UNESCO ter aceite Ogimachi e Ainokura na lista do Património Mundial. A partir da classificação, no entanto, a fama da região e o número de visitantes aumentaram exponencialmente. Contribuiu para o processo a conhecida predisposição social japonesa para os comportamentos de grupo. À medida que os autocarros de excursão descarregavam mais e mais pessoas, aliciados pelo lucro, muitos dos proprietários de gasshos transformaram-nos em lojas de recordações e aos terrenos em redor em pequenos parques de estacionamento pagos. Estas e outras atrocidades culturais fizeram com que a UNESCO ameaçasse com a desclassificação que está actualmente em julgamento.

Apesar deste inconveniente, acredite que Shirakawa-Go e, acima de tudo, Ogimachi têm o seu indiscutível encanto que aumenta se forem visitados de Segunda a Sexta enquanto os japoneses trabalham. Se quiser confirmar, experimente observar Ogimachi do alto do ponto de observação, o Shiroyama Tenbodai. De preferência, bem cedo ou ao fim do dia quando as excursões estão ausentes e o cenário bucólico dos campos cultivados e da floresta em redor - possivelmente envolto numa névoa suavizante - exibe todo o seu esplendor.

Parte da área entre Gokayama e Tokayama, destaca-se, no Outono, pelo exotismo vermelho-amarelado das suas montanhas arborizadas, irradiantes quando os raios de sol nelas incidem ou empasteladas quando está enevoado ou chove. A paisagem só não é divinal porque foi vitima da mesma falta de sensibilidade que prejudicou Shirakawa Go, desta feita, a um nível governamental.

Como explica Alex Kerr no seu livro “Lost Japan”, a determinação nacional de fazer o país “funcionar” e facturar, em conjunto com a grande densidade populacional - são 130 milhões de habitantes num país de montanhas -  tem causado gradualmente a sua destruição.

Ao volante, ao longo da estrada 158 e entre incontáveis e intermináveis túneis, essa mácula vai-nos surgindo sob a forma de uma floresta de postes de alta tensão e cabos, sopés de encostas e margens de rios cimentadas, sequências surreais de barragens, plantações introduzidas de cedros etc. etc. Com o tempo, habituamo-nos a apreciar os cenários com uma espécie de filtro visual sempre que exploramos a província em redor.

Quando partimos de volta a Takayama, os gasshos soltam fumo branco com cheiro a lenha e a noite cai de vez sobre o vale e os telhados em A de Shirakawa-go.