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Trólei Azul

Trólei Azul

Trólei passa em frente do City Hall de Oslo.

Oslo, Noruega

Uma Capital Sobrecapitalizada

Um dos problemas da Noruega tem sido decidir como investir os milhares milhões de euros do seu fundo soberano recordista. Mas nem os recursos desmedidos salvam Oslo das suas incoerências sociais.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A deslocação do aeroporto no ultra-tecnológico comboio FlyToGet só nos suscita elogios mas, Santiago Garrido, um amigo venezuelano que anda a explorar a Europa resumiu bem a frustração financeira que se pode sentir de imediato na Noruega, como na restante Escandinávia: “então mas eu voo do sul da Europa para lá por vinte euros e depois aterro e pago o dobro só para chegar ao centro da cidade?? Alguma coisa está mal neste vosso continente!”

Houve outro aspecto que estranhámos mais. Enquanto percorremos a estação a caminho da saída, temos uma sensação distinta da que esperávamos ao chegar à Noruega. Os transeuntes altos, de pele alva e louros ou ruivos parecem-nos uma pequena minoria no mosaico multi-étnico que atravessamos. Grupos de somalis destacam-se em absoluto do imaginário escandinavo pela sua tez escura e, acima de tudo, pelas vestes longas e exuberantes das mulheres. Mas, estes africanos não são os únicos habitantes a destoar. Passamos por clãs atarefados de homens curdos, provindos da Bósnia e do Kosovo bem como outras partes do leste europeu. Também por paquistaneses e vietnamitas. Nenhuns têm aspecto de turistas.

A sua presença é mais visível que nunca em frente à estação central e no bairro Gronland e deve-se, em parte, à tradição norueguesa de acolhimento de refugiados – apesar de apenas os já assim considerados pelas Nações Unidas - mas também numa recente maior abertura à emigração que a recorrente e grave falta de mão-de-obra exigiu.

Poucas nações contribuem como a Noruega para ajuda externa e programas de refugiados. Como resultado, os imigrantes de Oslo são agora de mais de 25% e o seu ritmo de reprodução, em conjunto com o dos próprios noruegueses fazem da população da cidade uma das que mais aumenta na Europa. Claro está que a prosperidade inacreditável da nação contribui para a quantidade de crianças recém-nascidas que também encontramos.

Perdura a noção de que os noruegueses são obcecados por poupar e bem investir. Em tempos idos da sua história, os ascendentes vikings norses passaram por carências atrozes e tiveram que recorrer a ataques e saques sistemáticos que aterrorizaram a Europa e lhes granjeou uma reputação pouco invejável de bárbaros incorrigíveis. Além da pilhagem medieval, mais tarde, a nação passou por outras fases difíceis que suscitaram um forte movimento de emigração para as Américas e - brinca-se com o assunto - geraram em Edvard Munch o desespero que o levou a pintar “O Grito”.

Nos tempos que correm, a economia europeia definha a olhos vistos mas foi noticiado há uns dias que o governo de Oslo tinha dificuldade em decidir como investir os 570 mil milhões de euros acumulados no seu gigantesco fundo soberano principalmente com a venda do petróleo e do gás natural obtidos nos Mares do Norte, da Noruega e de Barents.

Como seria de esperar, os habitantes da cidade não deixam transparecer apreensão. Nem com a solução para o problema do investimento nem com nenhum assunto financeiro da nação ou particular.

É sábado de manhã e a capital entregou-se de alma e coração ao ar livre e ao desporto. Nas ruas, prepara-se uma prova de atletismo em que participam vários milhares de escandinavos e que barra o trânsito em certas ruas fulcrais. Um pouco por toda a parte passam por nós patinadores a grande velocidade e, em trilhos de zonas verdejantes vastas, até esquiadores de cross-ski que, mesmo sem neve, continuam a manter-se em forma para as competições  que hão-de regressar com o Inverno.

Mas nem só de actividade física se faz o dia. Caminhamos tranquilamente pelo parque Slotts quando nos cruzamos com duas mulherzinhas e um rapaz, todos em trajes tradicionais. Além delas, vislumbramos ainda, à distância, muitas outras pessoas em vestes semelhantes. A descoberta intriga-nos. Não resistimos a meter conversa e a indagar. Amalie, a mais velha dos irmãos com 19 anos, prontifica-se a explicar: ”Viemos todos para cerimónias de profissão de fé luterana e os fatos são os típicos lá da região e aldeia em que vivemos que se chama Frank, tal como o nosso apelido, fica na costa oeste da Noruega. As cerimónias vão realizar-se no City Hall. Vários dos convidados são ateus ou agnósticos e, por isso, optaram por não as fazer em nenhuma igreja.”

É predominante, no país, o respeito pelas crenças alheias e uma forte tradição de intervenção na pacificação do Mundo e sua celebração, com quartel-general no famoso Instituto Nobel e no Nobel Peace Center por onde passamos após uma paragem estratégica à entrada do City Hall para contemplarmos e fotografarmos as dezenas de nativos pitorescos da zona de Frank que vão chegando e se cumprimentam com sentimento.

Mas nunca foi tão notório como agora que a Noruega e, Oslo, em específico, têm os seus problemas. Com os atentados tresloucados que perpetrou contra os edifícios governamentais do centro e, na ilha de Utoya, contra os jovens participantes do campo de Verão do AUF (Arbeidernes Ungdomsfylking ou Liga de Jovens Trabalhadores), Anders Breivik deu expressão a uma facção ínfima de noruegueses xenófobos e, em simultâneo, extremistas.

Mesmo se a polícia de Oslo declarou há algum tempo que a cidade era a mais segura da Europa, números surpreendentes demonstram que o crime aumentou, ultrapassou o de outras cidades do norte do velho continente, ao ponto de um guia de viagem alemão se ter atrevido a apelidar a cidade de “A Capital Escandinava do Crime”.

No dia-a-dia superficial de um visitante, esta realidade pouco ou nada transparece.

No Parque de Esculturas de Vigeland, uma multidão descontraída e divertida de residentes e turistas apreciam as estátuas excêntricas e fotografam-se a interagir com elas.

A meteorologia do dia de Verão não chega aos calcanhares da dos países do sul. Mas, bastam uns minutos adicionais de caminhada, desta feita, pelas docas de Stranden para constatar como os noruegueses de Oslo se habituaram compensar a falta de sol. Tranquilizados pela inquestionável prosperidade nacional, usufruem agora, de bem-estar acrescido, viajam com frequência para lugares distantes e exóticos, consomem muito mais e quase sempre mais caro. A austeridade deixou de fazer sentido por estes lados.

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