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Wilkommen in Africa

Wilkommen in Africa

Casario excêntrico de Lüderitz com torres de duas igrejas em destaque sobre a orla do Deserto do Namibe.

Lüderitz, Namibia

Wilkommen in Afrika

O chanceler Bismarck sempre desdenhou as possessões ultramarinas. Contra a sua vontade e todas as probabilidades, em plena Corrida a África, o mercador Adolf Lüderitz forçou a Alemanha assumir um recanto inóspito do continente. A cidade homónima prosperou e preserva uma das heranças mais excêntricas do império germânico.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A aproximação a Angra Pequena confirma o fenómeno meteorológico que gerou o Namibe. Para o interior, resistia, indisputado, o calor seco e abrasivo a que nos tinha já habituado o deserto. Quanto mais nos aproximávamos da enseada bravia em frente a Lüderitz, mais o ar refrescava e nos chegava com uma estimulante fragrância de iodo marinho. Por alguns quilómetros extra, serpenteamos na estrada de terra e sal prensado. Contornamos o longo braço de mar a sul da cidade para logo voltarmos a apontar a norte, à península exposta ao Atlântico já definida como destino final. Passamos o farol listado de branco e vermelho e aguçado que o anunciava. Daí em diante, o vento ganha um poder avassalador. Projecta ondas desenfreadas contra as rochas e empurra vagas de névoa costa abaixo, por vezes tão densa que nos leva por completo a visão do litoral agreste. Mesmo difuso naquele manto branco intermitente, vislumbramos um padrão destacado no cimo de um promontório rochoso. Não restavam dúvidas. Em 1486, Diogo Cão chegou a zona actual de Cape Cross. Passado um ano, a serviço de D. João II e ao comando de duas caravelas de cinquenta tonéis e de uma naveta de apoio, Bartolomeu Dias ultrapassou, ali mesmo, o limite de Diogo Cão. Prosseguiu, depois, a navegação em busca do limite meridional de África.

Contornamos uma escada de madeira destruída por marés inclementes e ascendemos pelas rochas. Do cimo, abanados pelas rajadas furibundas, admiramos o poderio das ondas que moldavam os recortes rochosos e faziam oscilar a floresta de algas que para lá haviam sido arrastadas. Defrontavam-se as vagas, a névoa e o vento quando, saído do nada, um esquadrão de mergulhões nos sobrevoa a grande velocidade, a seguir a esse, um outro e logo mais, tão juntos quanto o vendaval lhes permitia. Aquela estranha migração que sarapintava de negro o céu esbranquiçado prolonga-se por uns bons vinte minutos, o tempo que nos mantém absortos, de olhos nos ares. Sem nada que nos apresse, espreitamos outros recantos de uma enseada contígua. Um deles revela-nos, do lado de lá da grande baía, o casario de Lüderitz, empoleirado no litoral ressequido tão comum por toda a Namíbia. Um templo amarelo destaca-se acima dos telhados vermelhos dos restantes edifícios, não tanto do solo arenoso. Tratava-se da igreja icónica, evangélica e luterana de Felsenkirche.

Os colonos alemães que a ergueram não perderam tempo em busca de inspiração. Uma vez que a colina (mais tarde apodada de Montanha de Diamante) em que lançaram as fundações era rochosa, baptizaram-na de Igreja das Rochas. O nome, como tantas outras influências germânicas, está para durar. E, no entanto, o domínio teutónico destas paragens esteve para nunca se verificar. Quando, por fim, se concretizou, resultou de uma caricata conjuntura colonial.

Desde a passagem de Diogo Cão e de Bartolomeu Dias que a presença dos europeus no deserto do Namibe se limitava à passagem ou assentamento limitado e célere de navegadores e mercadores. Esta realidade perdurou até 1800. No início do século XIX, sociedades missionárias alemãs e inglesas estabeleceram-se e ergueram igrejas. Ao mesmo tempo, comerciantes e agricultores instalaram-se e fundaram entrepostos. Alguns, ingleses, concentraram-se em redor da actual Walvis Bay. Histórica na Europa e já antes projectada para outras partes da Terra, a rivalidade entre a Alemanha e a Grã-Bretanha estendeu-se àquele fim-do-mundo inóspito.

Em 1882, Adolf Lüderitz, um mercador de Bremen requereu ao chanceler alemão protecção para uma estação comercial que planeava construir no Sudoeste de África. Otto von Bismarck fora toda a sua vida contra a expansão colonial do Império Germânico. Considerava que conquistar, manter e defender as colónias teria um custo superior ao do lucro por elas trazido, ao que se acresceria o risco de o prejuízo sabotar o poderio que a Alemanha mantinha na Europa. Contra a sua opinião, estavam milhões de alemães que observavam nações europeias rivais aumentar os seus impérios e, em muitos casos, obter proveitos das colónias. Estavam ainda mercadores e aventureiros com sonhos e projectos em diversas partes do mundo, como o de Lüderitz. Este, foi contemplado com a sorte de Bismarck necessitar de ser reeleito e de, como tal, se ter visto obrigado a agradar aos defensores da expansão colonial. Mal obteve o apoio do chanceler, Lüderitz instruiu Heinrich Vogelsand – um seu empregado - a adquirir terra em Angra Pequena a um chefe de etnia Nama. Pôde, assim, erguer uma povoação a que Lüderitz deu o próprio nome.

Em 1884, determinado a evitar a intrusão britânica, Lüderitz conseguiu que a área fosse decretada protectorado do Império Germânico. Uns meses depois, a bandeira alemã foi erguida. De uma forma precipitada e arrogante, os britânicos convenceram-se de que os rivais tinham ficado apenas com uns restos impróprios para consumo do território africano e anuíram.

Mesmo contra os princípios e a vontade genuína do chanceler Bismarck, Lüderitz – o homem e a povoação – forçaram a criação da colónia do Sudoeste Africano Germânico. Daí em diante e até 1915, a colónia expandiu-se, sobretudo para norte e para o interior inóspito. Igualou, em dimensão, o Império Germânico na Europa. Depois, suplantou-o em mais de uma metade. Até 1915, a população ficou-se pelas 2600 almas aventureiras. Lüderitz - a cidade - concentrou uma boa parte, em redor de actividades como a caça à baleia e de focas, a pesca e o comércio de guano produzido em quantidades industriais pela mesma espécie de aves que nos havia sobrevoado – e alvejado - junto ao padrão de Bartolomeu Dias, e por tantas outras.

Regressamos ao centro da povoação pelo mesmo caminho que, no entanto, nos parece outro. A maré tinha recuado centenas de metros. Deixara para trás uma vastidão arenosa antes coberta pelo Atlântico invasivo, um leito sinuoso e sedimentado em que um riacho salobro continuava a fluir para o mar. Junto ao seu limiar, aquém de um barco encalhado, um bando de flamingos sorvia a água. Não havia sinal das hienas-castanhas endémicas daquelas partes do Namibe, pelo que se alimentavam sem preocupações.

Paramos na orla da cidade para atestar o carro. O dono da gasolineira aparece de dentro de uma cabine e mete conversa. Percebemos de imediato que era de origem germânica, sem qualquer mixagem étnica, dos poucos que resistiram ao tempo e às vicissitudes da história. “Ah, são portugueses?” Admira-se, ao mesmo tempo que censura a ineficiência dos seus empregados nativos. “Têm vários cá na cidade, informa-nos como que a torcer o nariz e parece-nos que a conter um certo chauvinismo. Agora até são menos. Houve uma altura em que estavam por toda a parte.” Não tardaríamos a encontrá-los.

A tarde chegava ao fim. O sol que se punha a oeste do Atlântico requentava o sortido de cores dos inúmeros edifícios baixos da cidade. Aproveitamos esse estímulo adicional e percorremos as ruas quase desertas atentos à arquitectura art nouveau germânica, que a descoberta de diamantes no deserto em redor, em 1909, permitiu dotar de caprichos e fantasias de outra forma difíceis de pagar. Não foram, todavia, só as pedras preciosas mineradas a contribuir. Desde 1903, que o Império Germânico combatia a resistência dos nativos à sua invasão. O conflito agravou-se. Degenerou nas Guerras Herero travadas contra esta tribo de criadores de gado que, como os vizinhos Nama, os Khoi e os Namaqua, noutras partes, controlavam aquela zona do Namibe.

No auge do conflito, as tropas alemãs contavam com 20.000 combatentes. Em 1908, tinham já matado dezenas de milhares de nativos, em pleno conflito, ou em campos de concentração como o da Shark Island em frente à cidade, de onde os prisioneiros só saíam para trabalhar à força na construção de infraestruturas ou nos negócios que enriqueciam os colonos. Na Berg Street - o antigo coração diagonal da cidade - a linha de casas que ajudaram a erguer mais parece saída de um cenário cinematográfico.

Apreciamos a pitoresca Haus Grünewald com as suas janelas bávaras, algumas parte de um torreão embutido. Os frontões dos lares seguintes são recortados a condizer e exibem cores bem garridas: azul quase turquesa, amarelo, laranja e, mais à frente, o tom de salmão do Barrels, um bar-restaurante especializado em marisco e pratos também eles com influência germânica.

Surpreende-nos ou talvez não que várias das mansões apalaçadas mantenham telhados bem inclinados, como se alguma vez caísse neve por aqueles lados. É o caso da exuberante e emblemática casa Goerke, logo atrás da Felsenkirche, também da estação de comboios e do edifício Krabbenhöft & Lamp, este, à imagem das casas Kreplin e Troos, erguido por magnatas dos diamantes.

Ao caminharmos pelo centro reparamos no tom de pele dourado de vários transeuntes, nos seus olhos translúcidos cor de mel, verde-azeitona e até azuis, como os de um vendedor de modos suaves que, à entrada da gare local, quase nos convence a comprar-lhe peixe fumado.

Coincidência ou não, fazemos compras quando damos com o primeiro habitante de origem portuguesa de Lüderitz. Luís Figueira é dono da única grande mercearia aberta após o anoitecer, o “Portuguese Supermarket”. Apesar de falar inglês, as feições do homem ao balcão, algo rechonchudo e com a barba por fazer, dão-nos indicações promissoras da sua ascendência. “O senhor é que é o português aqui da loja?” perguntamos-lhe.

A questão e a suspeita de que estava perante gente com o seu sangue despertou-lhe um brilho nos olhos e um forte estímulo para nos contar de tudo um pouco. Fá-lo em inglês. A língua portuguesa, tinha-a perdido quase toda. “Pois os meus avós vieram da Madeira para cá na altura em que havia sempre trabalho na pesca e no processamento do peixe. Ainda tenho a minha mãe lá em Santana e vou à Madeira uma vez ao ano. Aqui em Lüderitz, casei com uma senhora de cor e cá estamos. Temos quatro filhos, todos com nomes portugueses. Vocês têm que passar lá pela nossa academia do bacalhau! É onde a malta de origem portuguesa convive...”

Quando os avós de Luís Figueira chegaram, Lüderitz fazia parte da África do Sul. Assim o ditou a continuação da história destas paragens. Em plena 1ª Guerra Mundial, a África do Sul ocupou todo o Sudoeste Africano Germânico e deportou muitos alemães. Com a mudança da prospecção mineira das redondezas para sul, essa deportação contribuiu para o declínio temporário da população. A África do Sul administrou Lüderitz e a antiga colónia germânica - primeiro sob mandato da Liga das Nações e da ONU, mais tarde à revelia da ONU - até 1990. Nesse ano, o movimento SWAPO (SouthWest African People Organization) forçou a independência da Namíbia, com uma estratégia de confrontação militar a partir do sul da Angola recém-libertada do jugo português.

Passou um século sem que o território actual da Namíbia estivesse sujeito a um domínio germânico efectivo. São mais de 30.000 os seus habitantes com ascendência alemã e a falarem alemão, audiência de uma estação de rádio em alemão, um serviço noticiário televisivo próprio e o jornal diário Allgemeine Zeitung fundado em 1916 e a resistir. Malgrado a génese inusitada do legado teutónico e os esforços das autoridades namibianas para o mitigarem, em Lüderitz como, mais a norte, em Swakopmund, esse zeitgeist está longe de passar.