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South African Geographic

South African Geographic

Moldura na Waterfront da Cidade do Cabo enquadra a Table Mountain que serve de fundo à cidade.

Table Mountain, África do Sul

À Mesa do Adamastor

Dos tempos primordiais das Descobertas à actualidade, a Table Mountain sempre se destacou acima da imensidão sul-africana e dos oceanos em redor. Os séculos passaram e a Cidade do Cabo expandiu-se a seus pés. Tanto os capetonians como os forasteiros de visita se habituaram a contemplar, a ascender e a venerar esta meseta imponente e mítica.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não há como lhe escapar. Embrenhados no labirinto de docas, varandas e passadiços de Waterfront ou das Cape Docks. Nas sucessivas enseadas a leste e a sul que o Atlântico do Sul fustiga sem clamor e cobre de enormes algas: Sea Point, Bantry Bay, Clifton, Camps Bay, também outras mais distantes, para norte, Table View e Bloubergstrand. O mesmo se passa para o interior intrincado da cidade, seja o colorido de Bo-Kaap ou o mais sério e composto em redor de De Waterkant ou de ZonneBloem. Desde que a meteorologia não contemple nuvens baixas, a Table Mountain insinua-se à Cidade do Cabo e aos vastos arredores como a guardiã secular da grande urbe sul-africana que se tornou.

Esta montanha achatada protege-a dos ventos sul e de boa parte das variantes. Durante séculos, facilitou a sua defesa e, não menos importante, concedeu aos colonos e actuais cidadãos da Cidade do Cabo uma das moradas mais deslumbrantes à face da Terra.

A primeira tarde, passamo-la na mesma Victoria & Alfred Waterfront que funcionou como molhe de mercadorias nos tempos da Companhia Holandesa das Índias Orientais, quando a zona a norte da Cidade do Cabo (Table Bay) ficou conhecida como “A Taverna dos Mares” pela preponderância que tinha no abastecimento dos navios holandeses mas não só.

Uma névoa densa sub-reptícia, avançara Atlântico do Sul acima. Pairava sobre a zona portuária e mantinha cobertos até os telhados dos prédios mais elevados. Só quase ao fim do dia, um vento providencial a soprou para outras paragens e nos deixou vislumbrar as escarpas sobranceiras da Montanha da Mesa, do Devil’s Peak no limite leste dos seus quase 3km de extensão à Lion’s Head, no extremo oposto. Da névoa, persistia apenas uma réstia que pendia do cimo da meseta, mais ou menos extensa, consoante a intensidade do vento sudoeste e a densidade das nuvens orográficas já formadas.

Os nativos já se habituaram ao surgimento desta que apelidaram de Tablecloth e ao seu movimento mágico sobre a montanha. Têm-na apreciado, retratado e qualificado de formas apuradas com o tempo. Alguns, dizem que é Deus, ele próprio, que estende a toalha. Entre a comunidade de malaios radicados na Cidade do Cabo, popularizou-se o mito de que o efeito resulta de uma peculiar competição de fumo. Van Hunks, um pirata holandês retirado, nunca largava o seu cachimbo. Fumava junto ao sopé do Devil’s Peak quando um estranho se aproximou e o desafiou para um duelo de cachimbada. Após um longo dia de fumaças (diz-se até que o duelo terá durado vários dias) uma enorme nuvem de fumo tinha-os envolvido e à Table Mountain. Van Hunks apercebeu-se não só de que ganhara o duelo mas também de que o rival era o Diabo. Os dois desapareceram no clarão de um relâmpago. Deixaram para trás a toalha de mesa que é, hoje, de quando em quando, visível.

Por norma, quando a “mesa está posta”, e o vento ou a chuva são demasiado fortes, as autoridades fecham os acessos ao topo da montanha. Chegamos, assim, à noite curiosos quanto ao que aconteceria no dia seguinte. Estávamos supostamente a chegar ao fim do Outono da região. Contra toda a lógica, a Cidade do Cabo mantinha temperaturas máximas bem acima dos 25º e dias de céu limpo  numa sequência anacrónica demasiado longa que a conduziria à situação de seca drástica em que se mantém.

A nova aurora confirmou-nos mais um desses dias de céu azulão e calor inusitado. Nem sequer hesitámos. Deixámos a pousada de Sea Point, devorámos um pequeno-almoço à pressa e metemo-nos no autocarro. Meia-hora depois, estávamos a bordo do teleférico rotativo que conduzia ao topo da Table Mountain.

À medida que sobe, a cabine desvenda os panoramas impressionantes no sopé da montanha: a Lion’s Head do lado oposto do desfiladeiro; aos poucos, o casario da Cidade do Cabo a aumentar de dimensão, com os arranha-céus do CBD a destacarem-se acima dos demais; a zona da Waterfront, as suas docas, a Table Bay e, já quase num perder de vista prateado, a silhueta da Robben Island em que as autoridades sul-africanas do Apartheid mantiveram aprisionado Nelson Mandela. Passados esses tempos atrozes, a África do Sul preocupa-se com a aparência de uma justiça social de primeiro mundo que deve ser ainda mais insuspeitável num contexto turístico. Ao contrário do que acontece em tantos teleféricos por esse planeta fora, em vez de as pessoas se acotovelarem e disputarem as janelas viradas para o lado mais fotogénico, a cabine rodava enquanto subia. A tecnologia resolvia, assim, de forma igualitária, a ansiedade partilhada a bordo.

No topo, a mais de 1000 metros - 1,086m são a altitude máxima da Table Mountain - o vento soprava violento, mas não o suficiente ou, talvez numa direcção distinta da que forçava as autoridades a suspender as viagens do teleférico, por vezes, dias a fio.

De varandins que faziam de miradouros, deslumbramo-nos pela primeira vez com a sumptuosidade geológica e a complexidade dos cenários em redor. Para sul, um longo promontório de arenito tingido por vegetação rasa estendia-se até um horizonte marinho distante. Era a Península do Cabo. De um lado, encontrava o Atlântico do Sul, numa encosta de início abrupta que logo se amansava e se entregava ao oceano num suave declive verdejante. Do lado oposto, a Península dava para a False Bay, a que os marinheiros portugueses começaram a chamar de Cabo Falso por, quando regressavam do Oriente, naquela intrincada configuração dos fundos de África, confundirem amiúde o Cabo Hangklip com a Ponta do Cabo da Boa Esperança, o mais mal afamado e temido dos pontos costeiros porque passavam, não obstante o re-baptismo da autoria de Bartolomeu Dias.

Malgrado o sucesso da travessia pioneira para o Índico, nos seus imaginários, a Table Mountain, a Península do Cabo, o Cabo da Boa Esperança, a Ponta do Cabo e as tempestades furiosas que tantas vezes os obrigavam a atravessar, continuavam a justificar o imaginário medonho que Camões atribuiu à mágoa de Adamastor, um dos gigantes da mitologia grega banido para o Cabo pela ninfa Doris, por o gigante se ter apaixonado pela sua filha Tethis. Pois, segundo, Camões, Adamastor aparecia agora nos domínios do Cabo sob a forma de tempestade. Apesar do sucesso de Bartolomeu Dias, continuou por muito tempo a afundar muitas das embarcações que procuravam atravessar do Atlântico para o Índico.

Nesse dia glorioso, não vislumbrámos sinal do monstro. Bem mais próximos, detectámos a chamada “Back Table”, os seus cumes geminados conhecidos por “Twelve Apostles” e as praias arredondadas de Bantry Bay, Clifton e Camps Bay. Também a baía de Sea Point em que estávamos alojados e a profusão de vivendas e moradias de luxo, algumas entre as propriedades mais valiosas da Cidade do Cabo. Logo abaixo dos varandins, indiferentes a três montanheiros que preparavam uma descida em rappel, uma colónia de híraxes combatia o frio húmido trazido pelo vento, a absorver o calor solar atrás de uma barreira de rochas. Do nada, outros tantos caminhantes surgem de um trilho dissimulado. Tinham seguido o exemplo pioneiro de António de Saldanha – mas um caminho distinto - e ascendido a montanha a pé. Este português que se crê de origem castelhana, foi um capitão e navegador integrante da armada de 1503 de Afonso de Albuquerque. Nessa expedição, ficou incumbido de levar as três embarcações que comandava a juntarem-se à armada que tinha zarpado à frente. Para diante no percurso, Saldanha e os seus homens patrulhariam e predariam o comércio árabe no Mar Vermelho.

Não necessariamente pelas melhores razões, Saldanha ancorou na Baía da Mesa e foi o primeiro europeu a ascender à Table Mountain. Desde a partida de Lisboa que as embarcações por ele comandadas padeciam de má pilotagem. Na eminência do Cabo, Saldanha terá errado no cálculo da sua travessia e ancorou num local precoce. Confuso com o que se passava, desembarcou na zona de Table Bay. Subiu à montanha adjacente e deu-lhe o nome de Taboa do Cabo. Do topo, pôde verificar que a Ponta do Cabo da Boa Esperança se encontrava para sul, ainda por cruzar. Saldanha e a tripulação abasteceram-se ali de água, escavaram uma grande cruz que pode ser encontrada nas imediações de Lion’s Head e envolveram-se numa pequena disputa com indígenas Khoikhoi, a etnia africana dominante aquando da chegada dos europeus. Saldanha sofreu apenas ferimentos ligeiros. Pôde regressar à embarcação e prosseguir a sua atabalhoada viagem.

Na actualidade, os encontros com os nativos da Cidade do Cabo são afáveis e recomendam-se. Tanto a travessia do oceano Atlântico para o Índico como a navegação em redor da Table Mountain, a subida à montanha e as caminhadas sobre a sua meseta estão bastante facilitadas, mesmo se a fauna selvagem residente é bastante mais prolífica que os simples híraxes que se exibem aos recém-chegados. Além destes pachorrentos hiracóides, habitam a montanha porcos-espinhos, lagartos, tartarugas, mangustos e suas arqui-rivais cobras de várias espécies. Até 1990, os babuínos também marcavam presença. Hoje, as suas acções de guerrilha anti-turistas são sobretudo famosas na Ponta do Cabo.

Uma série de trilhos com diferentes amplitudes partem da frente da “Shop of the Top” e percorrem o cimo da meseta. Metemo-nos por um que avançava pelo interior até ao Maclear’s Beacon, uma pilha de pedras erguida pelo médico-astrónomo irlandês Sir Thomas Maclear, em 1865, para auxiliar na medição da curvatura da Terra. Dali, cortamos para as imediações do Devil’s Peak e, logo, para junto do precipício norte da Table Mountain, onde o cimo vertiginoso das falésias nos volta a revelar o casario da Cidade do Cabo, a sua Waterfront e a vasta Table Bay.

Nesta zona, vários grupos detêm-se e entregam-se a fotos e a selfies demasiadas demasiado arriscadas, sobre calhaus que espreitam o abismo eminente. No trecho que precede o regresso ao teleférico, com o sol a começar a pôr-se para oeste, reparamos na profusão de silhuetas humanas que usavam esses calhaus como pedestais e se eternizavam naquele lugar tão memorável. Mais que convencidos no que dizia respeito ao cenário, sentamo-nos por momentos a admirar as suas intrigantes coreografias casuais.

Mas, tínhamos planeado subir à Lion’s Head a tempo de apreciarmos a Table Mountain em formato panorâmico sob a derradeira luz crepuscular. Apressamo-nos, assim, a descer num dos últimos teleféricos e apontamos à colina. Por essa hora, já um pelotão de outros trekkers disputavam os dois trilhos assinalados. Enganamo-nos e metemo-nos pelo mais dissimulado e longo. O erro obriga-nos a galgar a montanha a um ritmo cruel. Atingimos o alto encharcados em suor e com os corações a um rimo que pensávamos humanamente impossível. Fosse como fosse, estávamos no mais fulcral dos pontos panorâmicos da cidade. Podíamos andar em sua volta e admirar e fotografar a Table Mountain, do Devils Peak às profundezas da Cape Península. Para trás, o casario da Cidade do Cabo, em toda a sua diversidade e riqueza dispunha-se e ganhava cor e dramatismo à medida que a iluminação eléctrica e a réstia requentada do arrebol nele incidiam. Até o breu se instalar, rodopiamos sobre aquele cabeço de leão exuberante vezes sem conta, ofegantes, extenuados, indecisos sobre o que mais nos impressionava e queríamos registar de tão monstruosos cenários.

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