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Planície sagrada

Planície sagrada

Planície de Bagan repleta de templos e pagodes erguidos por crentes budistas ao longo dos séculos.

Bagan, Myanmar

A Planície das Compensações Celestiais

A religiosidade birmanesa sempre assentou num compromisso de redenção. Em Bagan, os crentes endinheirados e receosos continuam a erguer pagodes na esperança de conquistarem a benevolência dos deuses.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Desde cedo, os birmaneses foram instruídos a confiar o seu destino a  reis e divindades que reverenciavam com fervor. Algumas dessas personagens terrenas e celestiais foram-se destacando das demais e fizeram história.

Em 1047, Anawratha, um rei precursor da nação birmanesa anexou Thaton, um domínio que lhe fazia sombra. A narrativa desta conquista explica, em parte, a espiritualidade e grandiosidade de Bagan.

Manuha, o todo-poderoso rei do povo rival de Mon tinha-lhe enviado um monge para o formar religiosamente. A determinada altura, Anawratha exigiu-lhe uma série de textos sagrados e de relíquias importantes, negadas por Manuha, que duvidava da seriedade da sua crença.

Anawratha enfureceu-se. Apoderou-se de Thaton e levou para Bagan tudo o que valia a pena pilhar – incluindo 32 exemplares das escrituras clássicas budistas, os monges e escolásticos de Thaton que as guardavam e estudavam e o próprio líder derrotado, Manuha. O monarca adoptou o Budismo como religião única do reino.

Nos duzentos e trinta anos seguintes, Anawratha e os reis bagari provaram-se devotos à religião que se havia alastrado ao Sudoeste Asiático a partir do território actual do Bangladesh. E, em nome daquela forma híbrida de Budismo Theravada - em parte Tântrica, em parte Mayahana - construíram uma média de vinte templos por ano, disseminados por uma área com 40 km2. A vitória militar estrondosa que lhes deu origem surpreendeu e inspirou a vida dos súbditos que se habituaram a mencioná-la como Arimaddanapura, A Cidade do Rei que Esmagou o Inimigo.

Anawratha, em particular, ergueu alguns dos mais grandiosos edifícios, ainda hoje, destacados entre os milhares que sobreviveram às invasões tártaras de Kublai Khan – a quem os birmaneses recusaram pagar tributo - e ao longo abandono que se seguiu. Foram os casos do Shwezigon, do Pitaka Taik (a biblioteca das escrituras) e da elegante Shwesandaw paya, construída imediatamente a seguir à conquista de Thaton.

Quase um milénio depois, como um pouco por todo o Mundo, a religiosidade dos birmaneses vai da fé mais pura à crendice superficial e interesseira.

Um bom exemplo da última das modalidades foi narrado por George Orwell em “Dias na Birmânia”, na personagem de U Po Kyin, um magistrado nativo corrupto e ambicioso que conjura todas as intrigas possíveis para desgraçar a vida do Dr. Veraswami, este, um médico indiano que U Po Kyin abomina e a quem quer conquistar a única vaga não “british” no European Club de Kyauktada, o distrito fictício da Birmânia Imperial em que a acção se desenrola.

Pois, como escreve Orwell, a determinada altura, “U Po Kin tinha feito tudo o que um homem mortal podia fazer. Era tempo de se preparar para o próximo mundo – em resumo, de começar a construir pagodas...”.

No seu caso particular, esse, provou-se dos poucos planos que correram mal. U Po Kyin sofreu um ataque cardíaco e morreu antes que mandasse assentar o primeiro tijolo. 

Não terá sido caso único mas, ao longo da história, milhares de outros birmaneses precaveram-se a tempo. As suas obras foram erguidas para a eternidade um pouco por toda a nação. Bagan, mais ou menos a meio do território actual do Myanmar e nas margens do grande rio Irrawaddy, acolheu uma concentração única.

Exploramos a planície fluvial vasta em que se dispõe, sobre pasteleiras velhas e rangedoras. Pedalada após pedalada, investigamos e deixamo-nos deslumbrar pelos inúmeros templos grandiosos por ali erguidos, a começar pelo Ananda que foi construído pelo rei Kyazinttha em forma de crucifixo e baptizado com o nome de um dos primos veneráveis de buda. 

A sua beleza exótica funde a arquitectura Mon com o estilo de construção hindu adaptado pelos birmaneses. E granjeou-lhe o título colonial de Westminster Abbey de “Burma”, apesar dos quatro budas que surgem no seu âmago, virados para os diferentes pontos cardeais, com posições e expressões distintas.

Em frente de Thatbyinnyu, o espanto renova-se. E o mesmo volta a acontecer no sopé do impressionante Dhammayangyi que, de tão ambicioso, nunca chegou a ser terminado pelo rei Narathsu que procurava o perdão divino por ter assassinado o pai e o irmão mais velho para ascender ao trono. A obra e o indulto ficaram a meio mas o templo continua a destacar-se como o maior de Bagan (61 metros).

Quando a luz se começa a desvanecer, incontáveis ciclistas percorrem as estradas de terra batida que conduzem aos templos, atrapalhados pelo pó levantado pelos autocarros turísticos, pelos táxis e pela frota de carroças que circulam pelas redondezas. À chegada à base do pagode, um exército de vendedores de recordações faz-se aos estrangeiros armado de recordações e do mais genuíno charme birmanês.

De Crepúsculo em Crepúsculo

O sol aproxima-se rapidamente do horizonte. Enquanto isso, os terraços mais elevados do templo vão ficando à pinha, preenchidos por dezenas de monges budistas e por uma multidão internacional que, a esforço, se coordena na partilha do monumento. A urgência de subir a escadaria demasiado íngreme, encontrar um espaço e apreciar a paisagem surreal tem prioridade face às compras até porque, no dia seguinte, os mesmos vendedores e produtos surgirão neste e noutros templos, tão disponíveis como sempre.

Do topo, as cores da planície semi-ressequida somem-se no crepúsculo e numa névoa difusa que a condensação tardia e algum fumo libertado por fogueiras longínquas vão formando. A visão é quase extraterrestre. Em redor, para todas as direcções, centenas e centenas de templos vermelho-tijolo com pontas aguçadas, projectam-se do solo criando uma atmosfera solene que cada uma das almas sobre os terraços e escadarias de Shwesandaw absorve no mais profundo espanto.

Esta reacção contrasta com a manifestada pelos visitantes e qualquer interessado em história e arquitectura quando descobrem que a povoação e a sua esplendorosa herança não estão sequer classificados pela UNESCO.

Tal como se passou em relação a tantos outros aspectos, o governo dictatorial do Myanmar isolou-se também quanto à recuperação do seu património que tratou de incompatibilizar, desrespeitando as regras vigentes no resto do Mundo.

Em 1996, até foi apresentada uma candidatura de Bagan mas, diversos danos já infligidos e a recusa em pactuar com as indicações dadas pela organização inviabilizaram o esforço. Por essa altura, a junta militar tinha já restaurado o património - stupas, pagodes, templos e outros edifícios seculares - sem qualquer critério profanando o estilo base com materiais modernos que em nada se pareciam com os originais.

Como se não bastasse, os governantes de Naypyidaw construíram ainda, na planície de Bagan um campo de golfe, uma via asfaltada e uma torre de vigia com 61 metros. O paradigma do sacrilégio  continua em vigor principalmente porque, em termos de jurisdição, o património milenar continua ao Deus dará.

Apesar de tudo, estas e outras atrocidades são insignificantes se comparadas com os crimes económicos e sociais cometidos para permitir a construção da nova capital Naypyidaw. Alguns estrangeiros optam simplesmente por as ignorar, privilegiando a beleza do Myanmar e o acolhimento caloroso garantido pelos sempre atarefados nativos. 

Ninguém sabe ao certo quantos edifícios religiosos abriga Bagan. No final do século XIII, a contagem oficial indicava alegadamente 4446. Por volta de 1901, estudos britânicos contabilizaram 2157 monumentos ainda de pé e identificáveis. Mas, em 1978, apenas alguns anos depois do forte tremor de terra que abalou a região, um novo exame estimou ainda mais que o anterior: 2230. A conclusão a que se chegou entretanto só espantou quem não conhecia o modo de vida birmanês: os templos simplesmente não param de aumentar.

Com tantos budistas ávidos por salvaguardar a sua próxima vida, os residentes mais ricos de Yangon, entre outros, (incluindo muitos oficiais do governo militar) encontram ali a redenção. Reconstroem e erguem novos pagodes ao seu critério e a um ritmo inesperado – cerca de trezentos só no princípio do século XX – demasiadas vezes indiferentes à arquitectura do património original. Apesar de indignar a maior parte dos técnicos da UNESCO esta dinâmica faz parte da forma de vida birmanesa. É vista, no país, como natural.

A Azáfama Também Espiritual de Nyang U

Alvorada atrás de alvorada, novos dias quentes despertam em Nyang U e o mercado da povoação entra em frenesim, indiferente ao fluir do país e do resto do mundo. Mulheres de rostos pintados de dourado, por thanaka – uma protecção natural contra o sol - gerem as suas bancas de fruta e vegetais coloridos e convivem, quando podem, alegres e sorridentes apesar da intensidade de alguns negócios. Vendedores de bilhetes de autocarro, gritam os seus destinos entre a multidão redobrando esforços para completar lotações sem fim. E, quando menos se espera, pullmans incomparavelmente mais modernos estacionam nas imediações e despejam hordas de turistas curiosos, quase todos de máquinas fotográficas em punho e carteiras recheadas de kyats voláteis. Em absoluto contraste, na rua em frente, freiras budistas passam em fila pelas portas de domicílios e pequenos negócios com recipientes que os crentes lhes enchem de arroz e um ou outro complemento mais rico que aliviam a sua árdua privação monástica.

Para diante, o mercado transforma-se numa feira barulhenta e poeirenta, animado por passatempos e jogos básicos promovidos com a ajuda de altifalantes. Transaccionam-se também vacas e cabras e muita malagueta que os potenciais compradores apanham à mão cheia e deixam cair como que para comprovar o potencial explosivo.

Logo ao lado, a azáfama é espiritual. Uma alameda coberta, ocupada por vendedores de artigos religiosos, conduz à entrada da Shwezigon paya, ao mesmo tempo um dos mais antigos e mais activos templos budistas de Bagan, considerado o protótipo das milhares de stupas espalhadas pelo país.

Erguido até 1102, Shwezigon foi uma das primeiras obras do rei Anawaratha mas a sua importância vai muito para lá da antiguidade. Os fiéis crêem que um dos seus túmulos conserva um osso e um dente do buda Gautama e que um dos pilares de pedra contém inscrições ditadas em dialecto Mon pelo rei Kyazinttha, que se encarregou de acabar a obra, após a morte do seu antecessor.

Estamos num suposto “Inverno” do sudoeste asiático mas, assim que o Sol sobe no horizonte, brilha inclemente e incide nos crentes que circulam em redor do núcleo dourado do templo. Estes rezam compenetrados, indiferentes ao burburinho provocado pelas primeiras excursões estrangeiras do dia que ocupam o complexo por breves minutos e logo o deixam em direcção às ruínas.